Artigo da seção pessoas Maria Valéria Rezende

Maria Valéria Rezende

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Literatura  
Data de nascimento deMaria Valéria Rezende: 1942 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Santos)

Maria Valéria Rezende (Santos, São Paulo, 1942). Escritora, educadora, tradutora e freira missionária. Antes de publicar literatura, escreveu livros de não ficção sobre história, religião e movimentos populares. Enquanto ficcionista, escreve romances, livros de contos e literatura infantojuvenil. Sua experiência como educadora popular perpassa sua obra literária, conferindo um repertório amplo de cenários, eventos e tipos sociais amparados na realidade.

Rezende vive sua infância e início de juventude em Santos, São Paulo. Obtém o diploma de graduação em língua e literatura francesa pela Universidade de Nancy antes dos 17 anos, por meio de seus estudos na Aliança Francesa. Aos 18 anos de idade, muda-se para São Paulo, onde atua como dirigente  nacional  da  Juventude  Estudantil  Católica  (JEC) e se dedica à educação popular em zonas periféricas. Conclui sua segunda graduação, em pedagogia, pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), em meio ao início da ditadura civil-militar de 1964.

Em 1965, Rezende faz os votos e se torna freira pela Congregação de Nossa Senhora Cônegas de Santo Agostinho, o que lhe permite viajar o Brasil e o mundo como missionária, trabalho que conjuga com a educação popular para jovens e adultos e a formação de educadores. Com o agravamento da perseguição política aos movimentos estudantis e às liberdades individuais, é enviada por sua Congregação para viver no exterior, em países da Europa e do norte da África, entre 1969 e 1971.

Na volta ao Brasil, em 1972, Rezende passa a viver na zona rural de Pernambuco, onde continua na militância contra a ditadura. A pedido da Ação Católica Operária, escreve a História da Classe Operária no Brasil. O livro é publicado em três volumes, a partir de 1973, sem o nome da autora, como forma de fugir de possíveis perseguições políticas. Na mesma linha voltada para um público popular, escreve uma versão da história da Igreja Católica no Brasil colonial, intitulada Não se Pode Servir a Dois Senhores (1985).

Rezende vive entre Recife e Olinda de dezembro de 1972 a 1976, quando se muda para a Paraíba, onde anos depois recebe o título de cidadã paraibana. No Brejo Paraibano, participa da fundação da organização não governamental Serviço de Educação Popular (Sedup). Tem sua prática educacional influenciada pelo educador Paulo Freire (1921-1997) e seu trabalho missionário inspirado por Frei Betto (1944). Em 1988, passa a viver em João Pessoa, onde cursa o mestrado em sociologia na Universidade Federal da Paraíba, concluído em 1999.

Seu livro de estreia na literatura é Vasto Mundo (2001), considerado pela crítica uma coletânea de contos, embora seja definido pela autora como um romance. Cada capítulo da obra gira em torno de um dos moradores do lugar, todos narrados pelo ponto de vista do chão do lugar. O protagonista deste romance é o povo.

Em 2008, Rezende lança No Risco do Caracol, vencedor do Prêmio Jabuti. O livro é uma coleção de haikais1 unidos pela temática da efemeridade e da transição das estações do ano. O romance Ouro Dentro da Cabeça (2012) vence o Prêmio Jabuti na categoria juvenil no ano seguinte.

Com a obra Quarenta Dias (2014), a escritora ganha os Prêmios Jabutis de melhor romance e livro do ano de ficção. A narradora-protagonista é Alice, uma professora de francês aposentada, nascida e criada na Paraíba, que tem uma filha, chamada Norinha, que mora em Porto Alegre. Norinha convence a mãe a deixar sua vida e seus amigos na Paraíba e mudar-se para Porto Alegre para ajudar a cuidar do neto.

Seu romance Outros Cantos (2016) recebe patrocínio da Petrobras Cultural para a publicação. Com esta obra, a autora ganha o Prêmio Casa de las Américas, em Cuba, e o Prêmio São Paulo de Literatura. No livro, Maria é a protagonista-narradora que retorna à pequena cidade de Olhos D'água, onde vive 40 anos antes. No tempo presente da narrativa, Maria tem 70 anos de idade, e o que ela vê se intercala com suas memórias de quando leciona na mesma cidade 30 anos antes.

Em 2017, Rezende participa da criação do Mulherio das Letras, coletivo literário feminista que reúne escritoras, ilustradoras, editoras, livreiras, pesquisadoras e outras mulheres relacionadas à cadeia criativa e produtiva do livro. Desde sua criação, o coletivo conta com mais de 5 mil integrantes, organiza encontros nacionais e internacionais, e produz antologias e parcerias literárias.

