Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Cicero Dias

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.02.2021
05.03.1907 Brasil / Pernambuco / Escada
28.01.2003 França / Ile de France / Paris
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Figura, 1930
Cicero Dias
Aquarela, c.i.d.
27,00 cm x 36,50 cm

Cicero dos Santos Dias (Escada, Pernambuco, 1907 – Paris, França, 2003). Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor. Transita por diferentes vertentes da pintura ao longo de sua carreira e destaca-se por ser um artista em uma busca constante por diversas formas de se expressar. 

Texto

Abrir módulo

Cicero dos Santos Dias (Escada, Pernambuco, 1907 – Paris, França, 2003). Pintor, gravador, desenhista, ilustrador, cenógrafo e professor. Transita por diferentes vertentes da pintura ao longo de sua carreira e destaca-se por ser um artista em uma busca constante por diversas formas de se expressar. 

Inicia estudos de desenho ainda em sua terra natal. Em 1920, muda-se para o Rio de Janeiro, onde se matricula, em 1925, nos cursos de arquitetura e pintura da Escola Nacional de Belas Artes (Enba), mas não os conclui. Inicia a carreira artística nessa época, quando são introduzidas as tendências de vanguarda no Brasil. Liga-se aos intelectuais do movimento regionalista de 1926, que ocorre no Recife, em resposta à Semana de Arte Moderna de 22

No começo, Cicero Dias produz principalmente aquarelas, nas quais representa um universo de sonhos, inquietante. Os personagens, em escala diferente das paisagens, e também os objetos, apresentam muita leveza, frequentemente flutuam, como se observa nas telas O Sono (1928), O Sonho da Prostituta e Mulher Nadando, (ambas de 1930). São imagens que evocam o mundo do inconsciente, nas quais o erotismo é frequente. Estas são representadas com grande delicadeza no desenho e em uma gama cromática muito rica. Na opinião do crítico Antonio Bento, sua obra relaciona-se ao surrealismo e também a um imaginário fantástico nordestino, em que mitos e fábulas estão presentes nas manifestações artísticas e na literatura de cordel.

Expõe o polêmico painel Eu Vi o Mundo... Ele Começava no Recife, no Salão Revolucionário, na Enba, em 1931, do qual participam artistas de vanguarda. Com cerca de 15 metros de comprimento e produzida em papel kraft, a obra apresenta uma série de pequenas cenas, românticas e eróticas, que retomam o universo presente nas aquarelas, numa espécie de devaneio onírico, impregnado de forças misteriosas do inconsciente. O painel causa tanto furor que é censurado e tem uma parte cortada (restaurada mais tarde em Paris). Esse painel é considerado a obra-prima de Cicero Dias.

Em 1933, ilustra o livro Casa Grande & Senzala, do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), de quem é amigo. Em 1937, é preso no Recife quando da decretação do Estado Novo, por sua simpatia pelo Partido Comunista. Perseguido pelo regime e incentivado pelo pintor Di Cavalcanti (1897-1976), Cicero Dias viaja para Paris, onde passa a ter contato com pintores franceses como Georges Braque (1882-1963), Fernand Léger (1881-1955) e Henri Matisse (1869-1954), e torna-se amigo do pintor espanhol Pablo Picasso (1881-1973). Apesar da mudança, o tema e a técnica de seus quadros continuam ligados a Pernambuco: o artista mantém a luz e a cor de suas paisagens, como em Mulher na Janela (1939).

Em Portugal, a partir de 1943, inicia uma pesquisa comparativa entre a cultura portuguesa e a brasileira, estuda arte popular, arquitetura, escultura e pintura. Nessa época, pinta quadros que têm por motivos elementos vegetais, como Galo ou Abacaxi e Mamoeiro ou Dançarino (ambos de 1940), em que tem como ponto de partida o gênero da natureza-morta, trabalhando com o ilusionismo de forma irônica. Outras de suas obras revelam o impacto causado pelo quadro Guernica (1937), de Picasso: Mulher Sentada com Espelho (1940) e Duas Figuras (1944). Também produz obras que apresentam um diálogo entre o figurativo e a abstração. Apesar do geometrismo, aparecem a vegetação, o canavial e o mar, como em Mormaço (1941) e Praia (1944). 

Retorna à França em 1945 e integra o grupo abstrato Espace, da Escola de Paris, até 1950. Pinta, em 1948, os primeiros murais abstratos da América Latina, para o então  Conselho Econômico do Estado de Pernambuco (depois chamado de Secretaria da Fazenda), no Recife. Neles, aproveita, como sempre, elementos da paisagem do Nordeste: canavial, jangadas, o vermelho dos telhados, mas submetendo-os a um processo do qual resultam formas simples e ricas de sugestões poéticas.

Após 1950, predominam os quadros abstratos, em que se destacam as formas fechadas, retangulares ou tendendo à circularidade, e a preocupação com a luz e as cores claras, em uma gama cromática evocativa da natureza nordestina, como em Composição II (1951). Para o crítico Mário Carelli (1951-1994), na abstração, o artista baseia-se em estruturas vegetais, em que as formas geométricas refletem uma cristalização perfeita, como em Meridianos ou Relações Incertas (ambos de 1953). Paralelamente aos quadros abstratos, realiza outros, de caráter lírico. Estes apresentam, em sua maioria, figuras na paisagem, com rostos sutilmente iluminados, com cores suaves e uso especial do branco, como em Casal e Cena de Olinda (ambos de 1950).

Volta com maior intensidade à pintura figurativa na década de 1960. Permanecem em seus quadros o clima de sonho e os elementos recorrentes: mulheres, casarios, folhagens, e é constante a presença do mar. Usa frequentemente tons de rosa e azul. Em relação à fase figurativa do início da carreira, observa-se que a gestualidade dos personagens é contida e há mais sensualidade do que erotismo, como em Barqueiro e Moça no Barco (ambos de 1980). Recebe do governo francês a Ordem Nacional do Mérito da França, em 1998, aos 91 anos.

Cícero Dias explora diferentes vertentes em sua produção, influenciando e se deixando influenciar pelas vivências que tem ao longo de sua carreira. Nesse caminho, o artista corre o mundo sem deixar para trás suas origens, construindo uma obra diversificada e autoral. 

Obras 76

Abrir módulo
Reprodução fotográfica Vicente de Mello

A Espera

Aquarela sobre papel
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Abstração

Óleo sobre tela
Reprodução fotográfica Vicente de Mello

Amo

Aquarela e nanquim sobre papel
Reprodução fotográfica Vicente de Mello

Auto-Retrato

Óleo sobre tela

Exposições 349

Abrir módulo

Feiras de arte 2

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 22

Abrir módulo
  • AMARAL, Aracy (org.). Arte construtiva no Brasil - Constructive art in Brazil. Tradução Izabel Murat Burbridge. São Paulo: Companhia Gráfica Melhoramentos: DBA Artes Gráficas, 1998. (Coleção Adolpho Leirner).
  • ARAÚJO, Olívio Tavares de. Pintura brasileira do século XX: trajetórias relevantes. Rio de Janeiro: Editora 4 Estações, 1998.
  • ARTE no Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1979.
  • BASTOS, Janira Fainer. Cícero Dias: eu vi o mundo... ele começava no Recife. São Paulo, ECA/USP, [1985] Dissertação (mestrado).
  • BATISTA, Marta Rossetti e LIMA, Yone Soares de. Coleção Mário de Andrade: artes plásticas. 2. ed. São Paulo: USP/IEB, 1998.
  • BIENAL BRASIL SÉCULO XX, 1994, São Paulo, SP. Bienal Brasil Século XX: catálogo. Curadoria Nelson Aguilar, José Roberto Teixeira Leite, Annateresa Fabris, Tadeu Chiarelli, Maria Alice Milliet, Walter Zanini, Cacilda Teixeira da Costa, Agnaldo Farias. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 1994.
  • Cicero Dias - biografia e obras.
  • CÍCERO Dias. São Paulo: Portal Galeria de Arte, 1972. D541 1972
  • CÍCERO Dias: síntese da obra: 60 anos de pintura. Apresentação de Geraldo Edson de Andrade. Texto de Pierre Descargues. Rio de Janeiro: Rio Design Center, 1988.
  • DIAS, Cicero. Cícero Dias. Recife: Artespaço, 1988. D541 1988
  • DIAS, Cicero. Síntese da obra: 60 anos de pintura. Curadoria Geraldo Edson de Andrade. Rio de Janeiro: Rio Design Center, 1988. D541 1988
  • DIAS, Cícero. Cícero Dias. São Paulo: Portal Galeria de Arte, 1972.
  • DIAS, Cícero. Exposição Cícero Dias. Rio de Janeiro: MAM, 1952.
  • EXPOSIÇAO Cícero Dias. Rio de Janeiro: MAM, 1952. D541 1952
  • EXPOSIÇÃO “Cícero Dias – Um percurso poético” chega ao CCBB-RJ. Fundação Yedda & Augusto Frederico Schmidt, 8 set. 2017. Disponível em: https://fundacaoschmidt.org.br/exposicao-cicero-dias-um-percurso-poetico-chega-ao-ccbb-rj/. Acesso em: 12 fev. 2021.
  • FONTES, Luis Olavo. Cicero Dias: anos 20/les années 20. Rio de Janeiro: Editora Index, 1993.
  • GREGÓRIO Gruber: voyeur e o banco. Apresentação de Miguel de Almeida e Otávio Ceccato. São Paulo: Espaço d´Artefacto, 1988. G885o 1988
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989. R703.0981 P818d
  • LEITE, José Roberto Teixeira. 500 anos da pintura brasileira. [S.l.]: Log On Informática, 1999. 1 CD-ROM.
  • LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário crítico da pintura no Brasil. Rio de Janeiro: Artlivre, 1988.
  • PONTUAL, Roberto. Entre dois séculos: arte brasileira do século XX na coleção Gilberto Chateaubriand. Rio de Janeiro: Edições Jornal do Brasil, 1987.
  • ZANINI, Walter (org.). História geral da arte no Brasil. São Paulo: Fundação Djalma Guimarães: Instituto Walther Moreira Salles, 1983. v. 1.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: