Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

João das Neves

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 16.09.2019
31.01.1934 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
24.08.2018 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Registro fotográfico André Seiti

João das Neves, 2015

João Pereira das Neves Filho (Rio de Janeiro, Brasil, 1934 - Belo Horizonte, Brasil, 2018). Diretor, escritor, ator, iluminador, cenógrafo e produtor cultural. Contribui para a formação intelectual e estética de grupos teatrais de várias partes do Brasil, provocando discussões em torno das múltiplas linguagens e da necessidade de realizar um tea...

Texto

Abrir módulo

João Pereira das Neves Filho (Rio de Janeiro, Brasil, 1934 - Belo Horizonte, Brasil, 2018). Diretor, escritor, ator, iluminador, cenógrafo e produtor cultural. Contribui para a formação intelectual e estética de grupos teatrais de várias partes do Brasil, provocando discussões em torno das múltiplas linguagens e da necessidade de realizar um teatro político sem perder de vista a dimensão da beleza e da estética.

Na adolescência, tem seu primeiro contato com o teatro no Colégio Mallet Soares. Na década de 1950, forma-se ator e diretor pela Fundação Brasileira de Teatro (FBT). No início dos anos 1960, funda o grupo Os Duendes e assume a direção do Teatro Arthur Azevedo, na periferia carioca de Campo Grande. O grupo é expulso do espaço durante o mandato de Carlos Lacerda (1914-1977), governador do Estado da Guanabara, entre 1960 e 1965, acusado de ser comunista e fazer propaganda subversiva.

Com a dissolução do grupo, João se vincula  ao recém-fundado Centro Popular de Cultura (CPC), onde se torna responsável pela sessão de Teatro de Rua. Depois do golpe civil-militar de 1964, o CPC é colocado na ilegalidade e seus integrantes se rearticulam em torno de um novo projeto: o Grupo Opinião (1964-1984), um dos principais polos de aglutinação da esquerda carioca e o primeiro coletivo a engajar-se na luta contra a ditadura civil-militar brasileira.

No grupo, João das Neves exerce diversas funções, mas destaca-se principalmente na direção de importantes peças, como A Saída, Onde Fica a Saída?, encenada no ano de 1967, com texto de Armando Costa (1933-1984), Antônio Carlos Fontoura (1939) e Ferreira Gullar (1930), O Último Carro (1976) e Mural Mulher (1979), ambas escritas por João das Neves.

O crítico teatral Sábato Magaldi (1927) expõe a importância de João das Neves para as artes cênicas no Brasil em sua recepção do espetáculo O Último Carro. Escrita entre 1964 e 1965, e vencedora de prêmio concedido em 1966, durante o Seminário de Dramaturgia Carioca, a montagem é o grande sucesso da temporada de 1976. A metáfora do trem desgovernado perpassada pelas cenas da vida cotidiana de moradores das periferias brasileiras serve para descortinar novos caminhos estéticos e dramatúrgicos na produção teatral dos anos 70.

Em Mural Mulher, João coloca em cena a questão feminina. A peça é construída através de um mosaico de cenas com pautas feministas e encenada apenas por mulheres. A peça torna-se importante pelo fato de já indicar a multiplicidade de lutas sociais que se expandiram nos anos finais da ditadura, tais como o feminismo, a questão LGBTQI+, os movimentos de anistia e outros.

O diretor contribui para a história do teatro brasileiro, atuando em importantes movimentos teatrais do século XX e XXI. Sua produção conjuga engajamento político e refinamento estético, associados a uma visão de mundo particular, que compreende a produção artística como elemento de fundamental importância na transformação da sociedade.

Na segunda metade dos anos 1980, o teatrólogo muda-se para o Acre, onde contribui com a fundação do Grupo Poronga, responsável por montagens engajadas na causa ambiental e social. Tributo a Chico Mendes (1988) pode ser percebida como a síntese dessa preocupação, ao denunciar a morte do seringueiro Chico Mendes (1944-1988), assassinado por fazendeiros acreanos em 1988.

Também no Acre, com financiamento da Fundação Vitae, pesquisa a história da Nação Kaxinawá, o que resulta em Yuraiá – O Rio do Nosso Corpo, peça escrita em 1990 e não encenada.

No começo dos anos 1990, transfere-se para Minas Gerais, inicialmente para Belo Horizonte e, depois, para Lagoa Santa. Nessa fase, inicia a sequência de trabalhos com a cantora Titane (1960), como a direção do show Inseto Raro (1993) e Titane e o Campo das Vertentes (2006). Em Belo Horizonte, dirige e adapta a peça Primeiras Estórias, inspirada na obra homônima de Guimarães Rosa (1908-1967), publicada em 1962. A estreia da peça acontece no Parque Lagoa do Nado e corrobora o desejo do diretor de exibir suas montagens em lugares alternativos que permitam novas apropriações do espaço cênico.

A partir da década de 1990, a temática da negritude torna-se recorrente em sua produção. Tem destaque nesse panorama sua direção de Zumbi (2011). Clássico de Augusto Boal (1931-2009) e Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006), a peça tem uma leitura atualizada, o que proporciona um debate mais sistemático com o momento atual das discussões sobre a questão.

João também tem parte de sua obra destinada ao público infantil, em que há temáticas vinculadas às questões sociais, como na peça O Leiteiro e a Menina Noite (1970), que debate  a questão do racismo e o empoderamento negro, e no texto de A Lenda do Vale da Lua (1975), que discute o problema da violência nas cidades.

Em toda a sua trajetória, João das Neves tem um importante papel no fomento de novas linguagens e temas dramatúrgicos, além de experiências cênicas. Seu trabalho com diferentes grupos contribuem para o debate sobre questões sociais e políticas.

Espetáculos 61

Abrir módulo

Exposições 4

Abrir módulo

Mídias (5)

Abrir módulo
O coletivo é o protagonista – Ocupação João das Neves (2015)
João das Neves fala da importância da coletividade em suas peças. Comenta as produções de O Último Carro e As Polacas, que não tinham personagem principal e sim um contexto social. Também fala da diferença entre seu teatro e os textos clássicos (como Édipo Rei), em que a personagem sofre uma transformação ao longo do arco narrativo.
Depoimento gravado para a Ocupação João das Neves, em julho de 2015, no Teatro Arthur Azevedo em Campo Grande/RJ
Panfleto ou arte? – Ocupação João das Neves (2015)
João das Neves fala sobre a importância da arte, sendo ou não engajada, sob a perspectiva política. Ele também reflete sobre o tempo da obra e do impacto do teatro na comunidade em que é realizado.
Depoimento gravado para a Ocupação João das Neves, em julho de 2015, em Lagoa Santa/MG.

Fontes de pesquisa 19

Abrir módulo
  • CARBONE, Roberta. O trabalho crítico de João das Neves no jornal Novos Rumos em 1960: perspectivas sobre a construção de um fazer teatral épico-dialético no Brasil. Dissertação (Mestrado) - Escola de Comunicações e Artes de Universidade de São Paulo. São Paulo, 2014.
  • EICHBAUER, Hélio. [Currículo]. Enviado pelo artista em 24 de abril de 2011. Espetáculo: Antígona - 1969; Um Homem é um Homem - 1974.
  • HENRIQUE, Marilia Gomes. O realismo-encantatório de João das Neves. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas - IA/Unicamp. Campinas, 2006.
  • Hugo Rodas. Brasilia: Editora ARP, 2010.
  • KÜHNER, Maria Helena. Opinião. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.
  • LUIZ, Macksen. Tributo a Chico Mendes: documentário de uma morte. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 8 jun. 1989. Caderno B.
  • MAGALDI, Sábato. Teatro em foco. São Paulo: Perspectiva, 2008.
  • MARQUES, M. P. S. C. Práticas de um encenador: João das Neves em algumas colocações cênicas. In: GOMES, Andre Luiz; MACIEL, Diógenes André Vieira(orgs.). Penso Teatro: dramaturgia, crítica e encenação. Vinhedo/SP: Horizonte, 2012.
  • MARQUES, M. P. S. C. Ritos e rituais na dramaturgia de João das Neves. In: BRONDONI, Joice Aglae; VILMA, Campos Leite; TELLES, Narciso (orgs.). Teatro-máscara-ritual. Campinas/SP: Alínea, 2012.
  • MARQUES, Maria do P. Socorro Calixto. O outro lado do quintal. In: Anais do XXVII Simpósio Nacional de História. Conhecimento Histórico e diálogo social. Natal: Anpuh, 22 a 26 jul. 2013. Disponível em: < http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364922438_ARQUIVO_OquintalMariadoSocorro.pdf >.
  • MARQUES, Maria do P. Socorro Calixto. Yuraiá: Um Afluente da Dramaturgia de João das Neves. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. São Paulo, 1997.
  • MICHALSKI, Yan. João das Neves. In: ______. Pequena enciclopédia do teatro brasileiro contemporâneo. Rio de Janeiro, 1989. Material inédito, elaborado em projeto para o CNPq.
  • MOSTAÇO, Edelcio. Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião. São Paulo: Proposta, 1982.
  • NEVES, João das. A Análise do texto teatral. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Europa, 1997.
  • NEVES, João das. Ciclo de palestras sobre teatro brasileiro, 5. Rio de Janeiro: INACEN, 1987.
  • NEVES, João das. João das Neves. Lagoa Santa: [s.n.], 2013. Entrevista concedida a Natália Cristina Batista.
  • PARANHOS, Kátia. (org). História, teatro e política. São Paulo/Belo Horizonte: Boitempo/FAPEMIG, 2012.
  • Programa do Espetáculo - Besouro Cordão de Ouro - 2006.
  • Programa do Espetáculo - O Homem Inesperado - 2008.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: