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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Paulo César Saraceni

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.10.2019
05.11.1933 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
14.04.2012 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Paulo César Saraceni  (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1933 – Idem, 2012). Roteirista e diretor de cinema. Com pai paulistano e admirador do político Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e mãe vinda de família mineira tradicional, inicia os estudos em escola francesa. Joga no time juvenil do Fluminense Futebol Clube, onde conhece, em 1951, seu grande...

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Paulo César Saraceni  (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1933 – Idem, 2012). Roteirista e diretor de cinema. Com pai paulistano e admirador do político Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e mãe vinda de família mineira tradicional, inicia os estudos em escola francesa. Joga no time juvenil do Fluminense Futebol Clube, onde conhece, em 1951, seu grande mentor, o escritor Otávio de Faria (1908-1980). 

No ano seguinte, escreve críticas de cinema para a Revista Latina e ingressa na faculdade de direito, curso que abandona cinco anos depois. Entre 1955 e 1958, interpreta pequenos papéis na filial carioca do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) e frequenta o cineclube da Faculdade Nacional de Filosofia com os amigos Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), Leon Hirszman (1937-1987) e Saulo Pereira de Melo. 

Realiza os curtas Caminhos (1958-1959) e Arraial do Cabo (1959). O segundo filme, codirigido por Mário Carneiro (1930-2007), representa, ao lado de Aruanda (1960), de Linduarte Noronha (1930-2012), o marco inaugural do cinema novo, movimento cinematográfico brasileiro que defende a produção de filmes realistas e de baixo custo. Saraceni fomenta esse ideário durante o curso de direção no Centro Sperimentale di Cinematografia, na Itália, em 1960 e 1961. Retorna ao Brasil e filma Porto das Caixas (1962), o curta Integração Racial (1964) e O Desafio (1964). Torna-se sócio da Difilm e da Mapa Filmes, respectivamente distribuidora e produtora, fundadas por companheiros cinemanovistas. 

Participa de Morire Gratis (1968), de Sandro Franchina (1939-1988), e como roteirista de Tropici (1967), de Gianni Amico (1933-1990). Os dois italianos são amigos que mantém na Europa, ao lado de Marco Bellocchio (1939) e Guido Cosulich. Realiza Capitu (1968), baseado no livro Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis (1839-1908). Nos anos posteriores, dirige filmes publicitários na produtora Planiscope, fundada com seu irmão, Sérgio. Com o irmão, retorna ao cinema em A Casa Assassinada (1971) e Amor, Carnaval e Sonhos (1972). 

Cria a empresa Sant’Ana Filmes e realiza: Anchieta, José do Brasil (1977), uma conturbada produção com patrocínio estatal; Ao Sul do Meu Corpo (1981), retido por dois anos na Censura; e Natal da Portela (1988), coprodução francesa. Participa como ator em Gordos e Magros (1977) e Muito Prazer (1979). 

Trabalha como diretor de equipe nas filmagens de Copa de 78 – O Poder do Futebol, também de 1979. Em 1984, filma Bahia de Todos os Sambas, produção italiana codirigida com Leon Hirszman. O documentário é finalizado apenas em 1996, com a retomada do cinema brasileiro após a crise de 1990-1995. Seus últimos filmes são O Viajante (1998), Banda de Ipanema – A Folia de Albino (2002) e O Gerente (2011).

Em 2012, Paulo Saraceni morre em decorrência de um acidente vascular cerebral, enquanto prepara um docudrama sobre a geração do Chaplin Club, cineclube fundado em 1928.

Análise

Hedonista, amante das farras, constantemente apaixonado por mulheres, amigos e filmes, mas rigoroso na realização de suas obras. Mantém controle absoluto quanto às motivações estéticas e aos orçamentos e prazos de produção de seus filmes. Essa é a imagem de Paulo César Saraceni quando se lê sua autobiografia. Percebe-se o forte vínculo entre a experiência de vida e a cinematográfica.

Um dos fundadores do cinema novo, com O Desafio, Paulo César mergulha nas desilusões revolucionárias de sua geração. O filme narra a crise existencial e amorosa de um jornalista, desencadeada pela derrota política imposta pelo golpe militar de 1964. O amor entre o protagonista e uma burguesa de pensamento progressista é envolto pela depressão e pelos escombros que a situação impõe. Pontuado por canções líricas e de protesto, o filme sugere que, se a História descreve fatos a serem interpretados, somente a arte consegue expressar os sentimentos provocados por eles.

Essa fé no poder da arte associa-se à ideia do cinema como “arte do amor”, justificando a opção de Saraceni por caminhos formais que escapam do ideário do cinema novo. Enquanto esse grupo procura dar consistência à função pedagógica de um cinema revolucionário e nacionalista, Saraceni escolhe Limite, filme de 1931 de Mário Peixoto (1908-1992), e não a obra do cineasta Humberto Mauro (1897-1983). Escolhe Otávio de Faria, Lúcio Cardoso (1912-1968) e Jorge de Lima (1893-1953) em vez das literaturas regionalistas. São esses os modelos que mais o influenciam, deixando a resposta política de O Desafio irradiar-se ao longo de sua obra por meio da relação entre as paixões e as formas repressivas do poder.

A admiração pela literatura de Lúcio Cardoso manifesta-se em três momentos. Porto das Caixas, realizado dois anos antes de O Desafio e escrito para o cinema por Lúcio Cardoso, evoca o tom expressionista de Mário Peixoto. No filme, interligam-se a cidade em decadência, que aguarda nova força a ser extraída das obscuras promessas de políticos, e o drama da mulher que, pela sedução, tenta convencer os amantes a matarem o marido e, assim, conquistar a liberdade.

Do início das anos 1970, A Casa Assassinada é o segundo momento. Relata o poder tirânico de uma família de fazendeiros arruinados que canibaliza a liberdade e a sensualidade de uma prostituta do Rio de Janeiro, que se casa com um dos irmãos. A encenação, ampliada pela tela em cinemascope, embebe-se da exuberância do irmão homossexual, cuja clausura evoca os porões da ditadura pós-1968. Esse irmão almeja o momento em que se desnudem os sentimentos de ciúme, inveja e ressentimento, indutores da morte e da loucura.

Em O Viajante, última incursão no universo de Lúcio Cardoso, desenham-se dois núcleos, dominados pela aristocrata rural de Ana e pela desvalida Sinhá. A primeira é oprimida pelas fatalidades; a segunda, pelos desejos dos outros. Ambas são unidas pela figura sedutora de um caixeiro-viajante, que lhes insinua a promessa de liberdade.

Em ressonância mais discreta, mas que preserva certa obsessão pelas formas misteriosas do amor, o cineasta adapta Ao Sul do Meu Corpo e O Gerente (2011). O primeiro, baseado em uma das histórias de Três Mulheres de Três PPPês (1977), romance de Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977). Durante a agitação social que exige a deposição do presidente Getúlio Vargas (1883-1954), um aluno é seduzido pela esposa de seu antigo professor e envolvido por uma estranha articulação amorosa  – da qual só tem conhecimento pleno 30 anos depois, quando outra ditadura, agora a militar, continua produzindo vítimas.

O Gerente, baseado em Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), acompanha a história de um funcionário de banco obcecado por mãos, que se torna o principal suspeito de crime envolvendo senhoras da alta sociedade do Rio de Janeiro, cujos dedos eram decepados.

A coloração política nos demais filmes de Saraceni também tangencia a temática central, pelo registro sensível de novos comportamentos e transformações sociais que minam a base das forças de coerção.

Capitu faz emergir a fragilidade do mundo conjugal burguês. O filme tem viés feminista e roteiro de Paulo Emilio Salles Gomes e Lygia Fagundes Telles (1923). Baseia-se no romance de Machado de Assis, registrando o teatro das aparências que sustenta o universo patriarcal e sua instituição em falência.

Amor, Carnaval e Sonhos é retomado em forma documental em Banda de Ipanema – A Folia de Albino. Ambos celebram a alegria, a resistência e o desafogo propiciados pelo Carnaval e pelos mitos. O segundo é uma homenagem ao amigo de infância Albino Pinheiro (1934-1999), fundador da Banda de Ipanema. O primeiro sugere o encantamento do cineasta pelo movimento hippie, cuja liberdade reproduz na maneira de filmar sem imposições de produção.

Anchieta, José do Brasil, entretanto, ao apoiar-se no financiamento da estatal Embrafilme, enfrenta grandes obstáculos para posicionar-se além da história oficial. Eventos da vida do jesuíta são utilizados para ecoar o missionarismo da Teologia da Libertação na defesa das raças e das culturas indígenas. Os eventos também revelam a ação heroica do homem tomado pela paixão de servir a Deus na missão de catequizar os índios e derrotar a ganância dos colonizadores.

Por fim, Natal da Portela intercala episódios da vida do poderoso banqueiro do jogo de bicho Natal e de seu primo Paulo, compositor da Escola de Samba Portela. A  biografia dos personagens serve de pretexto para registrar as primeiras manifestações de afirmação social da raça negra.

Vida e obra deixam a impressão de um cineasta que jamais abandona a herança revolucionária do cinema novo, apesar dos caminhos sugeridos a partir da década de 1970 por alguns companheiros, agora desafetos, de adequar a cultura ao mercado. Para Saraceni, “o cinema de mercado é contra o cinema da paixão” 1  e o “Cinema Novo é [...] paixão total pelo cinema, pelos amigos, pelo Brasil” 2.

Notas 

1. CLEBER, Eduardo.  Em duas direções. In: Mostra de Cinema de Tiradentes, 24, 2011. Catálogo. Tiradentes, 2011, p. 33.

2. VIANY, Alex. O Processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999. p. 341

Obras 2

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Espetáculos 1

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Exposições 1

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Mostras audiovisuais 15

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Fontes de pesquisa 5

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  • ABRACCINE. Paulo César Saraceni (1933-2012). Disponível em: http://abraccine.wordpress.com/2012/04/18/paulo-cesar-saraceni-1933-2012/. Acesso em: 1 abr. 2013.
  • CLEBER, Eduardo. Em duas direções. In: Mostra de Cinema de Tiradentes, 24, 2011. Catálogo. Tiradentes, 2011. p. 26-29; entrevista p. 30-35.
  • JUNQUEIRA,Alfredo. Morre no Rio o cineasta Paulo Cezar Saraceni. In: O Estado de São Paulo - ESTADAO.COM.BR. São Paulo, 14 de abril de 2012. Disponivel: . Acesso em: 16/04/2012. Não catalogado
  • SARACENI, Paulo César. Por dentro do Cinema Novo: minha viagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
  • VIANY, Alex. O Processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.

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