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Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Rafael França

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.02.2022
09.08.1957 Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre
08.05.1991 Estados Unidos / Illinois / Chicago
Rafael Luiz Zacher França (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1957 – Chicago, Estados Unidos, 1991). Artista visual. Experimenta em profundidade as possibilidades de cada meio com o qual trabalha, passando por gravura, xerografia, intervenção urbana e videoarte. Destaca-se por desenvolver os elementos da narrativa característicos da videoarte e po...

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Rafael Luiz Zacher França (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1957 – Chicago, Estados Unidos, 1991). Artista visual. Experimenta em profundidade as possibilidades de cada meio com o qual trabalha, passando por gravura, xerografia, intervenção urbana e videoarte. Destaca-se por desenvolver os elementos da narrativa característicos da videoarte e por tratar da temática homossexual.

Por volta dos 9 anos, comunica aos pais que deseja estudar pintura. De 1973 a 1977, frequenta os cursos de desenho, pintura e litografia do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Em 1978, muda-se para São Paulo para estudar artes plásticas na Universidade de São Paulo (USP). Torna-se aluno da artista Regina Silveira (1939) e seu monitor no Centro de Estudos Aster, onde desenvolve pesquisas sobre gravura, offset e impressões gráficas a partir da fotografia. Trabalha sobre as pequenas variações de imagens em série, construindo sequências em livros de artista.

Em 1979, forma o grupo 3NÓS3 (1979-1982) ao lado dos também estudantes de artes plásticas Hudinilson Jr. (1957-2013) e Mario Ramiro (1957). Com eles discute sobre earth art 1 e arte conceitual e realiza intervenções no ambiente urbano, principalmente em São Paulo. Essas ações efêmeras e a veiculação midiática garantem o prolongamento da obra do artista pela divulgação nos meios de comunicação e pelo registro dos trabalhos.

Interessado na figura do artista como pensador e não atrelado a um meio tradicional de expressão, França inicia pesquisas sobre a reprodução eletrônica de imagens, expandindo a importância do elemento temporal em seu fazer estético.

Exibe a instalação Television Sets (1980), na Cooperativa de Artistas Plásticos de São Paulo, em que dispõe seis televisores em linha reta separados por sete painéis. O primeiro contato do público com essa obra se dá com um aparelho transmitindo a imagem de um quadrado preto em frente de um painel no qual se reproduz essa figura pintada. Com o deslocamento, mais cinco TVs são encontradas com essa mesma configuração, até que, após o sétimo painel, vê-se uma câmera registrando a imagem de um quadrado preto nas mesmas dimensões que os anteriores. Pela múltipla reprodução inesperada da mesma figura, a obra traz a questão geométrica, já trabalhada nas gravuras, para a dimensão temporal, além de formar um circuito no qual a instalação é seu próprio tema, sem imagens externas a ela.

Em 1982, ganha a bolsa Fulbright para cursar mestrado na School for the Art Institute of Chicago (SAIC), onde tem acesso a laboratórios de meios eletrônicos. Nesse período, nos Estados Unidos, a cena artística se volta intensamente para a videoarte. França aprofunda seus estudos da imagem espacializada por meio de instalações, mas dirige sua produção sobretudo para obras em single channel2, nas quais investiga formas de narrativa próprias do vídeo.

Em 1985, ingressa no corpo docente da SAIC, da Columbia College e do Center for New Television. Continua trabalhando também no Brasil, atuando em curadorias, redigindo textos críticos, ministrando cursos e palestras e exibindo suas obras. No mesmo ano, apresenta uma videoinstalação na 18 ͣ Bienal de São Paulo.

Em After a deep sleep (Getting out) (1985) – que faz parte do acervo da Coleção Itaú Cultural –, o artista explora as características de uma narrativa ficcional de suspense em um vídeo de cinco minutos. A premissa é simples – uma mulher acorda e não consegue sair de casa –, mas os elementos de manipulação da edição são bastante sofisticados. Há dissociação entre áudio e vídeo, inserção de paradas na imagem em movimento, alternância entre monocromatismo e cor, uso do som para causar forte tensão e posicionamento da palavra como elemento visual e narrativo. A descontinuidade é trabalhada a partir de um rigor formal sistematicamente estruturado.

Em 1986, França termina seu segundo mestrado na SAIC com dissertação sobre a história da videoarte. Em 1987, realiza a curadoria da exposição especial de videoarte para a 19 ͣ Bienal de São Paulo, definindo o momento histórico como uma divisão entre artistas que desejam seguir no ideal modernista das belas-artes, apresentando obras apenas para visitantes de galerias, e artistas que buscam atingir um público maior, veiculando seu trabalho na televisão comercial para transformá-la.

Prelude to an Announced Death (1991), última obra de França, é outro vídeo de cinco minutos que se inicia com closes das mãos, dos rostos e dos troncos de França e de seu companheiro trocando carícias. A imagem monocromática gira lentamente em silêncio. O vídeo se estabiliza e se torna colorido, acompanhado pela parte final da ópera La Traviata (1853) cantada por Bidu Sayão (1902-1999). Entre os planos, encadeados por fusão, surgem os nomes de amigos que faleceram por complicações de saúde decorrentes da aids. Ao fim da música, a mensagem “Above all they had no fear of vertigo”3 é seguida da imagem em primeiro plano de França, que diz algo ao olhar para a câmera. Não se ouve o que é dito, apenas uma música de rock. Ao final, sua imagem desaparece em rápida espiral no fundo negro.

Há uma forte relação entre arte e vida no conjunto da obra de Rafael França. Guiado por processos de experimentação intensa e sem se ater a categorias tradicionais, o artista busca expandir a arte para além dos espaços institucionais ao transpor as investigações formais para novos meios, especialmente para o vídeo.

Notas

1. Também chamada de land art, trata-se de um movimento artístico no qual as obras são realizadas na natureza, longe das galerias, dos museus e do mercado de arte. Os trabalhos podem ser visitados quando são permanentes ou registrados quando são efêmeros.
2. Traduzido literalmente como canal único, caracteriza-se pelo desenvolvimento de obra em vídeo para ser exibida em uma só tela.
3. “Acima de tudo eles não tinham medo da vertigem”, em alusão não apenas à homossexualidade, mas também à obra Without Fear of Vertigo (1987), vídeo no qual França parte da notícia do rapaz condenado como cúmplice por ajudar na eutanásia de seu amante com doença terminal. Nesse trabalho, também aparecem amigos do artista comentando o caso

Exposições 55

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Mostras audiovisuais 3

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Fontes de pesquisa 9

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  • ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIl. Rafael França. Disponível em: http://site.videobrasil.org.br/pt/acervo/artistas/artista/25944. Acesso em: 27 jun. 2021.
  • COSTA, Helouise (org.). Sem medo da vertigem: Rafael França. São Paulo: Marca d’Água, 1997.
  • FRANÇA, Rafael. Depoimento enviado pelo artista ao Instituto de Pesquisas da Faap, set. 1985. In: ALVARADO, Daisy Valle Machado Peccinini de. Arte novos meios: multimeios: Brasil ’70: 80’. São Paulo: Fundação Armando Alvares Penteado, 2010. p. 227-228.
  • GALERIA JAQUELINE MARTINS. Rafael França. Disponível em: https://galeriajaquelinemartins.com.br/artista/rafael-franca. Acesso em: 27 jun. 2021.
  • MUSEU DE ARTE CONTEMPOR NEA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Rafael França: Entre mídias. Disponível em: http://www.mac.usp.br/mac/expos/2014/rafaelfranca/home.htm. Acesso em: 27 jun. 2021. Exposição realizada no período de 15 mar. 2014 a 29 jan. 2017.
  • NICHELLE, Aracéli Cecilia. O que está dentro fica/ O que está fora se expande: 3NÓS3 – Coletivo de arte no Brasil. 2010. 154 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.
  • PONTES, Maria Adelaide do Nascimento. A documentação nas práticas artísticas dos grupos Arte/Ação e 3nós3. 2012. 172 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho, São Paulo, 2012.
  • RAFAEL França, Obra como testamento. Direção: Alex Gabassi; Marco Del Fiol. São Paulo: Associação Cultural Videobrasil, 2001. (25 min 23 seg), son., color.
  • RAMIRO, Mario (Org.). 3NÓS3: intervenções urbanas – 1979-1982. São Paulo: Ubu, 2017.

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