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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Jonathan Abbott

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.06.2021
1796 Reino Unido / Inglaterra
1868 Brasil / Bahia / Salvador
Jonathan Abbott (Lambeth, Inglaterra, 1790 ou 17961 - Salvador, Bahia, 1868). Médico e colecionador de arte. Consta que chega a Salvador em 1812 como cavalariço do médico luso-baiano José Álvares do Amaral2. Em 1816, ingressa no curso de medicina do Colégio Médico Cirúrgico. Diploma-se médico-cirurgião em 1820. Viaja à Europa para prosseguir seu...

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Jonathan Abbott (Lambeth, Inglaterra, 1790 ou 17961 - Salvador, Bahia, 1868). Médico e colecionador de arte. Consta que chega a Salvador em 1812 como cavalariço do médico luso-baiano José Álvares do Amaral2. Em 1816, ingressa no curso de medicina do Colégio Médico Cirúrgico. Diploma-se médico-cirurgião em 1820. Viaja à Europa para prosseguir seus estudos e frequenta a Real Universidade de Palermo, na Itália, onde realiza doutorado em medicina. Em 1823, já de volta ao Brasil, é nomeado intérprete oficial por ato do recente Governo Provisório.

Em 1827, torna-se primeiro-cirurgião da corveta Princezinha e intérprete da provedoria-mor da saúde e do consulado inglês. Em 1828, assume a cadeira de Anatomia Teórica e Prática do mesmo colégio. Entre 1830 e 1832, realiza nova viagem à Europa, afastando-se temporariamente da docência e da prática médica. Durante esse período, escreve um diário de suas estadias em cidades como Paris, Roma e Londres, incluindo suas impressões diante de museus e monumentos artísticos, especialmente os clássicos. É muito provável que a partir desses anos comece a formar sistematicamente a sua coleção, com obras adquiridas naquelas excursões3. Em junho de 1832 retorna à Salvador. Passa também a lecionar inglês gratuitamente no Liceu Provincial da Bahia. Na mesma época, é cirurgião-chefe do Hospital da Santa Casa de Misericórdia. Continua a adquirir obras de arte, também via importação portuária. É admitido como irmão da Ordem Terceira de São Francisco de Assis, tradicionalmente uma das mais importantes da Bahia. Colabora para dramaturgia baiana, com a tradução que realiza de peças teatrais.

Realiza nova viagem à Europa nos anos 1850, provavelmente adquirindo mais peças artísticas. Em 1855, torna-se membro do Conselho do imperador d. Pedro II. Também atua como membro correspondente das Sociedade de Anatonomia, Biologia e Medicina de Paris, da Academia Médico-Cirúrgica de Gênova, e das Sociedades Médicas de Lisboa, Palermo e Estocolmo. Em 1856, é membro fundador do Instituto Histórico Provincial da Bahia. Ainda nesse ano, ao lado de outros colecionadores, como o seu amigo Antônio José Alves, e de personalidades eminentes do cenário baiano, como o barão de Pirajá, José Barbosa de Oliveira, Agrário de Souza Menezes e o pintor José Rodrigues Nunes (1800-1881), funda, em seu solar, a Sociedade das Belas Artes.

Segundo o intelectual Manuel Querino (1851-1923), na sociedade eram montadas exposições anuais de arte, com vistas à formação de um mercado interno de arte, além da promoção de concursos de pintura histórica de temas locais ou nacionais4. Para Paulo Knauss, "ao integrar o movimento de criação dessa Sociedade de Belas Artes, o médico anglo-baiano e amante das artes participou do processo de liberalização das artes na Bahia, promovendo a carreira do artista como profissional autônomo no mercado livre, distante das restrições impostas pelas antigas corporações de ofício que dominavam o campo dos artesãos"5 desde o período colonial.

Em 1858, Abbott doa sete quadros à Biblioteca Pública da Bahia. Em 1861, quando afasta-se da Faculdade de Medicina (antigo Colégio Médico), tem seu retrato pintado por João Francisco Lopes Rodrigues (1825-1893), cujas obras, junto com as do seu mestre, José Rodrigues Nunes (1800-1881), integram a coleção do médico. Um ano depois, em inventário realizado pelo próprio Abbott, constavam em sua coleção 413 itens, dentre os quais 334 pinturas a óleo - incluindo um retrato do imperador e um da imperatriz -, 45 gravuras e fotografias, 20 litografias, oito quadros não especificados, quatro em baixo relevo e três pinturas sobre seda.

Após sua morte, em 1868, o governo do estado entrou em acordo para aquisição da enorme coleção, obtendo-a em 1871, e deslocando-a para exposição pública permanente no Liceu Provincial, no Convento de Palma. Ainda naquele ano, a contagem realizada em novo catálogo da coleção reduzia o montante inicial a 391 obras: 283 quadros a óleo, 47 litografias, 21 fotografias, 18 gravuras, sete desenhos, sendo um pastel, quatro aquarelas, três têmperas, três baixo-relevos, três pinturas sobre vidro e três sobre seda.

