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Ivan Cardoso

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.11.2020
01.10.1952 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Ivan do Espírito Santo Cardoso Filho (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1952). Cineasta e fotógrafo. Criador do terrir, gênero que mistura elementos cômicos da chanchada, com os filmes B norte-americanos, em especial os de terror. Cresce na Copacabana dos anos 1950, época do surgimento da bossa nova, dos primeiros aparelhos de TV e da construção d...

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Ivan do Espírito Santo Cardoso Filho (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1952). Cineasta e fotógrafo. Criador do terrir, gênero que mistura elementos cômicos da chanchada, com os filmes B norte-americanos, em especial os de terror. Cresce na Copacabana dos anos 1950, época do surgimento da bossa nova, dos primeiros aparelhos de TV e da construção de Brasília. Tem contato com o concretismo (poesia) e neoconcretismo (artes plásticas), quando edita  um jornal no colégio em que estuda. Nesta época, assiste a O Bandido da Luz Vermelha (1968) e decide fazer cinema.

Em 1970, é assistente de direção de Rogério Sganzerla (1946-2004) em Sem Essa Aranha, faz seus primeiros filmes em Super 8 e colabora com o poeta Torquato Neto (1944-1972) na coluna Geleia Geral do jornal Última Hora. Em 1972, realiza o média-metragem Nosferatu do Brasil, protagonizado pelo poeta. Como fotógrafo, é responsável pelas imagens das capas de discos Fa-Tal (1971) de Gal Costa (1945) e Araça Azul (1973) de Caetano Veloso (1942); e de livros de Waly Salomão (1943-2003), Torquato Neto, Haroldo de Campos (1929-2003) e Augusto de Campos (1931).

Em 1973, dirige seu primeiro curta em 35mm, Moreira da Silva. Nesta primeira metade da década de 1970, realiza ainda making offs (participa, também, como diretor de produção e still) para longas-metragens de Julio Bressane (1946), Neville d’Almeida (1941) e Rogério Sganzerla (1946-2004). A partir de 1977, torna-se fotógrafo da WEA Discos e é responsável por diversas capas de discos e cartazes de shows. Neste final de década realiza ainda os seguintes curtas em 16mm: Doutor Dyonélio (1976), sobre o escritor rio-grandense Dyonélio Machado (1895-1985); O Universo de José Mojica Marins (1978), sobre o criador do personagem Zé do Caixão; História do Olho (1978) e HO (1979), sobre o artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980).  Em 1982, lança seu primeiro longa-metragem em 35mm, O Segredo da Múmia, sucesso de público e crítica, que recebe mais de 20 prêmios. Nos anos seguintes continua a fazer longas-metragens do gênero terrir, como As Sete Vampiras (1986), e curtas, como À Meia Noite com Glauber Rocha (1997) e Hi-Fi (1999), além de atuar como fotógrafo e jornalista. Na década de 2000, realiza os longas: Um Lobisomem na Amazônia (2005) e a Marca do Terrir (2005). Em 2013, lança sua exposição Monstrutivismo com vídeos, fotos, objetos e colagens, como síntese de sua trajetória.

No livro do pesquisador Remier, Ivan Cardoso: O Mestre do Terrir, o cineasta conta sobre um aprendizado que herda do amigo Hélio Oiticica, de “se misturar e viver na própria obra”1. Assim, seu estilo é resultado da formação em Copacabana, quando tem contato com as séries de TV americanas, dos filmes de western e de terror, de quadrinhos, musicais de Elvis Presley e telenovelas transmitidas pela Rádio Nacional. No colégio, descobre as vanguardas dos anos 1960, a antropofagia e o tropicalismo, a poesia concreta, os poemas de Torquato Neto, o neoconcretismo de Hélio Oiticica, a pop arte de Carlos Vergara (1941) e o cinema marginal de Rogério Sganzerla e Julio Bressane. Insere-se, portanto, na tradição do chamado cinema marginal brasileiro.

Seus primeiros filmes em Super 8 são experimentais, do gênero terror, com referências das vanguardas culturais e paródias de clássicos de terror americanos. É influenciado pelos filmes de José Mojica Marins (1936), o Zé do Caixão, como nas cenas em que são utilizadas fezes e urina, e mortes em que explode animais. Em a Sentença de Deus (1972), por exemplo, vemos o ritual da morte de uma galinha e o sangue escorrer pelo pescoço de uma das personagens, ao som do canto Aluê, música tradicional do candomblé, que abre Terra em Transe (1967), filme de Glauber Rocha (1939-1981). Nesse contexto, o cineasta cria o conceito de terrir, “filmes de terror” com efeito cômico.

Incorpora, como Rogério Sganzerla, referências das chanchadas, como a escolha de Wilson Grey (1923-1993) para ator de seus filmes, figura comum nas chanchadas da década de 1950. Aprende com os tropicalistas a romper com a hierarquia entre cultura de massa,  pop e  erudita. Também incorpora a atmosfera contracultural, via liberação sexual e experiências com drogas.  Segundo o cineasta2 o vanguardismo de seus filmes em Super 8 caracteriza-se por ser registro de performances improvisadas, muitas delas com personalidades do campo da cultura como Décio Pignatari (1927-2012) e Torquato Neto, sempre com filmes de baixos custos.

Em Nosferatu no Brasil (1971), a primeira parte da história passa-se na Budapeste no século XIX, em que as cenas de filmes de vampiro são clichês. Como a que vemos logo na primeira sequência, com o vampiro (Torquato Neto, claramente de improviso), tentando morder o pescoço de uma moça. Ela se livra e corre, iniciando uma perseguição. A sequência termina com um close do pescoço mordido da moça. No mesmo filme, para explicar o fato de o vampiro agir à luz do dia, vemos uma versão de um poema concreto de Affonso Ávilla (1928-2012). No original, leia-se “onde se vê isso, veja-se aquilo”, e no filme, “onde se vê dia, veja-se noite”. A busca por este efeito resulta no filme Segredo da Múmia, produzido pela Embrafilme, reconhecido pelo público e crítica. O filme se passa na década de 1950, época da juventude de Ivan Cardoso, recorrente nos filmes do cineasta. Uma comédia de terror que, segundo o diretor, “fala a linguagem universal do filme de gênero” temperada com o “swing brasileiro”3. Jairo Ferreira (1945-2003) reconhece no filme “uma estrutura narrativa facilmente assimilável por qualquer espectador (...),  reciclando clichês do cinema de espetáculo, num filme de baixo custo”4

Notas:

1. REMIER. Ivan Cardoso: o mestre do terrir / São Paulo Imprensa oficial, 2008. p.35.

2. Idem, p.38.

3. VILLAÇA, Pablo. Ivan Cardoso: o mestre do terrir. São Paulo:  Imprensa oficial, 2008. p. 269.

4. FERREIRA, Jairo. Cinema de Invenção. São Paulo: Max Limonad: Embrafilme, 1986. 

Obras 1

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Exposições 25

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Mostras audiovisuais 7

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Fontes de pesquisa 4

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  • CARDOSO, Ivan. De Godard a Zé do caixão. São Paulo : MASP, 1993. Não catalogada
  • FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo: Max Limonad, 1986.
  • LUCCHETTI, Rubens Francisco, CARDOSO, Ivan. Ivampirismo : o cinema em pânico. S.l. : EBAL, 1990. 383 p. foto p.b. Não catalogada
  • VILLAÇA, Pablo. Ivan Cardoso: o mestre do terrir. São Paulo: Imprensa oficial, 2008.

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