Artigo da seção pessoas Ana Maria Machado

Ana Maria Machado

Artigo da seção pessoas
Literatura / artes visuais  
Data de nascimento deAna Maria Machado: 24-12-1941 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Ana Maria Martins Machado (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1941). Autora de literatura infantojuvenil, romancista, jornalista, pintora, professora e tradutora. Reconhecida mundialmente por sua contribuição à literatura infantojuvenil, compõe em suas obras um espaço ficcional em que elementos míticos se misturam com fatos sociais, políticos e culturais do seu tempo ⎼ por exemplo, o direito de escolha, a situação da mulher e os novos modelos de organização familiar.

Na infância, Ana Maria frequentemente passa as férias na casa da avó, em Manguinhos, no município de Serra, Espírito Santo. Ali tem contato com as narrativas orais da comunidade local, uma influência decisiva para a forma como a autora conduzirá suas histórias e para algumas produções que terão como tema essa experiência.

Formada em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), muda-se para São Paulo, onde escreve para a revista Realidade e para a Enciclopédia Bloch. A pedido da revista Recreio, inicia em 1969 uma produção literária direcionada a crianças e jovens. A publicação é considerada um marco para a nova literatura infantil brasileira. No mesmo ano, por causa da situação política do país, exila-se voluntariamente. Trabalha na Europa como jornalista e faz doutorado em linguística e semiologia, com orientação de Roland Barthes (1915-1980). De volta ao Brasil no fim de 1972, trabalha no Jornal do Brasil como repórter e, depois, como chefe do Departamento de Jornalismo da Rádio JB.

Lança, em 1977, seu primeiro livro infantil, Bento-que-Bento-É-o-Frade. Na obra, a menina Nita se coloca em desacordo com o comportamento e as atitudes de outras crianças, em brincadeiras e situações consideradas naturais por todos. Em certo momento, embarca completamente no seu universo de fantasias, estabelecendo novos limites morais e sociais, que por correspondência iluminam a realidade não ficcional. Numa estrutura circular, a história termina em seu ponto de origem, a brincadeira bento-que-bento-é-o-frade.

Em 1978, Ana Maria lança História Meio ao Contrário, premiada obra que figura entre as principais da literatura infantojuvenil. Nela, a problematização do modelo tradicional de literatura infantil ocorre pela substituição da introdução "era uma vez" pelo desfecho "e viveram felizes para sempre". A partir daí o livro descreve o cotidiano de personagens iconográficos das fábulas, depois do "estabelecido final".

O narrador, depois de comentar com o leitor o começo invertido da trama, apresenta as diferenças existentes entre a memória dos antepassados e a falta de importância dedicada à própria história, que impera na cultura corrente. Ao retomar a narrativa dos personagens, rei, rainha, princesa e outros são situados no "para sempre" das histórias infantis, em sua suposta felicidade eterna. O problema é que, um dia, o rei sai de sua rotina. Fica mais tempo observando o fim de tarde e vê o sol sumir no horizonte. Entra, então, no palácio, gritando que roubaram o sol. A explicação para o fato é dada, mas, sem se convencer, exige que se descubram os culpados. A maneira de apresentar a natureza na história, com sua face mítica para alguns personagens e "natural" para outros, dá a medida desse “quase de verdade”, ou desse arranjo particular entre fantasia e elementos cotidianos, que a autora busca.

Em 1979, Ana Maria cria a primeira livraria especializada em literatura para crianças no país, chamada Malasartes, que dura quase duas décadas. Deixa a carreira de jornalista em 1980 e começa a se dedicar ao primeiro romance adulto, Alice e Ulisses (1983). Em alguma medida, a procura do espaço ficcional no embate entre história e mito, entre cotidiano e realidade atemporal (fantasia), também está presente nesse romance para adultos. As transformações do posicionamento feminino na sociedade contemporânea ⎼ como aquelas referentes à sexualidade feminina, aos paradigmas familiares, à relação amorosa entre homem e mulher ⎼ são discutidas tendo como fundo o mito, ou certa natureza humana a que os mitos muitas vezes dão forma.

A escritora muda-se para Manguinhos em 1986. Em 1989, recebe uma oferta de trabalho da BBC e vai para Londres, onde escreve Canteiros de Saturno (1991). Em seus outros romances, a realidade cotidiana fica mais bem marcada e funciona como contraponto à história, que se desdobra de maneira mais lenta. Em O Mar Nunca Transborda (1995), a personagem principal, Liana, mora em Londres e aos poucos vai esboçando a história da praia em que passa a maior parte da infância, no Espírito Santo. Ao desenhar o perfil de uma comunidade ribeirinha, suas tradições e rituais, bem como o passado de sua família, ela reconstitui a história do local ao mesmo tempo que descobre a si mesma. Esse exercício torna-se uma maneira de preservar para si o lugar mítico de sua infância, que, no presente da escrita, está se deteriorando.

O reconhecimento formal de Ana Maria Machado como escritora notável se expressa em diferentes acontecimentos, como a obtenção do Prêmio Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantojuvenil, em 2000, e a integração da autora à Academia Brasileira de Letras (ABL), em 2003.

Tal reconhecimento reitera a importância literária de suas obras e leva mais leitores a experienciar o espaço para a fantasia e a ficção em meio aos parâmetros culturais e o cotidiano das cidades, retratados pela autora.

Outras informações de Ana Maria Machado:

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Fontes de pesquisa (7)

  • ARROYO, Leonardo. Literatura Infantil Brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1968.
  • BASTOS, D. ANA & RUTH: 25 anos de literatura. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995.
  • CARVALHO, Bárbara Vasconcelos de. A Literatura Infantil: visão histórica e crítica. 4.ed. São Paulo: Global, 1985.
  • LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil Brasileira. História & Histórias. São Paulo: Ática, 1984.
  • COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira: séculos XIX e XX. 4. ed. São Paulo: Edusp, 1995.
  • COELHO, Nelly Novaes. Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil: das origens indo-europeias do Brasil contemporâneo. São Paulo: Ática, 1991.
  • ZILBERMAN, Regina & LAJOLO, Marisa. Um Brasil para crianças. Para conhecer a literatura infantil brasileira: história, autores e textos. São Paulo: Global, 1993.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ANA Maria Machado. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa1609/ana-maria-machado>. Acesso em: 24 de Set. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7