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Artes visuais

Takao Kusuno

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 21.12.2020
1945 Japão / Hokkaido / Yubari
07.03.2001 Brasil / São Paulo / São Paulo
Takao Kusuno (Yubari, Hokkaido, Japão, 1945 - São Paulo, São Paulo, 2001). Artista plástico e diretor de dança. Chega ao Brasil em 1977 e, no ano seguinte, casa-se com Felícia Megumi Ogawa (1945-1997),  parceira de quase 20 anos. Embora não chame sua produção de butô, Kusuno tem papel importante na introdução desse conceito de dança no Brasil. P...

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Takao Kusuno (Yubari, Hokkaido, Japão, 1945 - São Paulo, São Paulo, 2001). Artista plástico e diretor de dança. Chega ao Brasil em 1977 e, no ano seguinte, casa-se com Felícia Megumi Ogawa (1945-1997),  parceira de quase 20 anos. Embora não chame sua produção de butô, Kusuno tem papel importante na introdução desse conceito de dança no Brasil. Paralelamente, dedica-se às artes plásticas.

Os primeiros trabalhos, Transformações e Corpo 1, com Dorothy Lenner e Julio Vilan, ambos de 1978, apresentam novos modos de perceber o tempo, o corpo e o espaço. Com Corpo 1, recebe o prêmio de melhor diretor de dança da Associação Paulista de Críticos de Arte (Apca), em 1978. Sua obra posterior, o duo Quando Antes For Depois (1979), conta com Dorothy Lenner e o bailarino Denilto Gomes (1953-1994). O espetáculo inaugura a colaboração com Gomes, que dura anos. Em As Galinhas (1980), Kusuno trabalha com Renée Gumiel (1913-2006), Dorothy Lenner e Ismael Ivo (1955), bailarino residente na Alemanha e que dirige-o no solo Rito do Corpo em Lua, no mesmo ano. Em conjunto, Kusuno e Ogawa elaboram Memória Três (1983), para o Grupo Ágora. A partir de Cata Ventos (1986), intensifica-se a parceria artística com Denilto Gomes e produz para o bailario, o espetáculo Canção da Terra (1991)[1], com a participação de Patrícia Noronha.

Em 1991, Kusuno e Ogawa retornam ao Japão por curto período. Credita-se a Denilto a iniciativa da criação da Cia. Tamanduá de Dança-Teatro. “Em 1992, enquanto Takao e Felícia estavam no Japão, Denilto, com o intuito de realizar os planos vislumbrados junto a eles, empenhou-se em formar um grupo de pesquisa, o qual seria assumido e estabilizado com a volta de Takao” [2]

No entanto, a Cia. Tamanduá de Dança-Teatro é fundada por Kusuno apenas em 1995. No ano seguinte a companhia estreia O Olho do Tamanduá. Seu último trabalho, Quimera – O Anjo Vai Voando (1999), ocorre em ambiente hospitalar e é uma homenagem à mulher, Felícia. Recebe dois prêmios da Funarte em 1995, Estímulo e Prêmio Mambembe; o Prêmio Villanueva, de Cuba, pelo melhor espetáculo por Olho do Tamanduá (1995); e o prêmio Flávio Rangel/ Funarte (1997), pela consolidação da Cia. Tamanduá de Dança Teatro.

Colabora com seu irmão, Yuji Kusuno, na organização da vinda do artista japonês Kazuo Ohno (1906-2010) ao Brasil, em 1986 e 1997. É homenageado no evento Vestígios do Butô (2003), com a remontagem de duas obras e, em Tokyogaqui (2008), em comemoração aos 100 anos da imigração japonesa. Kusuno tem sua arte discutida no vídeo Takao Kusuno: O Marginal da Dança (2005-2006), dirigido por Hideki Matsuka.

 

Análise

Takao Kusuno não nomeia o que desenvolve artisticamente. Seu trabalho, porém, apresenta a “proposta mais preciosa do butô: a investigação de como um corpo artista muda de estado, passando de corpo morto a corpo vivo, da aparente imobilidade à ação, do silêncio à palavra encarnada” [3]. Quando transposto para outras culturas, o butô desperta debates acalorados. Como assinala a pesquisadora Christine Greiner (1961), ele deve ser entendido como “um campo de conhecimento e uma metodologia de pesquisa do corpo que tem como princípio assombrar as certezas e dogmatismos que permeiam a nossa existência” [4].

A Ideia do Físico-Corpóreo em Transformação, único texto escrito por Kusuno em parceria com Ogawa, trata da possibilidade de superação dos limites impostos pelas leis naturais ao corpo humano, já que, para eles, a fisiologia impede que o dançarino consiga exprimir as ideias e imagens oriundas da emoção de forma eficaz. A superação materializa-se com uma metamorfose – a mutação dos estados do corpo – pelo esforço de transformar-se no outro escolhido por sua imaginação. Para que isso ocorra, “é necessário que o dançarino tenha o domínio de uma técnica corpóreo-física que torne possível o poder de automanipulação” [5] . A mudança acontece quando se tem uma consciência corporal, baseada no caminhar, que leva à criação do espaço. O casal discute o andar, levantar e caminhar, associados a uma postura do corpo “relaxada, mas ao mesmo tempo com todos os poros atentos à espiritualidade” [6]. Em japonês, a postura é denominada Kamae, do verbo Kamaeru, que significa estar preparado, alerta. No entanto, a metamorfose se realiza com o Hakobi (carregar, levar, progredir, caminhar) “[...] carregar o corpo como se este de corpo como se este ato de caminhar levasse a esquecer que esse corpo humano está caminhando” [7].

Portanto, Corpo 1 apresenta os traços de um conceito de corpo inédito na dança brasileira. O impacto inicial reverbera nas criações posteriores de Kasuno e influencia a dança autoral de Ismael Ivo, Patrícia Noronha, Emilie Sugai (1965) e Denilto Gomes, um dos que melhor compreende os conceitos propostos pelo diretor.

Na análise de Christine Greiner, Kusuno propõe “uma conexão não explícita com o butô japonês na busca de uma narrativa autobiográfica do corpo em ambientes específicos, sem necessariamente o ‘contar histórias de um sujeito’ como um relato consciente e intencional” [8]. Pode-se afirmar que Kusuno procura dar a sua linguagem cores brasileiras, especialmente em Olho do Tamanduá, quando se volta para as etnias e os processos históricos do país. Seu último espetáculo, Quimera – o Anjo Vai Voando, registra um retorno a temas próprios do butô e evoca sonhos e fantasias ligados a doentes terminais.

 

Notas

1. Denilto e Takao desenvolvem Canção da Terra, à partir de fragmentos dos espetáculos Quando Antes for Depois, Cata-Ventos e Serra dos Orgãos. Durante a divulgação, muitos lugares nomearam o solo como Serra dos Orgãos I

2. CAMARGO, Andréia Vieira Abdelnur. Procura-se Denilto Gomes: um caso de desaparecimento no jornalismo cultural. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) –  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/5016/1/Andreia%20Vieira%20Abdelnur%20Camargo.pdf. Acesso em: 03 out. 2019.

3. GREINER, Christine. Vestígios do Butô. Idança.net, Rio de Janeiro, 20 out. 2004. Disponível em: http://idanca.net/vestigios-do-buto/. Acesso em: 03 out. 2019.

4. Idem, ibidem.

5. KUSUNO, Takao: OGAWA, Felícia Megumi. A ideia do físico-corpóreo em transformação. In: MOMMENSOHN, Maria; PETRELLA, Paulo (Orgs.). Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento. São Paulo: Summus, 2006. p. 181. 

6. Idem, p.183.

7. Idem, p.186.

8. GREINER, Christine. Autoria na arte contemporânea. In: IV Simpósio O Corpo e a Psique na Arte Brasileira, São Paulo, 10 nov. 2006. Núcleo de Estudos Junguianos. Disponível em: http://www.pucsp.br/jung/portugues/simposios_eventos/IV_simposios.html. Acesso em: 03 out. 2019.

Exposições 9

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Eventos relacionados 18

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Fontes de pesquisa 6

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  • CAMARGO, Andréia Vieira Abdelnur. Procura-se Denilto Gomes: um caso de desaparecimento no jornalismo cultural. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/5016/1/Andreia%20Vieira%20Abdelnur%20Camargo.pdf. Acesso em: 03 out. 2019.
  • GREINER, Christine. Autoria na arte contemporânea. In: IV Simpósio O Corpo e a Psique na Arte Brasileira, São Paulo, 10 nov. 2006. Núcleo de Estudos Junguianos. Disponível em: http://www.pucsp.br/jung/portugues/simposios_eventos/IV_simposios.html. Acesso em: 03 out. 2019.
  • GREINER, Christine. Vestígios do Butô. Idança.net, Rio de Janeiro, 20 out. 2004. Disponível em: http://idanca.net/vestigios-do-buto/. Acesso em: 03 out. 2019.
  • KUSUNO, Takao: OGAWA, Felícia Megumi. A ideia do físico-corpóreo em transformação. In: MOMMENSOHN, Maria; PETRELLA, Paulo (Orgs.). Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento. São Paulo: Summus, 2006. p. 181-189.
  • Programa Tokyogaqui – pedaços da cultura japonesa 100 anos por outras perspectivas. São Paulo: Sesc, 2008.
  • Programa do Espetáculo - A Aurora da Minha Vida - 1981. Não catalogado

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