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Artes visuais

Rafael França

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 15.07.2021
09.08.1957 Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre
08.05.1991 Estados Unidos / Illinois / Chicago
Rafael Luiz Zacher França (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1957 – Chicago, Estados Unidos, 1991). Artista visual. Experimenta a fundo as possibilidades de cada meio com o qual trabalha, passando por gravura, xerografia, intervenção urbana e videoarte. Destaca-se pelo desenvolvimento dos elementos da narrativa próprios à videoarte e pelo emprego...

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Rafael Luiz Zacher França (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1957 – Chicago, Estados Unidos, 1991). Artista visual. Experimenta a fundo as possibilidades de cada meio com o qual trabalha, passando por gravura, xerografia, intervenção urbana e videoarte. Destaca-se pelo desenvolvimento dos elementos da narrativa próprios à videoarte e pelo emprego da temática homossexual.

Por volta dos 9 anos, comunica aos pais que deseja estudar pintura. De 1973 a 1977, faz cursos de desenho, pintura e litografia no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Em 1978, muda-se para São Paulo para estudar artes plásticas na Universidade de São Paulo (USP). Aproxima-se da artista Regina Silveira (1939), sendo seu aluno na USP e seu monitor no Centro de Estudos Aster, onde desenvolve pesquisas sobre gravura, offset e impressões gráficas a partir da fotografia. Trabalha sobre as pequenas variações de imagens em série, constituindo sequências em livros de artista.

Em 1979, com os artistas Hudinilson Jr. (1957-2013) e Mario Ramiro (1957) – também estudantes de artes plásticas, com quem discute sobre earth art1 e arte conceitual –, forma o grupo 3NÓS3 (1979-1982), que realiza intervenções no ambiente urbano, principalmente de São Paulo, com ações efêmeras e veiculação midiática, o que garante o prolongamento da obra através dos meios de comunicação e do registro dos trabalhos.

Interessado na figura do artista como pensador e não atrelado a um meio tradicional de expressão, França inicia pesquisas sobre a reprodução eletrônica de imagens, expandindo a importância do elemento temporal em seu fazer estético.

Exibe a instalação Television Sets (1980), na Cooperativa de Artistas Plásticos de São Paulo, em que dispõe seis televisores em linha reta separados por sete painéis. O público tem o primeiro contato com um aparelho transmitindo a imagem de um quadrado preto em frente a um painel no qual se encontra uma figura idêntica pintada. Com o deslocamento, mais cinco TVs são encontradas na mesma configuração descrita, até que, após o sétimo painel, vê-se uma câmera registrando a imagem de um quadrado preto nas mesmas dimensões que os anteriores. Por meio da reprodução inesperada de uma mesma figura por múltiplas vezes, essa obra traz a questão geométrica, já trabalhada nas gravuras, para a dimensão temporal, além de formar um circuito no qual a instalação é o seu próprio tema, sem imagens externas a ela.

Em 1982, ganha a bolsa Fulbright para cursar mestrado na School for the Art Institute of Chicago (SAIC) [Escola do Instituto de Arte de Chicago], onde tem acesso a laboratórios em que é possível experimentar com o meio eletrônico. Nesse período, há uma cena intensa voltada para a videoarte nos Estados Unidos. O artista aprofunda seus estudos da imagem espacializada por meio das instalações, mas dirige sua produção principalmente para obras em single channel2, nas quais investiga formas de narrativa próprias ao vídeo.

Ingressa no corpo docente da SAIC, da Columbia College e do Center for New Television em 1985. Continua trabalhando também no Brasil em curadorias, textos críticos, ministrando cursos e palestras e exibindo obras. No mesmo ano, apresenta uma videoinstalação na 18 ͣ Bienal de São Paulo.

Em After a Deep Sleep (Getting Out) (1985) – parte da Coleção Itaú Cultural –, o artista explora as características de uma narrativa ficcional de suspense em vídeo. A premissa é curta: uma mulher acorda e não consegue sair de casa. No entanto, ao longo dos 5 minutos, os elementos de manipulação da edição são bastante sofisticados. Há dissociação entre áudio e vídeo, inserção de paradas na imagem em movimento, alternância entre monocromatismo e cor, uso do som para causar forte tensão e posicionamento da palavra como elemento visual e narrativo. A descontinuidade é trabalhada a partir de um rigor formal sistematicamente estruturado.

França termina seu segundo mestrado na SAIC em 1986, com dissertação sobre a história da videoarte. Em 1987, realiza a curadoria da exposição especial de videoarte para a 19 ͣ Bienal de São Paulo, definindo o momento histórico como uma divisão entre artistas que desejam seguir no ideal modernista das belas-artes, apresentando suas obras apenas aos visitantes das galerias, e artistas que buscam atingir um público maior, veiculando seu trabalho na televisão comercial e tentando transformá-la.

Prelude to an Announced Death (1991), última obra de França, é um vídeo de 5 minutos que se inicia com planos de detalhe das mãos, dos rostos e dos troncos de França e de seu companheiro enquanto trocam carícias. A imagem monocromática gira lentamente em silêncio. O vídeo se estabiliza e se torna colorido, acompanhado da parte final da ópera La Traviata (1853) cantada por Bidu Sayão (1902-1999). Entre os planos, encadeados por fusão, surgem os nomes de amigos que partiram por complicações da Aids. Ao fim da música, a mensagem “above all they had no fear of vertigo”3 aparece, seguida da imagem em primeiro plano de França, que diz algo ao olhar para a câmera. Não se ouve o que é dito, apenas uma música de rock, e sua imagem desaparece em rápida espiral no fundo negro.

Há uma forte relação entre arte e vida no conjunto da obra de Rafael França. Guiado por processos de experimentação intensa e sem se ater a categorias tradicionais, inova a arte ao transpor as investigações formais para novos meios, em especial o vídeo, buscando expandi-la para além dos espaços institucionais.

Notas

1. Também chamada de land art, trata-se de um movimento artístico no qual as obras são realizadas na natureza, longe das galerias, dos museus e do mercado de arte. Os trabalhos podem ser visitados quando permanentes ou são registrados quando efêmeros.

2. Traduzido literalmente como canal único, ocorre quando uma obra em vídeo é desenvolvida para ser exibida em uma só tela.

3.“Acima de tudo eles não tinham medo da vertigem”, em alusão à homossexualidade, mas também a sua obra Without Fear of Vertigo (1987), vídeo no qual França parte da notícia de um rapaz que foi condenado como cúmplice por ajudar seu amante a se suicidar ao lidar com uma doença terminal. Nesse trabalho, também aparecem amigos do artista comentando o caso.

Exposições 50

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Mostras audiovisuais 3

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Fontes de pesquisa 9

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  • ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIl. Rafael França. Disponível em: http://site.videobrasil.org.br/pt/acervo/artistas/artista/25944. Acesso em: 27 jun. 2021.
  • COSTA, Helouise (org.). Sem medo da vertigem: Rafael França. São Paulo: Marca d’Água, 1997.
  • FRANÇA, Rafael. Depoimento enviado pelo artista ao Instituto de Pesquisas da Faap, set. 1985. In: ALVARADO, Daisy Valle Machado Peccinini de. Arte novos meios: multimeios: Brasil ’70: 80’. São Paulo: Fundação Armando Alvares Penteado, 2010. p. 227-228.
  • GALERIA JAQUELINE MARTINS. Rafael França. Disponível em: https://galeriajaquelinemartins.com.br/artista/rafael-franca. Acesso em: 27 jun. 2021.
  • MUSEU DE ARTE CONTEMPOR NEA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Rafael França: Entre mídias. Disponível em: http://www.mac.usp.br/mac/expos/2014/rafaelfranca/home.htm. Acesso em: 27 jun. 2021. Exposição realizada no período de 15 mar. 2014 a 29 jan. 2017.
  • NICHELLE, Aracéli Cecilia. O que está dentro fica/ O que está fora se expande: 3NÓS3 – Coletivo de arte no Brasil. 2010. 154 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.
  • PONTES, Maria Adelaide do Nascimento. A documentação nas práticas artísticas dos grupos Arte/Ação e 3nós3. 2012. 172 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, São Paulo, 2012.
  • RAFAEL França, Obra como testamento. Direção: Alex Gabassi; Marco Del Fiol. São Paulo: Associação Cultural Videobrasil, 2001. (25 min 23 seg), son., color.
  • RAMIRO, Mario (Org.). 3NÓS3: intervenções urbanas – 1979-1982. São Paulo: Ubu, 2017.

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