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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Gilda de Mello e Souza

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.05.2020
24.03.1919 Brasil / São Paulo / São Paulo
25.12.2005 Brasil / São Paulo / São Paulo
Registro fotográfico Ernesto Correia/Arquivo IEB-USP | Fundo Gilda de Mello e Souza.

Gilda de Mello e Souza, déc. 1930

Gilda Rocha de Mello e Souza (São Paulo, São Paulo, 1919 - Idem, 2005). Ensaísta, crítica de arte e professora universitária de estética. É reconhecida pela singularidade de seu pensamento e expressão, que se traduzem em atividade crítica marcada pela análise hermenêutica de obras de literatura, artes plásticas, cinema, teatro e indumentária.

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Gilda Rocha de Mello e Souza (São Paulo, São Paulo, 1919 - Idem, 2005). Ensaísta, crítica de arte e professora universitária de estética. É reconhecida pela singularidade de seu pensamento e expressão, que se traduzem em atividade crítica marcada pela análise hermenêutica de obras de literatura, artes plásticas, cinema, teatro e indumentária.

Uma das primeiras mulheres a ingressarem na Universidade de São Paulo (USP), Gilda estuda na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), de 1937 a 1940. Inicia a carreira docente como assistente do sociólogo francês Roger Bastide (1898-1947), junto à cadeira de Sociologia I, em 1942. Com orientação dele, defende, em 1950, a tese de doutorado A Moda no Século XIX: Ensaio de Sociologia Estética, publicada na Revista do Museu Paulista

Trabalho dedicado à moda, produzido por uma intelectual  – assunto tido por fútil e de mulher –, a tese obtém ressalvas à época da defesa. Porém, devido à originalidade e ao caráter analítico, capazes de apreender das roupas sentimentos, ideias e diferenças sociais, a obra ganha destaque. É reeditada pela Companhia das Letras em 1987, com alterações e novo título – O Espírito das Roupas: a Moda no Século Dezenove.

A convite do professor João Cruz Costa (1904-1978), Gilda se transfere, em 1954, para o Departamento de Filosofia da USP e funda a cadeira de Estética. Em 1970, cria a revista Discurso, publicação do Departamento como espaço de expressão contra a ditadura. Dez anos depois, publica Exercícios de Leitura, obra composta por uma entrevista e 20 ensaios, organizados em cinco seções (Estética, Literatura, Teatro, Cinema e Artes Plásticas). A obra demonstra a variedade de formas artísticas às quais Gilda dedica estudos e análises. A maioria dos textos já havia sido publicada na imprensa ou em periódicos acadêmicos como O Estado de S. Paulo, Teatro Brasileiro e Sequência entre 1956 e 1978.

“A Estética rica e a Estética pobre dos professores franceses”, primeiro texto do livro, é a aula inaugural dos cursos de 1972 do Departamento de Filosofia da USP. Trata-se, porém, no dizer de Gilda, de um paradoxo, de uma aula “terminal”. Além de ser a última fala como professora regular do Departamento, é o fechamento de um período “artesanal” dos estudos, livre de especializações, o qual ela testemunha, protagoniza e do qual se vê como remanescente. Ao apresentar a obra crítica dos mestres franceses Jean Maugüé (1904-1990), Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e Roger Bastide, Gilda evoca escritos deles sobre artes plásticas dos anos 1930 e 1940. O fato de não se referir a livros desses intelectuais demonstra sua concepção antidogmática: ela entende que textos dispersos sintetizam traços fecundos do pensamento de seus autores e de sua atmosfera intelectual. Tal método permite-lhe apreender semelhanças e diferenças entre seus mestres. Maugüé e Lévi-Strauss aproximam-se pela estética hegeliana, nostálgicos da arte europeia clássica, que representa a harmonia do homem com a natureza. Em Bastide, identifica uma estética de antropólogo, voltado a compreender a realidade brasileira e seu misticismo religioso, por meio do estudo de sociólogos e escritores do folclore e da arte do país.

Um dos textos inéditos de Exercícios de Leitura, “O avô presidente”, é uma análise estilístico-histórica da composição de Macunaíma (1928), de Mário de Andrade (1893-1945). Gilda entrevê, na imagem das “araras protetoras” da rapsódia, o imaginário afetivo e a formação da consciência social de Mário de Andrade, devedores dos Apontamentos de Viagem (1882) do dr. Leite Moraes (1834-1895), avô materno do escritor. Tal livro, narra a viagem do avô presidente de província pelos rios Araguaia e Tocantins e ressalta os contrastes do Brasil. A busca de compreensão do país e a multiplicidade erudita e folclórica da obra de Mário também são estudadas por Gilda no livro O Tupi e o Alaúde: uma Interpretação de Macunaíma (1979).

Sobre cinema, destaca-se “Paulo Emílio: a crítica como perícia”. Nesse texto, Gilda recorda que o grupo de Clima – revista fundada em 1941, na qual publica contos e crítica literária – aprende a analisar obras com o método a “paixão pelo concreto” de seu integrante Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977). Tal expressão é cunhada por Antonio Candido (1918-2017), também membro do grupo. Com ele, Gilda redige “Os deuses malditos”, análise do filme do diretor italiano Luchino Visconti (1906-1976). No artigo, deixa claro o viés ético de sua crítica: o horror de o crime, cada vez menos individualizado, tornar-se “matança coletiva” de rotina. Quanto ao teatro, entre as peças estudadas por Gilda está O Protocolo (1958), com máxima acuidade crítica na percepção de como o diretor Zbigniew Ziembinski (1908-1978) dá vida ao texto machadiano.

Considerado o empenho de Gilda em compreender as diversas formas da arte, a referida expressão “paixão pelo concreto” inspira o título de um volume em homenagem a ela: Gilda, a Paixão pela Forma. Com organização de Sérgio Miceli (1945) e Franklin de Mattos, é lançado em 2008 pela editora Ouro sobre Azul.

Conforme o título Exercícios de Leitura, sobressai a concepção crítica de Gilda: com base em conhecimentos, na observação de fatos concretos e na consciência histórica, ela se detém em obras de artistas e de intelectuais, movida pelo gosto, respeito e pela liberdade, articulando minúcias e vastidão de horizontes.

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Fontes de pesquisa 6

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  • AGUIAR, Joaquim Alves de. Anotações à margem de um belo livro. Literatura e Sociedade, São Paulo, n. 4, p. 129-140, dez. 1999. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/ls/article/view/18083/20147 >. Acesso em 13/05/2019.
  • Ensaísta Gilda de Mello e Souz morre aos 86. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 dez. 2005. Cotidiano, p.c5.
  • MICELI, Sergio; MATTOS, Franklin de (Orgs.). Gilda, a paixão pela forma. São Paulo: Ouro sobre Azul: Fapesp, 2007.
  • PONTES, Heloisa. A paixão pelas formas: Gilda de Mello e Souza. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 74, p. 87-105, mar. 2006. Disponível em: < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002006000100006&lng=en&nrm=iso >. Acesso em 6 jun. 2018
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço.
  • SCHWARZ, Roberto. Gilda de Mello e Souza. In: SCHWARZ, Roberto. Martinha versus Lucrécia: ensaios e entrevistas. São Paulo: Companhia das Letras, 2012. p. 184-202

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