Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.

Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Vincent Carelli

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 31.10.2022
1953 França / Ile de France / Paris
Vincent Carelli (Paris, França, 1953). Indigenista, diretor de cinema. Destaca-se pelo trabalho em contato direto com povos indígenas na luta pela emancipação, afirmação das identidades culturais e reconhecimento do direito à terra de pelo menos sessenta etnias. É um dos pioneiros na formação audiovisual como instrumento de luta política de cine...

Texto

Abrir módulo

Vincent Carelli (Paris, França, 1953). Indigenista, diretor de cinema. Destaca-se pelo trabalho em contato direto com povos indígenas na luta pela emancipação, afirmação das identidades culturais e reconhecimento do direito à terra de pelo menos sessenta etnias. É um dos pioneiros na formação audiovisual como instrumento de luta política de cineastas indígenas e na visibilização de suas culturas na sociedade nacional. 

Filho de pai brasileiro e mãe francesa, sua família se estabelece em São Paulo quando tem cinco anos de idade. Aos 16 anos, graças a um vizinho missionário indigenista, faz seu primeiro contato com índios Xikrin, no Pará. Cursa Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP) por um ano, mas abandona o curso em 1973  para retornar à aldeia Xikrin. Lá, é adotado pela família de Akruantury, acontecimento raro entre indigenistas. 

Durante a ditadura militar (1964-1985)1 trabalha por dois anos na Fundação Nacional do Índio (Funai) e depara com a intervenção autoritária dos militares: pouco investimento, pouca autonomia e total tutela dos indígenas. Em 1979, dedica-se ao projeto que rejeita as políticas indigenistas oficiais e funda, ao lado de antropólogos e indigenistas, o Centro de Trabalho Indigenista (CTI).  

A organização trabalha pela autodeterminação dos povos indígenas, ajudando-os a conquistar autonomia e independência do Estado nas decisões que os afetam. Para isso, o CTI realiza ações e projetos voltados à valorização das identidades culturais dos indígenas e à proteção ambiental das suas terras originárias.

Em 1987, cria, ao lado de sua esposa, a antropóloga Virgínia Valadão (1952-1998), o projeto Vídeo nas Aldeias (VNA), ainda no CTI. Em 2000, o projeto se torna uma organização não governamental (ONG) e atua no registro em vídeo de tradições das culturas indígenas amazônicas. O primeiro grupo com o qual trabalha é o povo Nhambikwara, no Mato Grosso e em Rondônia.  

Diante da curiosidade dos indígenas pelas imagens, o VNA se torna também uma escola de cinema indígena. Reivindicada pelos próprios indígenas, a câmera troca de lado e Carelli passa a formar cineastas indígenas em oficinas que lhes permitem realizar o que define como autoetnografia.  

De tradição oral, os índios veem no vídeo um meio atraente para o processo de reflexão sobre si mesmos, como objetos e sujeitos dessa reflexão. Com a câmera na mão e ideias na cabeça, esses cineastas se apropriam das imagens de suas culturas e se negam a continuar como “alvo de um safári fotográfico”, segundo o Xavante Hiparidi D. Top’Tiro.  

Por meio do vídeo, os indígenas descobrem a importância da imagem para preservar suas memórias materiais e imateriais e se tornam mediadores do processo de comunicação entre diferentes aldeias,  gerações, povos indígenas (no Brasil e no exterior) e entre líderes e suas comunidades. É ainda recurso valioso no registro de reuniões com órgãos do governo, o que lhes possibilita cobrar ações essenciais à luta política dos povos indígenas.   

Aos 36 anos, começa a produzir documentários que alcançam repercussão nacional e internacional. Com o processo de formação de cineastas indígenas, sua relação com o cinema se aprofunda. Do uso inicial da fotografia como meio de registro e engajamento, ele passa a filmar as transformações das sociedades indígenas no contato com a sociedade nacional.  

Entre 1986 e 2006, em parceria com o indigenista Marcelo Santos, realiza uma série de filmagens para obter provas que convençam a Justiça da existência de grupos indígenas isolados na região, sobreviventes de massacre perpetrado por fazendeiros. Essas provas são decisivas para garantir legalmente a permanência dos índios em suas terras.   

Seu primeiro longa-metragem Corumbiara (2009) conta a história desse massacre ocorrido em 1985 na Gleba Corumbiara, em Rondônia. Ao longo de vinte anos, o diretor realiza um filme-processo no qual passa da busca de indícios da presença de indígenas sobreviventes à testemunha das consequências destrutivas do massacre.  

Como participante da história de resistência dos indígenas aos fazendeiros, constata também a resistência deles ao próprio filme e a seus realizadores. As filmagens levantam questões éticas relativas ao próprio ato de filmar e revelam o entrelaçamento entre o filmado e o vivido pelo cineasta. Cada tentativa frustrada de aproximação questiona o próprio projeto.

Seu encontro surpreendente com o “índio do buraco”, único sobrevivente de etnia desconhecida, ocorre em 1998. O indígena isolado recusa o contato mesmo com seus parentes Kanoê e Akuntsu. Carelli faz um fugaz registro do “índio do buraco”, único vestígio de sua existência.  

