Artigo da seção pessoas Osvaldo Lacerda

Osvaldo Lacerda

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deOsvaldo Lacerda: 23-03-1927 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / São Paulo) | Data de morte 18-07-2011 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia
Osvaldo Costa de Lacerda (São Paulo, São Paulo, 1927 - Idem, 2011). Compositor e professor. Cresce ouvindo a mãe, cantora e pianista amadora, interpretar obras do repertório clássico. Aos 9 anos, inicia seus estudos de piano e, a partir de 1949, aperfeiçoa-se com José Kliass (1895-1970). Nesse mesmo período, segue aulas de técnica vocal. Em 1945, inicia seus estudos de harmonia e contraponto com Ernesto Kierski e, em 1952, torna-se discípulo de Camargo Guarnieri (1907-1993), que o desaconselha a ser pianista para se dedicar à composição. Parte para os Estados Unidos em 1963, como bolsista da John Simon Guggenheim Memorial Foundation, frequentando aulas de composição com Vittorio Giannini (1903-1966), em Nova York, e Aaron Copland (1900-1990), em Tanglewood. Dois anos mais tarde, é enviado pelo Ministério das Relações Exteriores para representar o Brasil no Seminário Interamericano de Compositores, na Universidade de Indiana, e no III Festival Interamericano de Música, em Washington.

Nos Estados Unidos, na década de 1990, participa como compositor do encontro anual Sonido de las Américas (Nova York, 1996); do Festival de Bar-Harbor (Maine, 1997); e do Festival de Música Latino-Americana do Bard College (Annadale-on-Hudson, 1999). Recebe seu primeiro prêmio no Concurso Nacional Cidade de São Paulo, em 1962, promovido pela prefeitura. É premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte em 1975, 1978, 1981, 1986, 1994, 1997 e 2004. Recebe os troféus Ordem dos Músicos do Brasil, em 1968, e Guarani, da Secretaria do Estado da Cultura como Personalidade do Ano, em 1997. Funda a Mobilização Musical da Juventude Brasileira, em 1945, a Sociedade Paulista de Arte, em 1949, a Sociedade Pró-Musica Brasileira, em 1961, o Centro de Música Brasileira, em 1984. Além disso, participa da Comissão Municipal de Música, de Santos, entre 1965 a 1967, da Comissão Nacional de Música Sacra, de 1966 a 1970, e atua como presidente da Comissão Estadual de Música, em 1967. Colabora como fellow com a John Simon Guggenheim Memorial Foundation (JSGMF), nos Estados Unidos, é Comendador da Ordem dos Cavaleiros da Concordia, na Espanha, e ocupa a Cadeira de número 9 da Academia Brasileira de Música.

Suas obras são publicadas por 14 editoras brasileiras, seis alemãs, quatro estadunidenses e uma inglesa. Desde os 20 anos, é professor de teoria elementar, solfejo, harmonia, contraponto, análise musical, composição e orquestração, e publica diversas obras didáticas. Em 1969, é convidado por George Olivier Toni (1926) para integrar o corpo docente da Escola Municipal de Música de São Paulo, na qual se aposenta em 1992. Na década de 1960, leciona no curso de formação de professores da Comissão Estadual de Música e na Escola Santa Marcelina. Entre seus alunos, destacam-se Raul do Valle (1936), Almeida Prado (1943-2010), Sérgio Vasconcelos-Corrêa (1934), Lina Pires de Campos (1918-2003) e a pianista Eudóxia de Barros (1937), com quem se casa em 1982 e que lança, após sua morte, a obra inacabada Curiosidades Musicais.

Análise
Osvaldo Lacerda é herdeiro das ideias de Mário de Andrade (1893-1945) e das aulas de Camargo Guarnieri, que deixam no compositor marcas indeléveis na estética, na filosofia de vida e de criação artística e na ideologia social e política. Mesmo antes de ter contato com eles, seu percurso define-se por um caráter essencialmente nacional. Como o próprio compositor afirma: “eu fui um nacionalista espontâneo. Desde a primeira nota que eu pus em música até a última, sempre fiz música brasileira, e eu já tinha escrito uma dúzia de canções autodidaticamente (que, curiosamente, estão entre as melhores) quando soube o que era música nacionalista. Estava no sangue” [1].

Seu Opus 1 (1949), baseado no poema “Minha Maria”, de Castro Alves (1847-1871), é “espontaneamente uma toada” [2], sem que haja  a preocupação racional de se criar uma música brasileira. A técnica e a consciência do nacionalismo é encontrada pelo compositor mais tarde: do verdadeiro nacionalismo, vindo do Brasil inteiro, e não da música popular de massa, porque essa “não é nacionalismo, é regionalismo, esse [...] acho nocivo”[3].

Essa distinção é vital para se compreender a estética desenvolvida pelo compositor. Para ele, a música popular de raiz é música “do” povo, e a música popular atual é música “para” o povo. Financiada por grandes veículos de massa, essa última visa prioritariamente ao lucro: “Por exemplo, a música popular brasileira é MPB. Se você vai examinar mais de perto é a música do burguês de Copacabana e a música do baiano carnavalesco. E as outras regiões tão ricas, como a música caipira autêntica [...] do sudeste, a riquíssima música do nordeste, isso não é música popular brasileira?” [4].

É dessa segunda corrente que se ocupa Lacerda, na melhor linhagem da tradição legada por Mário de Andrade e Camargo Guarnieri. A eles, permanece fiel toda a vida, digerindo e transubstanciando, como diria Andrade, o folclore nacional em música erudita: “pois é dentro dessa arteação, desse primitivismo, natural do Brasil em face do seu futuro, que música brasileira tem de ser nacional” [5].

Embora nunca tenha se qualificado como folclorista ou profundo conhecedor da música popular, dedica-se à intensa atividade de audição de gravações disponíveis pelo Brasil. Essa pesquisa de base, resulta, como define o musicólogo Vasco Mariz (1921), no domínio das “constâncias melódicas do povo brasileiro”[6], dando-lhes uma roupagem harmônica original e requintada, e gerando, por essa razão, uma música nacionalista depurada de suas origens populares.

A roupagem, além de harmônica, vem também de forma tímbrica. Nela, a relação com a música de câmara é notória. Dentro desse repertório, constam várias obras premiadas – como Appassionato, Cantilena e Tocata para viola e piano (1977), e Sonata para oboé e piano (1986) –, mas, dentro dele, o compositor privilegia a música vocal para canto e piano.

Autor de mais de 130 obras nesse formato, compõe música para poesias de alguns autores. Entre elas, “Menino Doente” (1949), “Mandaste a Sombra de um Beijo” (1960) e ”Poema Tirado de uma Notícia de Jornal” (1964), de Manuel Bandeira (1886-1968); “Murmúrio” (1965), de Cecília Meireles (1901-1964); “Uma Nota, Uma Só Mão” (1967) e “O Boi” (1971), de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987); e “Hiroshima, Meu Amor” (1979), de Augusto de Campos (1931). Concebendo a canção de câmara como poesia cantada, Lacerda faz com que poesia e música coexistam como seres de um mesmo universo. Isso condiciona a criação da obra de Lacerda, uma vez que nela a sonoridade dos poemas define toda a estrutura formal, melódica, harmônica, rítmica, prosódica e tímbrica da composição.

Seu catálogo mostra-se igualmente prolífico no que tange à escrita para piano solo. Entre as mais de 60 peças escritas para esse instrumento, podemos destacar séries de obras como as Brasilianas 1 a 12 (1965-1993), e Estudos para Piano Solo 1 a 12 (1960-1976).

As composições orquestrais, por sua vez, mesmo que em menor número, trazem obras premiadas como as Quatro Peças Modais para orquestra de cordas (1975), o Concerto para flautim e orquestra de cordas (1981) e a Cromos para piano e orquestra (1994). Sua escrita, apesar de agregar outros sistemas de organização do material, baseia-se em escrita modal e tonal, principalmente polifônica.

A preocupação em criar uma identidade musical brasileira revela-se também em ações políticas e sociais. Nesse sentido, compra com afinco o conflito deflagrado por Claudio Santoro (1919-1989) [7] e comandado por Guarnieri no início da década de 1950, posicionando-se contra a música universalista de Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005) e a favor da música nacionalista de Mário de Andrade [8]. Trabalha, entre 1966 e 1970, como consultor na Comissão Nacional de Música Sacra, afim de propor o uso da música sacra brasileira na liturgia da Igreja Católica. Essa experiência desemboca, durante essa época, na composição da Missa a Duas Vozes (1966), da Missa Ferial (1966) e da Missa a Três Vozes Iguais (1971), na tentativa de incorporar a música brasileira nacionalista nos rituais litúrgicos.

Notas
[1] SILVA, Andréia Anhezini da. A relação poesia e música na obras corais de Osvaldo Lacerda sobre poemas de Carlos Drummond de Andrade: uma abordagem analítico-interpretativa. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009. p. 333.
[2] Ibid., loc. cit.
[3] Ibid., p. 334.
[4] LESSA, Angélica G. M. Missa Ferial de Osvaldo Lacerda: uma análise interpretativa. Dissertação (Mestrado em Musicologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007. p. 147.
[5] ANDRADE, Mário de. O Banquete. São Paulo: Duas Cidades, 1989. p. 132-133.
[6] MARIZ, Vasco. A Canção brasileira de câmara. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 2002. p. 190.
[7] Esse direcionamento estético é guiado pelas diretrizes comunistas trazidas pelo compositor Claudio Santoro do II Congresso Internacional de Compositores e Críticos Musicais de Praga (1948) e pela publicação da Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil (1950), de Camargo Guarnieri.
[8] Em seu Ensaio sobre a Música Brasileira, Mário de Andrade enfoca, sobretudo, o conceito da arte-ação – ou da função social da obra artística –, que, segundo ele, deve refletir as características do povo, a fim de se criar uma identidade nacional proporcionando, ao mesmo tempo, uma elevação do nível da música popular e uma maior compreensão da música erudita pela massa.

Outras informações de Osvaldo Lacerda:

  • Outros nomes
    • Osvaldo Costa de Lacerda
  • Habilidades
    • Pianista
    • Compositor

Fontes de pesquisa (16)

  • ANDRADE, Mário de. O Banquete. São Paulo: Duas Cidades, 1989.
  • FRÉSCA, Camila. Oferenda musical ajuda a repensar Osvaldo Lacerda e sua produção. Revista Concerto, São Paulo, 7 ago. 2008. Disponível em: < http://concerto.com.br/textos.asp?id=32 >. Acesso em: 08 de outubro de 2014.
  • FUNDAÇAO Biblioteca Nacional. Osvaldo Lacerda. Disponível em: < http://catalogos.bn.br/lc/musica/oswaldolacerda/index.html >. Acesso em: 08 out. 2014.
  • GONZAGA, Maria Tereza. As Canções de câmara de Osvaldo Lacerda. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo, 1997.
  • LACERDA, Osvaldo et al. Canções de câmara de Osvaldo Lacerda. Tomasino Castelli (tenor) e Eudóxia de Barros (piano). [Brasil]: Paulinas Comep, 1998. 1 encarte de CD
  • LACERDA, Osvaldo. A criação do Recitativo Brasileiro. Revista Música Brasileira na Liturgia, São Paulo, p. 109-123, 2005.
  • LACERDA, Osvaldo. Meu professor Camargo Guarnieri. In: SILVA, Flávio (Org.). Camargo Guarnieri: o tempo e a música. São Paulo: Imprensa Oficial; Rio de Janeiro: Funarte, 2001. p. 57-67.
  • LACERDA, Osvaldo. Meu professor Camargo Guarnieri. In: SILVA, Flávio (Org.). Camargo Guarnieri: o tempo e a música. São Paulo: Imprensa Oficial; Rio de Janeiro: Funarte, 2001. p. 57-67.
  • LESSA, Angélica G. M. Missa Ferial de Osvaldo Lacerda: uma análise interpretativa. Dissertação (Mestrado em Musicologia) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2007.
  • MARIZ, Vasco. Figuras da música brasileira contemporânea. 2. ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1970.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. 2. ed., rev. ampl. São Paulo: Art Editora : Itaú Cultural, 1998. p. 428.
  • LACERDA, Osvaldo et al. Música brasileira na liturgia. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2005.
  • MARIZ, Vasco. História da música no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
  • MARIZ, Vasco. História da música no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
  • Osvaldo Costa de Lacerda (1927-2011) - Pianista e Compositor Erudito. São Paulo, SP. Disponível em: . Acesso em: 11/09/2011. Não catalogado
  • VINTON, John (Ed.). Dictionary of contemporary music. Nova York: Editora E.P.Dutton & Co., Inc, 1971. p. 413-414.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • OSVALDO Lacerda. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa18598/osvaldo-lacerda>. Acesso em: 21 de Nov. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7