Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Lina Bo Bardi

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 26.11.2021
05.12.1914 Itália / Lazio / Roma
20.03.1992 Brasil / São Paulo / São Paulo

Lina Bo Bardi no Sesc Pompéia, São Paulo SP, 1982
Lina Bo Bardi, Olney Krüse

Achillina Bo Bardi (Roma, Itália 1914 - São Paulo SP 1992). Arquiteta, designer, cenógrafa, editora, ilustradora. Após estudar desenho no Liceu Artístico, forma-se, em 1940, na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma. A faculdade, dirigida pelo arquiteto tradicionalista Marcello Piacentini (1881-1960), privilegia uma tendência histórico...

Texto

Abrir módulo

Achillina Bo Bardi (Roma, Itália 1914 - São Paulo SP 1992). Arquiteta, designer, cenógrafa, editora, ilustradora. Após estudar desenho no Liceu Artístico, forma-se, em 1940, na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma. A faculdade, dirigida pelo arquiteto tradicionalista Marcello Piacentini (1881-1960), privilegia uma tendência histórico-classicizante, que Lina chama de "nostalgia estilístico-áulica". Em desacordo com essa orientação valorizada pelo fascismo, predominante em Roma, ela se transfere para Milão, onde trabalha com o arquiteto Gió Ponti (1891-1979), líder do movimento pela valorização do artesanato italiano e diretor das Trienais de Milão e da revista Domus. Em pouco tempo ela própria passa a dirigir a revista e a atuar politicamente integrando a resistência à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e colaborando com o Partido Comunista Italiano (PCI), então clandestino.1 Ainda em Milão, funda, ao lado do crítico Bruno Zevi (1918-2000), a revista A-Cultura della Vita.

Em 1946, após o fim da guerra, casa-se com o crítico e historiador da arte Pietro Maria Bardi (1900-1999), com quem viaja para o Brasil - país no qual o casal decide se fixar, e que Lina chama de "minha pátria de escolha".2 No ano seguinte, Pietro Maria Bardi é convidado pelo jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968) a fundar e dirigir o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp), em São Paulo. Lina projeta as instalações do museu, em que se destaca a cadeira dobrável de madeira e couro para o auditório, considerada "a primeira cadeira moderna do Brasil". Em 1948, funda com o arquiteto italiano Giancarlo Palanti (1906-1977) o Studio d'Arte Palma, voltado à produção manufatureira de móveis de madeira compensada e materiais "brasileiros populares", como a chita e o couro. Sua inserção mais efetiva no meio arquitetônico nacional se dá, inicialmente, pela atuação editorial, quando cria, em 1950, a revista Habitat, que dura até 1954. Projeta em 1951 sua própria residência, no bairro do Morumbi, em São Paulo, apelidada de "casa de vidro", e considerada uma obra paradigmática do racionalismo artístico no país. Esse papel de destaque se completa em 1957, quando inicia o projeto para a nova sede do Masp, na avenida Paulista (completado apenas em 1968), que mantém a praça-belvedere aberta no piso térreo, suspendendo o edifício com um arrojado vão de 70 metros.

Em 1958, transfere-se para Salvador, convidada pelo governador Juracy Magalhães a dirigir o Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM/BA). Na capital baiana, realiza também o projeto de restauro do Solar do Unhão, um conjunto arquitetônico do século XVI tombado na década de 1940 pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), e se relaciona criativamente com uma série de importantes artistas vanguardistas, como o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger (1902-1996) e o cineasta Glauber Rocha (1938-1981). De volta a São Paulo após o golpe militar, em 1964, incorpora em seus projetos o legado da temporada nordestina na forma de uma radical "experiência de simplificação" da linguagem. Sua obra a partir daí assume contundentemente o caráter do que qualifica como "arquitetura pobre". São exemplares importantes dessa última fase de sua carreira os suportes museográficos da exposição A Mão do Povo Brasileiro, 1969, feitos de tábuas de pinho de segunda; o edifício do Sesc Pompéia, 1977, adaptação de uma antiga fábrica de tambores; e o Teatro Oficina, 1984, construção que dissolve a rigidez da relação palco-platéia pela criação de um teatro-pista, como um sambódromo.

Análise

Abrangente e interdisciplinar, a atuação de Lina Bo Bardi extrapola os campos da arquitetura e do urbanismo. Estrangeira, compreende a cultura brasileira pelo olhar antropológico, particularmente atento para a convergência entre vanguarda estética e tradição popular. Deixando para trás o "velho mundo", que abandona junto com os sonhos do período pré-guerra, tem a seguinte impressão do Brasil ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 1946: "Deslumbre. Para quem chegava pelo mar, o Ministério da Educação e Saúde avançava como um grande navio branco e azul contra o céu. Primeira mensagem de paz após o dilúvio da Segunda Guerra Mundial. Me senti num país inimaginável, onde tudo era possível".3

A formação intelectual de Lina combina o racionalismo estético de Le Corbusier (1887-1965) com o pensamento marxista de Antonio Gramsci (1891-1937), voltado para a reflexão sobre a dimensão "nacional-popular" da cultura. Esses elementos, presentes também de certa forma no neo-realismo cinematográfico, dão à arquiteta os instrumentos para considerar a cultura popular, abundante no Brasil, como matéria-prima de uma contribuição fecunda à modernidade, porque "seca e indigesta". Por outro lado, Lina não deixa de perceber o quanto o artesanato brasileiro é rudimentar e escasso, e portanto incapaz de promover uma passagem orgânica para o design industrial moderno.

"Esse é o impasse claramente percebido por ela entre os anos 1950 e 1960: sendo mais africano do que europeu, o Brasil é um país onde a seiva da cultura popular não se esterilizou, no contexto do pós-guerra. No entanto, o problema da verdadeira industrialização tinha fatalmente que ser enfrentado, e uma importante escolha histórica estava em via de se realizar: ou essa cultura industrial vindoura incorporaria criativamente o substrato popular, produzindo algo de singular e genuíno, ou realizaria uma abertura indiscriminada e rebaixada à vulgarização dos objetos de consumo, à pasteurização kitsch."4 Constatando, posteriormente, a derrota histórica desse modelo de "formação nacional" idealizado por ela, afirma o seguinte: "O Brasil tinha chegado num 'bívio'. Escolheu a finesse".5 

A temporada passada em Salvador, entre 1958 e 1964, é extremamente profícua tanto para Lina quanto para os jovens artistas baianos. Atraída pelo ambiente de renovação cultural da cidade, em que se combinam a "tensão dos estudantes" e o "caráter fortemente popular da cultura do Nordeste", ela integra um grupo de pensadores vanguardistas estrangeiros responsável por fermentar as revoluções artísticas que ocorrem ali: no cinema, com Glauber Rocha, e na música popular, com Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil (1942).6 Para Lina, trata-se de superar a "inércia conservadora do Sul", seu "esnobismo cultural", para encontrar soluções diretas, despidas, próximas à lógica popular. Exemplos felizes dessa "experiência de simplificação" formal e construtiva são a escada de madeira do Solar do Unhão, 1959, em Salvador, que combina uma forma geométrica rigorosa com o sistema de encaixes dos carros de boi, e a "cadeira de beira de estrada", 1967, cujo desenho sintético utiliza apenas três galhos e um tronco. Entram nessa conta seus suportes museográficos para o Masp, com placas de cristal apoiadas em blocos de concreto, e para as mostras Bahia no Ibirapuera, 1959, e Exposição Nordeste, 1963, cujas bases e vitrines são feitas de caixas de madeira barata, expondo objetos populares na forma de um acúmulo visual. O golpe militar de 1964 interrompe a frágil circunstância política que permite sua atuação na cidade.

De volta a São Paulo, e parecendo reconhecer o obscurecimento de uma via possível de integração entre a tradição popular pré-burguesa e o desenvolvimento industrial, Lina radicaliza o caráter experimental de sua obra, reforçando os laços com a "estética da fome" do cinema novo, e com o sincretismo pop do tropicalismo. Vem daí, também, a admiração devotada ao seu trabalho por parte de alguns arquitetos ligados à revisão crítica do movimento moderno na Europa, como o holandês Aldo Van Eyck (1918-1999), destacado integrante do Team X. A rudeza dos acabamentos do edifício do Masp, 1957/1968 (o concreto aparente da estrutura, os painéis-cavalete desglamourizados), expressa a radicalidade dessa nova orientação, que Lina chama de "arquitetura pobre". O que não quer dizer que ela tenha renunciado à exploração da tecnologia industrial em seus projetos. Feito com vigas de concreto protendido, e tendo uma laje inteiramente suspensa por cabos de aço, o edifício do Masp, calculado pelo engenheiro João Carlos de Figueiredo Ferraz, representa por muito tempo o "maior vão livre da América Latina".

No primeiro número da revista Habitat, 1950, fundada e dirigida por Lina, ela elogia a "moral severa" das obras de Vilanova Artigas (1915-1985), observando que cada casa projetada pelo arquiteto "quebra todos os espelhos do salão burguês". No seu projeto para o Sesc Pompéia, 1977, adaptando uma antiga fábrica de tambores, a mesma rudeza está presente no desenho do mobiliário, e no contraste entre a madeira desse mobiliário e o concreto bruto da estrutura dos galpões e das novas paredes cegas. E concreto bruto, por sua vez, é amplamente empregado nas duas torres interligadas por passarelas que definem o conjunto esportivo do Sesc, concebido como uma "cidadela" provocativamente "feia": "é um silo, bunker, container", diz ela.7

Na segunda metade dos anos 1980, Lina retorna a Salvador, convidada a conceber um plano de recuperação do centro histórico da cidade. Nessa ocasião, acompanhada de Marcelo Carvalho Ferraz (1955) e Marcelo Suzuki, realiza o projeto da Casa do Benin, no Pelourinho, 1987, e a recuperação das encostas da ladeira da Misericórdia, erguendo contrafortes nitidamente destacados dos muros remanescentes do século XVIII, e utilizando, para as construções novas, painéis leves e pré-moldados de argamassa armada desenvolvidos pelo arquiteto João Filgueiras Lima (1932-2014), o Lelé, em usina local.

A personalidade inquieta e contestadora de Lina não se separa de sua obra. Como define o crítico italiano Bruno Zevi (1918-2000): "Lina foi uma herética em vestes aristocráticas, uma esfarrapada elegante, uma subversiva circulando em ambientes luxuosos".8

Notas

1. "Aqueles que deveriam ter sido anos de sol, de azul e alegria, eu passei de baixo da terra correndo e descendo sob bombas e metralhas". BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 11.

2. "Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha 'Pátria de Escolha', e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri, ao Triângulo Mineiro, às cidades do Interior e as da Fronteira." BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 12.

3. BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 12.

4. WISNIK, Guilherme. Lina Bo Bardi - A interpretação cultural do Brasil 'pós-Brasília'. Disponível em: www.vitruvius.com.br/drops/drops14_03.asp. Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, 11 jan. 2006.

5. BARDI, Lina Bo. Um balanço dezesseis anos depois [1980]. In: SUZUKI, Marcelo (Org.). Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi : Fundação Vilanova Artigas, 1994. p. 13.

6. Ver: RISÉRIO, Antonio. Avant-garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995. Os outros estrangeiros listados por Risério são os músicos eruditos Hans Joachim Koellreutter (1915-2005), Ernst Widmer (1927-1990), Walter Smetak (1913-1984), e o professor de literatura Agostinho da Silva (1906-1994).

7. BARDI, Lina Bo. Sesc Fábrica da Pompéia. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 230.

8. ZEVI, Bruno. Lina Bo Bardi: un architetto in tragitto ansioso. Caramelo 4 (Lina: Caderno Especial). São Paulo: GFAU, 1992, s/n.

Obras 6

Abrir módulo

Espetáculos 9

Abrir módulo

Exposições 26

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 15

Abrir módulo
  • BARDI, Lina Bo. Lina Bo Bardi. Organização Marcelo Carvalho Ferraz; texto Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. 333 p., il. p.b. color.
  • CACILDA!!!. São José dos Campos: Teatro Oficina Uzyna Uzona, [2013]. 1 programa do espetáculo realizado no SESC São José dos Campos.
  • CACILDA!!!. São José dos Campos: Teatro Oficina Uzyna Uzona, [2013]. 1 programa do espetáculo realizado no SESC São José dos Campos.
  • GRACIAS, Señor. Rio de Janeiro: Teatro Oficina Uzyna Uzona, [1972]. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Tereza Raquel.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989. R703.0981 P818d
  • LINA Bo Bardi. Organizacao Marcelo Carvalho Ferraz; comentário Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. 720.92 B246f
  • NA SELVA das Cidades. São Paulo: Teatro Oficina Uzyna Uzona, [1969]. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Oficina.
  • OLIVEIRA, Olivia de. Lina Bo Bardi: sutis substâncias da arquitetura. São Paulo: Romano Guerra Editora; Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2006. 400 p. 720.92 B246o
  • RISÉRIO, Antonio. Avant-garde na Bahia. Apresentacao Marcelo Carvalho Ferraz; apresentação Caetano Veloso. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995. 981.42 R595a
  • RISÉRIO, Antonio. Avant-garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995. 259p., fotos p.b. (Pontos sobre o Brasil).
  • SUZUKI, Marcelo (org.). Tempos de grossura: o design no impasse. Texto Jorge Amado. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi : Fundação Vilanova Artigas, 1994. 78 p., il. p&b color. (Pontos sobre o Brasil).
  • SUZUKI, Marcelo (org.). Tempos de grossura: o design no impasse. Texto Jorge Amado. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi : Fundação Vilanova Artigas, 1994. 78 p., il. p&b color. (Pontos sobre o Brasil). 745.50981 BL246t
  • TEATRO do Ornitorrinco. São Paulo: Imprensa Oficial, 2009. 792.0981 To253
  • VERGUEIRO, Maria Alice. Maria Alice Vergueiro. São Paulo: [s.n.], s.d. Entrevista concedida a Rosy Farias, pesquisadora da Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. Não Catalogado
  • XAVIER, Alberto (Org.). Depoimento de uma geração: arquitetura moderna brasileira. 2ª ed. rev. ampl. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 720.981 D422a

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: