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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Naná Vasconcelos

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.04.2021
02.08.1944 Brasil / Pernambuco / Recife
09.03.2016 Brasil / Pernambuco / Recife
Reprodução fotográfica Caio Palazzo.

Registro da Aula-espetáculo Os Muitos Sons de Naná Vasconcelos.

Juvenal de Holanda Vasconcelos (Recife, Pernambuco, 1944 - idem, 2016). Percussionista, compositor, vocalista. Ainda criança, aprende sozinho a manejar instrumentos de percussão. Aos 12 anos, tocando bongô e maraca, integra a banda liderada pelo pai, tocador de manola1 e violão. Mais tarde, trabalha como baterista em cabarés e na Banda Municipal...

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Biografia
Juvenal de Holanda Vasconcelos (Recife, Pernambuco, 1944 - idem, 2016). Percussionista, compositor, vocalista. Ainda criança, aprende sozinho a manejar instrumentos de percussão. Aos 12 anos, tocando bongô e maraca, integra a banda liderada pelo pai, tocador de manola1 e violão. Mais tarde, trabalha como baterista em cabarés e na Banda Municipal do Recife. Em 1966, participa com Geraldo Azevedo (1945) e Teca Calazans (1940) do musical folclórico Memórias de Dois Cantadores, em que explora pela primeira vez o berimbau, instrumento em que se especializa. Um ano depois, fixa-se no Rio de Janeiro, onde toca com vários artistas e bandas, como Gal Costa (1945), Os Mutantes e Milton Nascimento (1942), que o convida para participar de seu primeiro disco. Ao lado de Geraldo Azevedo, integra o grupo Quarteto Livre, com o qual acompanha o compositor Geraldo Vandré (1935). Com o saxofonista argentino Gato Barbieri (1932), vai para a Argentina, Estados Unidos (onde vive em 1971) e Europa (Festival de Montreux, de 1972). Vive em Paris, entre 1972 e 1977, e lá grava seu primeiro disco solo, Africadeus (1972). Durante curta estada no Brasil, em 1973, grava o segundo álbum, Amazonas, e participa de Milagre dos Peixes, LP de Milton Nascimento. Totalmente instrumental, o disco torna-se um ícone do protesto contra a ditadura. Ainda em Paris, no selo Saravah, grava um disco com Nelson Ângelo (1949) e Novelli (1945), em 1974, e forma um duo com Egberto Gismonti (1944), com quem lança os discos Dança das Cabeças (1977), vencedor do Grammy, Sol do Meio-Dia (1978) e Duas Vozes (1984). Em 1978, fixa-se em Nova York, e cria com Don Cherry (1936-1995), trompete e percussão e Collin Walcott (1945-1984), tabla e cítara, o trio Codona, com quem grava dois discos, em 1979 e 1981, que incorporam ao jazz características da música africana, asiática e brasileira. Grava seu terceiro álbum solo, Saudades (1979), e integra o grupo do guitarrista norte-americano Pat Metheny (1964).

Em 1983, passa a tocar bateria eletrônica, utilizada nos discos Nanatronics (1985), Bush Dance (1986) e Rain Dance (1989). Após a morte de Walcott, forma com Cherry o quinteto Nu, além de trabalhar com o percussionista indiano Trilok Gurtu (1951). Nos anos 1990, forma o trio Inclassifiable com o saxofonista britânico Andy Sheppard (1957) e o tecladista norte-americano Steve Lodder (1951). Ainda sediado em Nova York, em 1994, volta a trabalhar no Brasil, lança Contando Histórias (1994) e cria o projeto ABC Musical, que reúne crianças de sete a dez anos para cantar música folclórica brasileira. No ano seguinte, assume a direção do Perc-pan (Panorama Percussivo Mundial), cargo que ocupa até 2001. Após se fixar no Recife, em 1999, grava pelo Núcleo Contemporâneo os discos Fragmentos (2001) e Minha Lôa (2002). Em 2001, produz o primeiro álbum do grupo Cordel do Fogo Encantado e, no ano seguinte, grava com Itamar Assumpção (1949-2003) o disco Isso Vai Dar Repercussão, que só é lançado em 2004, após a morte do parceiro. Seguem-se Chegada (2005), Trilhas (2006) e Sinfonia e Batuques (2010).

No decorrer da carreira, participa da trilha sonora de filmes nacionais e estrangeiros, como A Idade da Terra (1980), de Glauber Rocha (1939-1981), O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci (1940), e Down by Law (1986), de Jim Jarmusch (1953), além de compor a música original de O Sertão das Memórias (1997), de João Araújo, O Primeiro Dia (1998), de Walter Salles Junior e Daniela Thomas, e Quase Dois Irmãos (2004), de Lúcia Murat. Em 2010, realiza o projeto Língua Mãe, no qual reúne crianças de três países (Angola, Brasil e Portugal) de língua portuguesa em oficinas musicais e, por fim, uma apresentação com a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Cláudio Santoro, com regência do maestro Gil Jardim. Há dez anos, Naná Vasconcelos e os Maracatus participam da abertura do Carnaval do Recife.

Análise da Trajetória
Eleito pela revista de jazz norte-americana Down Beat o melhor percussionista por nove anos consecutivos (1983-1991), Naná Vasconcelos amplia o conceito de percussão, estendendo-o a qualquer objeto que emita som: de instrumentos utilitários (como penico e panela) a elementos da natureza, passando pela voz, pelo corpo e pela eletrônica. Ao mesmo tempo, revoluciona o papel do percussionista, deixando de ser um mero acompanhante para tornar-se solista.

Apelidado de jungle man pela crítica norte-americana, em alusão ao exotismo dos objetos que leva para o palco, ele ressignifica os instrumentos tradicionais da percussão afro-brasileira, especialmente o berimbau, que se torna seu carro-chefe. Sua principal influência é o guitarrista Jimi Hendrix (1942-1970), que extrapola os limites impostos pela guitarra e explora todas as potencialidades do instrumento. Do mesmo modo, Naná Vasconcelos reinventa o vocabulário do berimbau (até então usado apenas na capoeira), buscando novos timbres (ao deslizar a baqueta em círculos sobre a cabaça ou percutir diretamente sobre a biriba2, no lugar da corda) e utilizando-os nos mais variados estilos de música, do new age do trio Codona ao frevo de Capiba (1904-1997), passando pelo jazz de Miles Davis (1926-1991) e Thelonius Monk (1917-1982), a música de protesto de Geraldo Vandré, o folk-rock de Paul Simon (1941), a new wave de David Byrne (1952) e a música popular brasileira (MPB) de Marisa Monte (1967), Jards Macalé (1943), Gilberto Gil (1942) e Clementina de Jesus (1902-1987). O álbum Saudades, é o ponto alto de sua trajetória como solista de berimbau: tocando um instrumento confeccionado por ele mesmo com uma corda de piano Steinway, o qual utiliza até hoje, ele grava com a Orquestra Sinfônica da Rádio de Stuttgart O Berimbau, composição sua orquestrada por Egberto Gismonti, um verdadeiro concerto para percussão e orquestra.

Além do berimbau e de outros instrumentos folclóricos (como o caxixi, o gongo ou a cuíca - que ele chega a usar num blues de B.B. King [1925-2015]), Naná explora a potencialidade do canto e da fala. Já no primeiro disco, Africadeus, na faixa intitulada "Pinote", ele entoa as estrofes de um maracatu de domínio público, além de explorar outros recursos percussivos do aparelho fonador que não a voz, como assobio, estalo de língua, chiado. Logo começa a extrair ritmos e sonoridades da palavra falada, criando os vocalismos que se tornam uma de suas marcas pessoais, inspirado nos pregões de rua e aboios do Nordeste. Compõe ainda seus primeiros versos, que já aparecem em seu disco Saudades, . Na faixa Vozes, ele transforma as sílabas de seu "poema onomatopaico" "Déro Não Déro" em sons percussivos ao repetir e sobrepor continuamente cada um dos versos:

"E déro não déro Dedé
diz que déro não déro Dedé
déro não déro Dedé
Dê e Dedé com Dedé
E Dedé com Dedé".

A composição procura imitar uma conversa de fundo de quintal em que várias pessoas discutem ao mesmo tempo se "deram" ou "não deram" a liberdade ao líder Zumbi dos Palmares.

Outra característica do trabalho de Naná é a utilização do próprio corpo como caixa de ressonância, recurso inspirado no trabalho que ele realiza numa clínica psiquiátrica da França, entre 1973 e 1974, com crianças excepcionais. Para se comunicar com elas, o percussionista imita os sons que elas produzem com o corpo e com a voz, propondo-lhes outros em seguida, numa espécie de diálogo improvisado. É assim que surge um repertório de sons corporais, que ele explora com maestria no disco Dança das Cabeças, parceria com Egberto Gismonti, ou em seu álbum Zumbi (1983). A pesquisa de novos sons, aliás, é uma constante na trajetória do artista. Seus últimos experimentos nesse sentido são produzidos na água, e podem ser escutados em seu mais recente álbum, Sinfonia e Batuques.

Vale destacar ainda a incorporação da tecnologia em seu trabalho. Após utilizar a bateria eletrônica nos anos 1980, logo abandonada, ele adere ao sampler para reproduzir suas vocalizações. Toca com o DJ Dolores e acompanha os movimentos musicais brasileiros que se valem da tecnologia, como o manguebeat. Em 2009, defende o "afro-futurismo" musical, mescla de elementos da música percussiva a intervenções de vanguarda.

Embora componha basicamente música instrumental, arrisca às vezes alguns versos, como na citada Vozes. A marca do letrista Naná é a simplicidade, em versos como; "Pula, canta, dança, menina / Vem cá para dançar, menina" ("Bush Dance", do disco homônimo) ou "Nós somos quase irmãos / fomos quase irmãos / somos quase irmãos / Nós somos quase irmãos" ("Quase Dois Irmãos", da trilha do filme homônimo), que soam quase simplórios, se comparados à riqueza de seu trabalho instrumental. Uma rara exceção é a canção "Futebol", também gravada em Bush Dance, em que lamenta a substituição do futebol-arte pelo jogo técnico, que passa a dominar os campeonatos:

"Não deixe o futebol perder a dança
nem perca este sorriso de criança
passe no peito, jogue de lado
Dê um sorriso e não pise na bola
Dê carreirinha, fique parado
Não deixe o futebol".

A música de Naná Vasconcelos chama atenção ainda por sua forte carga imagética, característica que ele atribui à influência de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), que em "O Trenzinho do Caipira" descreve musicalmente a partida de um trem e a paisagem que o circunda em seu trajeto. Do mesmo modo, o percussionista procura explorar a potência visual dos sons, construindo com eles paisagens ou narrativas. No álbum Zumbi, ele descreve como teria sido a chegada do primeiro escravizado africano ao território brasileiro. Em Contando Histórias, ele constrói, por meio da música, narrativas e paisagens típicas do Nordeste. Já em Sinfonia e Batuques, narra o encontro imaginário entre uma orquestra sinfônica e uma nação de maracatu. Em seus espetáculos ele utiliza imagens sonoras, levando a plateia a sonorizar com palmas - que ele rege do palco - uma chuva ou o movimento de um rio no meio da Floresta Amazônica.

Notas
1 Espécie de violão elétrico com apenas quatro cordas.
2 Pedaço de pau envergado utilizado como arco de berimbau.

Obras 3

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Espetáculos 1

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Mídias (1)

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Música Surrealista com Naná Vasconcelos - Continuum #32
Itaú Cultural

Fontes de pesquisa 12

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  • ALVIN, Ricardo Cravo (criação e supervisão). Dicionário Houaiss Ilustrado da Musica Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006, p. 766.
  • CEZIMBRA, Márcia. Como uma imagem pode virar música. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 abr. 1986. Ilustrada, p. 45.
  • COSTA, Carlos e ASSUMPÇÃO, Michelle. Música Surrealista. Continuum, São Paulo, ago. 2011. p.16-19. Disponível em: < https://issuu.com/itaucultural/docs/continuum32 >. Acesso em: 09 mar; 2016.
  • DINIZ, Polyana. O homem da floresta. Entrevista com Naná Vasconcelos. Diário de Pernambuco, Recife, 16 ago. 2009.
  • Diário de Naná. Documentário. Direção Pascoal Samora. Brasil, 2006. 60 min.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. p. 515.
  • LACERDA, Mariana e MEIGUINS, Alessandro. A simplicidade de menino do percussionista que encontrou seu próprio ritmo para a vida. Vida Simples. São Paulo, Ed. Abril, n. 16, maio 2004.
  • NANÁ VASCONCELOS. Site oficial do artista. Disponível em: < http://www.nanavasconcelos.com.br >. Acesso em: 01 mar 2011.
  • Naná Vasconcelos. In: GROVE Online Dictionary. Disponível em: < http://www.oxfordmusiconline.com >. Acesso em: 01 mar. 2011.
  • PHAELANTE, Renato. MPB: compositores pernambucanos: coletânea bio-músico fonográfica. 1920-1995. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1997.
  • TADEU, Felipe. Naná Vasconcelos relembra os tempos na gravadora ECM e no trio Codona. Universo Online, 16 fev. 2009. Disponível em: < http://musica.uol.com.br/ultnot/2009/02/16/ult89u10292.jhtm >. Acesso em: 01 mar. 2011.
  • TELES, José. Naná Vasconcelos, talento internacional. Continente Multicultural, Recife, ano 5, n.55, p. 72-81, jul. 2005.

Como citar

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