No livro Carta à Rainha Louca (2019), a protagonista é inspirada em uma carta manuscrita do século XVIII, de uma mulher que se defende da acusação de criar um convento clandestino, à época, um crime contra a ordem da Coroa. A carta é descoberta pela autora entre documentos do século XVIII, durante uma pesquisa sobre a vida religiosa feminina no período colonial, no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, Portugal.

Maria Valéria Rezende inicia sua carreira literária tardiamente, porém com um rápido reconhecimento e grande número de prêmios importantes. Em pouco tempo, torna-se uma escritora profícua, trazendo para sua obra ficcional elementos advindos de sua vivência enquanto educadora, militante política e freira missionária. Sua produção trata de dramas humanos com uma abordagem crítica acerca de temas políticos como a ditadura, a desigualdade e o analfabetismo.

Nota:

1. Haikai ou haiku: forma poética sintética de origem oriental.

Outras informações de Maria Valéria Rezende:

  • Habilidades
    • Escritor
    • Educadora
    • Tradutora

Obras de Maria Valéria Rezende: (15) obras disponíveis:

Fontes de pesquisa (11)

  • COSTA, Jeniffer Thalia do Prado da; COQUEIRO, Wilma dos Santos. A autoficção feminina no século XXI: uma travessia pelas memórias da protagonista do romance Outros cantos, de Maria Valéria Rezende. Miguilim – Revista Eletrônica do Netlli, v. 8, n. 2, p. 94-106, maio-ago. 2019. Disponível em: http://periodicos.urca.br/ojs/index.php/MigREN/article/view/2108. Acesso em: 20 jan. 2021.
  • DAVID, Nismária Alves; RESENDE, Beatriz Vieira de. A cidade e a escrita do corpo em Quarenta dias. Contexto – Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, n. 30, 2016. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/contexto/article/view/13736. Acesso em: 20 jan. 2021.
  • MARIA Valéria Rezende: 30 anos de pesquisa. In: RUMOS Itaú Cultural. São Paulo: Itaú Cultural, 9 set. 2020. (14min25s). Disponível em: https://youtu.be/z0YpPWa6N6Y. Itaú Cultural. Acesso em: 2 nov. 2020.
  • MARTINS, Caroline Peres. Um lugar fora de lugar: mulher e ditadura em Quarenta dias (2014) e Outros cantos (2016), de Maria Valéria Rezende. Revista Memento, v. 11, n. 1, 2020. Departamento de Letras Unincor. Disponível em: http://periodicos.unincor.br/index.php/memento/article/view/6134. Acesso em: 20 jan. 2021.
  • OLIVEIRA, Iara de. Ouro dentro da cabeça e outros cantos: a escrita artesanal de Maria Valéria Rezende entre o juvenil e o adulto. Miguilim: Revista eletrônica do netlli, v. 8, n. 3, set-dez. 2019. Disponível em: http://periodicos.urca.br/ojs/index.php/MigREN/article/view/2134. Acesso em: 20 jan. 2021.
  • PIACESKI, Daiana Patrícia F. Maria Valéria Rezende: colorindo invisíveis por meio da literatura. Revista Crioula, v. 24, 2019.
  • REZENDE, Maria Valéria. Literatura e Ditadura: Maria Valéria Rezende. Grupo de estudos em literatura brasileira contemporânea (GELBC), 21 ago. 2020. (10min25s). Disponível em: https://youtu.be/RFOjwQCaiZQ. Acesso em: 31 out. 2020.
  • REZENDE, Maria Valéria. O maior patrimônio do Brasil é o povo, diz ao Leituras a escritora Maria Valéria Rezende. [Entrevista cedida a] Maurício Melo Júnior. Programa Leituras. Brasília: TV Senado, 24 out. 2018. (26min11s). Disponível em: https://youtu.be/P05-O4iNG6M. Acesso em: 29 out. 2020.
  • REZENDE, Maria Valéria. Site da Companhia das Letras. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=04047. Acesso em: 31 out. 2020.
  • ROCHA, Nátali Conceição Lima; MENDES, Algemira de Macêdo. Representação dos espaços de memória em Outros cantos, de Maria Valéria Rezende. Litterata, v. 9, n. 2. Ilhéus, jul.-dez. 2019. Disponível em: https://periodicos.uesc.br/index.php/litterata/article/view/2432. Acesso em: 20 jan. 2021.
  • TESTEMUNHOS e expressões da memória com Maria Valéria Rezende e Márcio Seligman-Silva. São Paulo: Sesc São Paulo, 16 set. 2019. Disponível em: https://youtu.be/W_IpKpQsizo. Acesso em: 20 jan. 2021.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • MARIA Valéria Rezende. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1811/maria-valeria-rezende>. Acesso em: 14 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7