Em 2016, realiza o longa Martírio, codirigido pelo fotógrafo Ernesto de Carvalho (1981) e pela montadora Tatiana Almeida. O filme retrata o genocídio contemporâneo no processo de expropriação dos Guarani Kaiowá de seus territórios. Martírio assume a perspectiva da resistência dos indígenas vencidos, fundada na força espiritual que emana da sacralização da natureza, para contar a história invisível e perversa da relação do Estado com os indígenas, em um processo colonial de dizimação ainda em curso.  

Na trajetória como indigenista e cineasta, Vincent Carelli produz imagens e reflexões que rompem a invisibilidade a que são relegadas as culturas e as lutas políticas dos povos indígenas, em particular na Amazônia. Em cada documentário que realiza, o que se expõe e se combate é o genocídio continuado dos indígenas brasileiros ao longo de mais de cinco séculos.

Notas

1. Também denominada de ditadura civil-militar por parte da historiografia com o objetivo de enfatizar a participação e apoio de setores da sociedade civil, como o empresariado e parte da imprensa, no golpe de 1964 e no regime que se instaura até o ano de 1985.

Exposições 9

Abrir módulo

Mostras audiovisuais 10

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 16

Abrir módulo
  • ALVARENGA, Clarisse. Da cena do contato ao inacabamento da história: os últimos isolados (1967-1999), Corumbiara (1986-2009) e Os Arara (1980-). Salvador: EDUFBA, 2017.
  • BAKER, Vicky (reportagem). Quem é o índio isolado filmado pela Funai na Amazônia, último sobrevivente de sua tribo e 'o homem mais solitário do mundo'. BBC News Brasil, 21 jul. 2010. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-44911345. Acesso em: 21 out. 2021.
  • BONILHA, Patricia. Indígenas ocupam salas de cinema: Martírio, de Vincent Carelli, estreia hoje em 19 capitais. CIMI – Conselho Indigenista Missionário, 13 abr. 2017. Disponível em: https://cimi.org.br/2017/04/39418/. Acesso em: 19 out.2021.
  • CARVALHO, Ernesto de. O índio na fotografia brasileira. Disponível em: http://fotografia.povosindigenas.com.br/ernesto-de-carvalho/. Acesso em: 22 out. 2021.
  • CENTRO DE TRABALHO INDIGENISTA (CTI). Brasília, São Paulo, Tabatinga. Disponível em: https://trabalhoindigenista.org.br/home/. Acesso em: 16 out. 2021.
  • CESAR, Amaranta; BRASIL, André; LEANDRO, Anita; MESQUITA, Claudia. Nomear o genocídio: uma conversa sobre Martírio, com Vincent Carelli. Revista ECO PÓS – Imagens do Presente, Rio de Janeiro, v. 20, n. 2, p. 232-257, 2017.
  • DOSSIÊ Mostra de vídeos e filmes: os Brasis indígenas. Sinopse Revista de Cinema, São Paulo, ano II, n. 5, p.81-99, jun. 2000.
  • FRESQUET, Adriana; CARDOSO JR., Wilson. Cinema, educação e interculturalidade: Martírio, o filme. Revista Digital do LAV, Santa Maria, v. 10, n. 2, p. 120-139, maio-ago. 2017.
  • GALLOIS, Dominique T.; CARELLI, Vincent. Vídeo e diálogo cultural: experiência do projeto. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 1, n. 2, p. 61-72, jul.-set. 1995.
  • GLOBO AMAZÔNIA. Ex-madeireiro, indigenista monitora único sobrevivente de povo massacrado em RO. Terras Indígenas do Brasil (Instituto Socioambiental), 19 dez. 2010. Disponível em: https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/96591. Acesso em: 23 out. 2021.
  • MILANEZ, Felipe. Martírio: um filme para indignar Brasília. Carta Capital, São Paulo, 22 set. 2016. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/cultura/martirio-um-filme-para-indignar-brasilia/. Acesso em: 24 out. 2021.
  • MÍDIA NINJA. O golpe é anti-indígena. O Mato Grosso do Sul é a palestina brasileira. Terras Indígenas do Brasil (Instituto Socioambiental), 30 jul. 2017. Disponível em: https://terrasindigenas.org.br/pt-br/noticia/174229. Acesso em: 23 out. 2021.
  • OLIVEIRA, Rodrigo. Índio que ninguém viu é boato. Revista Cinética, [s.l.], ago. 2009. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/gramado09dia4a.htm. Acesso em: 16 out. 2021.
  • REUTERS. Índios da Amazônia entram na era digital para defender suas tribos. Portal R7, São Paulo, 17 jan. 2020. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasil/indios-da-amazonia-entram-na-era-digital-para-defender-suas-tribos-17012020. Acesso em: 16 out. 2021.
  • SOUZA, Gustavo. A questão indígena e a reescrita da história. Contracampo, Niterói, v. 39, n 3, p.3-16, dez.-mar. 2021.
  • VÍDEO NAS ALDEIAS lança plataforma de streaming com 88 filmes com temática indígena. Instituto Socioambiental (ISA), 17 abr. 2017. Disponível em: https://www.socioambiental.org/pt-br/noticias-socioambientais/video-nas-aldeias-lanca-plataforma-de-streaming-com-88-filmes-com-tematica-indigena. Acesso em: 18 out. 2021.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: