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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Maria Bethânia

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.10.2022
18.06.1946 Brasil / Bahia / Santo Amaro
Maria Bethânia Viana Teles Veloso (Santo Amaro, Bahia, 1946). Cantora, compositora. Permeada por canções românticas e pelo universo das religiões afro-brasileiras, sua obra se caracteriza pela relação estreita da artista com a poesia e pela teatralidade do seu canto.

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Maria Bethânia Viana Teles Veloso (Santo Amaro, Bahia, 1946). Cantora, compositora. Permeada por canções românticas e pelo universo das religiões afro-brasileiras, sua obra se caracteriza pela relação estreita da artista com a poesia e pela teatralidade do seu canto.

Cresce em um ambiente que favorece o contato com diferentes manifestações culturais. Na infância, convive com tradições afro-brasileiras presentes no Recôncavo Baiano, como o samba de roda e os cultos de candomblé, além de canções brasileiras tocadas no rádio e da música internacional difundida pelo cinema. Aprecia a cantora estadunidense Judy Garland (1922-1969) e a soprano grega Maria Callas (1923-1977) – a primeira, pelo timbre e tipo de emissão da voz, a segunda, pela dramaticidade. A essas referências se somam o gosto pela poesia, herdado do pai, e pelo teatro, incentivado pela mãe, combinação que contribui para sua formação artística.

Estreia nos palcos no início dos anos 1960, quando se muda com o irmão Caetano Veloso (1942) para Salvador. Na capital baiana, a cantora trava contato com artistas com quem estabelece parcerias duradouras, como Gal Costa (1945) e Gilberto Gil (1942), e vivencia a efervescente cena cultural formada em torno do grupo Teatro dos Novos. Apesar do desejo de se tornar atriz, suas participações nos shows Nós, por exemplo... e Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova, em 1964, a aproximam da música. No mesmo ano, realiza seu primeiro espetáculo solo, Mora na filosofia. Dirigido por Caetano e Gil, o show traz canções da era de ouro do rádio, como a que dá nome ao espetáculo (de Monsueto e Arnaldo Passos) – uma constante ao longo de sua trajetória–, além de composições contemporâneas, como os sambas “Acender as velas” e “Opinião”, de Zé Keti (1921-1999).

Indicada pela cantora Nara Leão (1942-1989) para substituí-la no espetáculo Opinião, Bethânia se muda para o Rio de Janeiro no início de 1965, o que a projeta na cena musical brasileira e impulsiona a carreira do irmão e de outros artistas conterrâneos. A interpretação dramática, a voz grave e rascante e o visual pouco convencional se conciliam com a proposta contestadora do espetáculo dirigido por Augusto Boal (1931-2009), tendo como ponto alto sua versão de “Carcará” [João do Vale (1934-1996) e José Cândido], reconhecida como primeira manifestação artística de protesto depois do golpe militar em 1964.

Aclamada pela atuação no espetáculo, a imagem de cantora engajada comprometeu a aceitação do público do trabalho subsequente, que retoma o cancioneiro romântico. Nos shows realizados entre 1966 e 1968, acena para um repertório eclético que inclui marchinhas, sambas-canção e boleros, homenageando compositores e intérpretes que influenciam sua trajetória artística, tais como Noel Rosa (1910-1937), Dalva de Oliveira (1917-1972) e Aracy de Almeida (1914-1988). Sem se filiar a nenhum movimento musical, grava autores ligados à bossa nova, como Tom Jobim (1927-1994), Vinícius de Moraes (1913-1980), Edu Lobo (1943), e os tropicalistas Caetano, Gil e Torquato Neto (1944-1972). A escolha do repertório indica certa preferência da cantora por temas românticos que possibilitem interpretações dramáticas.

Outra importante referência para Bethânia são as religiões afro-brasileiras, que passam a integrar seu repertório com frequência na medida em que se inicia no candomblé, no começo dos anos 1970. Além de gravar obras que remetem aos orixás, como as de Dorival Caymmi (1914-2008), Vinícius de Moraes e Paulo César Pinheiro (1949), a cantora passa a adaptar pontos de candomblé e canções de domínio público, constituindo em grande parte sua produção como compositora. Com instrumentações diversas, que acompanham as transformações da música popular brasileira ao longo do tempo – desde o trio de jazz formado por piano, baixo e bateria, até a inclusão de instrumentos ligados às giras, como atabaque e berimbau –, as referências ao candomblé passam a figurar também em seu gestual, no figurino de cores claras e nos pés descalços.

A partir desses elementos, Bethânia idealiza espetáculos conceituais nos quais a música desempenha o papel de fio condutor, característica que se afirma a partir de Rosa dos Ventos – O Show Encantado (1971). A sonoridade desse trabalho reverbera ainda influências do rock e da psicodelia, sendo um dos primeiros shows a conciliar o público desses gêneros ao da MPB. O espetáculo assume um importante sentido político ao se referir a artistas em exílio no período de endurecimento da ditadura. Dirigido e roteirizado por Fauzi Arap (1938-2013), Rosa dos Ventos é um marco dos espetáculos musicais no Brasil por utilizar uma dramaturgia apoiada nas conexões intertextuais entre música e literatura.

Esse tipo de elaboração está presente nos álbuns de estúdio de Bethânia, embora sejam mais numerosos os registros ao vivo por valorizarem as peculiaridades da interpretação da artista. Além da organização dramatúrgica feita a partir da colagem de fragmentos poéticos, destaca-se o trabalho de enunciação da cantora: em seu canto, o ritmo não se enquadra necessariamente no compasso da música, mas obedece às respirações e pausas sugeridas pelo texto poético, processando uma ressignificação do material usado. Esse aspecto se associa à grande liberdade na escolha do repertório, que transita por autores de gerações e estilos musicais bastante diversos.

Ao atualizar diversos elementos inscritos na tradição musical e fundi-los à produção de seus contemporâneos, Maria Bethânia atua de maneira autoral, inscrevendo sua obra num processo de consolidação da moderna música popular brasileira.

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Espetáculos 5

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Shows musicais 7

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Fontes de pesquisa 9

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  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • FERREIRA, Mauro. Maria Bethânia acende a festa no terreiro do Brasil em luminosa live de aura política. Blog do Mauro Ferreira, G1, 14 fev. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2021/02/14/maria-bethania-acende-a-festa-no-terreiro-do-brasil-em-luminosa-live-de-aura-politica.ghtml. Acesso em: 12 jul. 2021.
  • FORIN JR., Renato. Confluências do teatro e da música popular no espetáculo de Maria Bethânia. Moringa, João Pessoa, v. 4, n. 2, pp. 131-149, jul.-dez. 2013.
  • FORIN JR., Renato. Lirismo e construção rapsódica na performance de Maria Bethânia. Revista Estação Literária, Londrina, v. 15, p. 220-236, jan. 2016.
  • GOUVEIA, Sylvia Cristina Toledo. Maria Bethânia, corpo e voz em cena: a performance de Carcará. 2012. 131 f. Dissertação (Mestrado em Literatura) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2012.
  • MAGOSSI, José Eduardo Gonçalves. Sobre a MPB e a longevidade. Revista Novos Olhares, São Paulo, v. 1, n. 1, pp. 98-107, 2012.
  • SILVA, Marlon de Souza. “No que eu canto trago tudo o que vivi”: a tradição e o popular em Maria Bethânia (1965-1978). 2010. 147f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de São João del-Rei, São João del-Rei, 2010.
  • TBC apresenta Arena-Opinião. São Paulo: TBC, 1965. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Não catalogado
  • WEINSCHELBAUM, Violeta. “Maria Bethânia”. In:WEINSCHELBAUM, Violeta. Estação Brasil: conversas com músicos brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2006.

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