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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

João Filgueiras Lima

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 30.05.2019
1932 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
21.05.2014 Brasil / Bahia / Salvador
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Ampliações do Hospital Sarah Kubitschek Brasília, 1995
João Filgueiras Lima

João Filgueiras Lima (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1932 - Salvador, Bahia, 2014). Arquiteto, urbanista, construtor. Forma-se em 1955 na Faculdade Nacional de Arquitetura - FNA1, no Rio de Janeiro. Recém-formado, trabalha como desenhista no Instituto dos Aposentados e Pensionistas - IAP, e em 1957 recebe a incumbência de desenvolver e acompanh...

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Biografia

João Filgueiras Lima (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1932 - Salvador, Bahia, 2014). Arquiteto, urbanista, construtor. Forma-se em 1955 na Faculdade Nacional de Arquitetura - FNA1, no Rio de Janeiro. Recém-formado, trabalha como desenhista no Instituto dos Aposentados e Pensionistas - IAP, e em 1957 recebe a incumbência de desenvolver e acompanhar a construção dos alojamentos de operários em Brasília. Mudando-se para a futura capital do Brasil, em início de construção, Lelé envolve-se na pesquisa de componentes industriais para obras em grande escala, estudo que o leva, em seguida, a viagens para países do bloco socialista europeu. Entre meados dos anos 1960 e início dos 1970, realiza seus primeiros projetos autorais: a residência para a embaixada da África do Sul, 1965, e as sedes das montadoras Disbrave-Volkswagen, 1965, Planalto Automóveis-Ford, 1972, e Codipe-Mercedes Benz, 1973, todos em Brasília. Usando os sistemas pré-fabricados de construção em série, esses projetos demonstram sua capacidade de especulação formal para componentes de concreto armado, consolidando uma linguagem própria. Suas primeiras fábricas de pré-moldados são montadas em Salvador, em 1979, para projetos urbanos criados pelo prefeito Mario Kertész (1945).

Procurando otimizar o transporte das peças e o trabalho nos canteiros de obras, desenvolve estudos com um material mais leve: a argamassa armada. Esse trabalho tem prosseguimento nas escolinhas de Abadiânia, 1982, no interior de Goiás, na "fábrica de escolas" do Rio de Janeiro, em 1984, e na Fábrica de Equipamentos Comunitários - Faec, 1985, em Salvador, voltada para a produção de peças de equipamento urbano: escada, arrimo, canaleta pluvial, banco, ponto de ônibus, passarela etc. As "fábricas de hospitais", montadas para a construção da rede Sarah Kubitschek, para tratamento de doenças do aparelho locomotor, se iniciam concomitantemente a essas, abrindo um campo experimental que ultrapassa a fabricação de elementos construtivos unicamente arquitetônicos, incluindo objetos hospitalares. A maior conquista técnica desses projetos refere-se à qualidade do sistema de ventilação e iluminação natural, que ajuda no processo de cura dos pacientes.

Vale observar que a relação de Lelé com o programa hospitalar, que se torna íntima, nasce de um acontecimento fortuito: um acidente de automóvel com sua esposa, em 1963, que o leva a conhecer Aloysio Campos da Paz (1934), médico que depois preside a Fundação das Pioneiras Sociais dos Hospitais Sarah Kubitschek. Posteriormente, o mesmo sistema de iluminação, ventilação e pré-fabricação de componentes é aplicado em projetos de tribunais de contas e centros administrativos municipais em diversas capitais brasileiras. Seu reconhecimento em âmbito internacional se consolida com o prêmio da Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo, em Madri, 1998; a Sala Especial na Bienal de Veneza de 2000; e o Grande Prêmio Latino-Americano de Arquitetura da 9ª Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 2001.

Análise

A obra de João Filgueiras Lima, o "Lelé", destaca-se pela combinação entre a exploração da industrialização na construção civil - a criação de componentes pré-fabricados em série - e o recurso da forma livre, freqüentemente sinuosa, herdada de seu convívio com Oscar Niemeyer (1907-2012). Em ambos os sentidos, sua trajetória se inicia em 1957, no canteiro de obras de Brasília, onde Lelé trabalha usando inicialmente a madeira (nos alojamentos de operários), e depois o concreto armado (nos edifícios residenciais das superquadras e nas instalações da Universidade de Brasília - UnB). É nessa experiência inaugural que toma contato tanto com a urgência de desenvolver soluções técnicas que atendam à construção rápida e em grande escala quanto com a poética formal de Niemeyer, deduzida com base na plasticidade do concreto armado.

Entre os protagonistas da arquitetura moderna do Brasil, Lelé é o arquiteto que leva mais longe as experiências de industrialização de componentes na construção civil - sobretudo em argamassa armada -, mesmo diante das condições precárias do país. Orientado pela dimensão coletiva da arquitetura, trabalha prioritariamente para o poder público em programas de grande alcance social: edifícios residenciais, escolas, hospitais e equipamentos urbanos de saneamento e transporte. Nesse sentido, cria uma alternativa concreta para a prática arquitetônica em projetos públicos num período de exíguas oportunidades de atuação profissional: os anos de ditadura militar e a década de 1980, marcada por sucessivas reduções de investimento.

Em 1962, Lelé é convidado pelo antropólogo e educador Darcy Ribeiro (1922-1999) e Niemeyer a coordenar o Centro de Planejamento - Ceplan, da UnB. Ali, introduz no Brasil a tecnologia de pré-fabricados de concreto desenvolvida pelos países do Leste Europeu. Interrompidas pelo golpe militar, essas experimentações são retomadas em Salvador, na década de 1970, quando o então prefeito, Mario Kertész (1945), cria a Companhia de Renovação Urbana - Renurb, 1978 a 1982, com o objetivo de implantar um sistema eficiente de transporte na cidade. Conduzido por Lelé, o projeto acaba agregando uma série de equipamentos urbanos, tais como sistemas de drenagem, abrigo, escada, posto policial, banca de jornal e serviços. Esses projetos exigem a elaboração de um sistema de fôrmas metálicas mais sofisticado, proporcionando o desenvolvimento da tecnologia da argamassa armada. Esta, diferentemente do concreto armado, comporta ferragens mais homogêneas, permitindo dimensões reduzidas na peça final, o que facilita não apenas a produção, mas a montagem in loco das peças, já que os componentes podem ser manipulados sem ajuda de guindaste. Depois de 1982, esse projeto ganha força e irradia-se para outros campos da industrialização de componentes urbanos, com a inauguração da Fábrica de Equipamentos Comunitários de Salvador - Faec, 1985-1989. São dessa época os projetos desenvolvidos em parceria com Lina Bo Bardi (1914 - 1992) para a recuperação do centro histórico da capital baiana.

Dessa experiência de implantação de um sistema fabril de produção para componentes urbanos, Lelé cria, entre 1984 e 1986, a "fábrica de escolas" para o então secretário da Educação do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro. O projeto dos Centros Integrados de Educação Pública - Cieps tem a colaboração de Niemeyer, e é apresentado ao Ministério da Educação como piloto de um sistema em escala federal, o dos Centros Integrados de Apoio à Criança - Ciacs, 1990, que prevê a construção de 5 mil escolas pelo Brasil. Do ponto de vista tecnológico, essas escolas representam um aprimoramento tanto dos sistemas da fábrica de Salvador quanto da experiência da escolinha de Abadiânia, no interior de Goiás, em 1982, em que utiliza um misto de estrutura de chapas de aço, madeira e componentes de vedação, piso e cobertura de argamassa armada.

Sua obra atinge maturidade técnica e simbólica na experiência com a rede Sarah Kubitschek de hospitais para doenças do aparelho locomotor, iniciada em Brasília, 1980, e estendida para Salvador, 1991, Fortaleza, 1991, Belo Horizonte, 1993, Recife, 1995, e Natal, 1996. As especificidades do gerenciamento desses hospitais, que articulam no mesmo edifício áreas de desenvolvimento técnico-científico e atendimento médico, trazem a oportunidade de desenvolver projetos arquitetônicos marcados pela vinculação estreita entre espaço e programa. Assim, aplica os sistemas de pré-fabricação em todas as etapas do edifício (desde as superestruturas até os equipamentos de atendimento), exercitando o saber acumulado desde o canteiro de obras de Brasília, no início de sua carreira.

Lelé consegue adequar perfeitamente os projetos às necessidades tecnológicas e ambientais do programa hospitalar, estabelecendo um roteiro de princípios que estruturam todos os edifícios da rede: flexibilidade e extensibilidade da construção, criação de espaços verdes como desafogo visual, padronização de elementos construtivos, e iluminação natural e conforto térmico dos ambientes por meio de sistemas naturais de ventilação. Esses últimos aspectos ajudam no processo de cura dos pacientes. Em seguida, o mesmo sistema de iluminação, ventilação e pré-fabricação é aplicado a outros programas, tais como os tribunais de contas da Bahia, 1995, Rio Grande do Norte, 1996, e Aracaju, Belo Horizonte, Maceió, Teresina, Cuiabá - todos em 1997 -, e os centros administrativos municipais no Maranhão e Amapá, a partir de 1998. Em todos esses casos, Lelé constrói uma obra de responsabilidade pública baseada no princípio da inclusão e consegue oferecer à população espaços agradáveis, econômicos, eficientes e pouco convencionais.

NOTAS

1. Antigo curso de arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), a Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA) é criada em 1945. Posteriormente, passa a chamar Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/UFRJ).

Obras 1

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Exposições 6

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Fontes de pesquisa 5

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  • BAYEUX, Glória e ARTIGAS, Rosa (org). Arquitetura Cidade e Território - 7º mostra internacional de arquitetura da bienal de Veneza. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2000.
  • EKERMAN, Sérgio Kopinski. Um quebra-cabeça chamado Lelé. Arquitextos, nº 64.03. Disponível em: [http://www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq064/arq064_03.asp. Acesso em: out. 2006.
  • FACULDADE de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ. Disponível em: < http://www.fau.ufrj.br/a-fau/ >. Acesso em 24 mai. 2019.
  • LATORRACA, Giancarlo (org.). João Filgueiras Lima: Lelé. Coordenação editorial Marcelo Carvalho Ferraz; pesquisa Esequias Souza de Freitas, Giancarlo Latorraca; apresentação Graziella Bo Valentinetti, Oscar Niemeyer, Lucio Costa. Lisboa: Blau, 2000. 263 p., il. color. p.b. (Arquitetos brasileiros).
  • LIMA, João Filgueiras. O que é ser arquiteto: memórias profissionais de Lelé; em depoimento a Cynara Menezes. Rio de Janeiro: Record, 2004.

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