Nesse inventário aparece pela primeira vez o perfil da Galeria Abbott, compreendido de cópias e originais, sobretudo das pinturas estrangeiras. Segundo Suzana Alice Pereira, os temas representados na coleção abrangem "cenas e personagens bíblicos, santos, mitos clássicos, personagens históricos, retratos de personalidades locais, paisagens europeias, cenas de gênero e naturezas-mortas, além de estudos diversos sobre animais, caveiras, mulheres, arquitetura, perspectiva etc".Incluem-se diversas cópias de Rafael (1483-1520), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Rubens (1577-1640), Murillo (1617-1682), Tintoretto (1518-1594), Caravaggio (1571-1610), Dolci (1616-1686), Rembrandt (1606-1669), Géricault (1791-1824), Anibal Carracci (1560-1609), Guido Reni (1575-1642) e Boucher (1703-1770).

De outro lado, contam-se 41 obras de pintores locais, produzidas por Teófilo de Jesus (1758-1847), Franco Velasco (1780-1883), Rodrigues Nunes, Francisco Nunes, Cunha Couto, Capinam (1791-1874), Lopes Rodrigues, Francisco Romão (1834-1895) e Luis Gomes Tourinho (pai e filho).

Em 1882, em novo relatório do Liceu Provincial, a coleção contava com 374 peças. Em 1886, o governo do estado desloca a coleção Abbott para o Liceu de Artes e Ofícios da Bahia, permanecendo mais acessível, ao lado da galeria Gavazza7.

A coleção permanece na instituição até 1931 quando, em novo traslado, é depositada na recém-formada Pinacoteca do Estado, atualmente Museu de Arte da Bahia (MAB). Entretanto, em um estudo realizado por José Valladares8 em 1951, o museu conta com apenas 170 peças oriundas da coleção original.

Notas

1. VALLADARES, José. A Galeria Abbott: primeira pinacoteca da Bahia. Bahia: Museu do Estado: Secretaria de Educação, 1951.

2. Há ainda informações que pode ter servido de intérprete ao governador-geral da Bahia, o conde dos Arcos, e que tenha sido servente na Escola Cirúrgica. cf. Idem. Ibidem; e QUERINO, Manuel. Artistas baianos: indicações biográficas. Salvador: Officinas da Empreza "A Bahia", 1911.

3. No entanto, é possível que Abbott já tivesse adquirido algumas obras antes de sua viagem de 1830 à Europa, posto que, em sua coleção, constam os estudos de Franco Velasco para os painéis da Igreja do Senhor do Bonfim, de 1819. cf. VALLADARES. op.cit.

4. QUERINO, Manuel. Artistas baianos: indicações biográficas. Salvador: Officinas da Empreza "A Bahia", 1911.

5. KNAUSS, Paulo. O cavalete e a paleta: arte e a prática de colecionar no Brasil. In: Anais do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura, Iphan, 2001, v. 33, p.26.

6. PEREIRA, Suzana Alice Silva. A pintura baiana na transição do barroco ao neoclássico. (Dissertação de mestrado em artes visuais). Salvador: Escola de Belas Artes: Ufba, 2005. p. 83.

7. Coleção de obras em gesso doada pelo italiano Francesco de Nicoláo Gavazza.

8. VALLADARES, José. A Galeria Abbott: primeira pinacoteca da Bahia. Bahia: Museu do Estado: Secretaria de Educação, 1951.

Fontes de pesquisa 12

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  • ALVES, Marieta. Dicionário de Artistas e Artífices da Bahia. Salvador: Editora UFBA, 1976. 210 p.
  • BRAGA, Theodoro. Artistas pintores no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora, 1942.
  • CATÁLOGOS dos painéis a óleo, litographias, gravuras e photographias que compõem a Galeria Abbott estabelecida no Liceu. Bahia: Typographia Constitucional, 1871.
  • GALVÃO, Fernando Abbott. O diário de Jonathas Abbott. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2007.
  • KNAUSS, Paulo. O cavalete e a paleta: arte e a prática de colecionar no Brasil. In: ANAIS do Museu Histórico Nacional. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura, Iphan, 2001, v. 33, p. 23-44.
  • NEVES, Maria Helena França. Jonathas Abbott: um lugar de memória. Trabalho final da disciplina História da Bahia no século XIX. (Dissertação de mestrado em artes). Salvador: Ufba: EBA, nov. 1994.
  • OLIVEIRA, Cláudia de. Jonathas Abbott: arte e mecenato na Bahia do século XIX. In: Escritos. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, v. 1, 2013. p. 12-18.
  • PEREIRA, Suzana Alice Silva. A pintura baiana na transição do barroco ao neoclássico. (Dissertação de mestrado em artes visuais). Salvador: Escola de Belas Artes: Ufba, 2005.
  • QUERINO, Manoel R. Artistas bahianos (indicações biographicas). Bahia: Officinas da Empreza “A Bahia”, 1911.
  • REVISTA do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, v. 59, Salvador, 1933, p. 507-513.
  • SILVA, Viviane Rummler da. Pintores fundadores da Academia de Belas Artes da Bahia: João Francisco Lopes Rodrigues (1825-1893) e Miguel Navarro Y Cañizares, 1834-1913. (Dissertação de mestrado). Salvador: Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia, 2008.
  • VALLADARES, José. A Galeria Abbott: primeira pinacoteca da Bahia. Bahia: Museu do Estado: Secretaria de Educação, 1951.

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