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Lima Duarte

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.01.2021
29.03.1930 Brasil / Minas Gerais / Sacramento / Desemboque
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Lima Duarte, 1972

Ariclenes Venâncio Martins (Sacramento, Minas Gerais, 1930). Ator, diretor, dublador, narrador, sonoplasta, roteirista, apresentador. Pioneiro da televisão brasileira, é reconhecido pelo investimento na composição do perfil psicológico de seus personagens, interpretados em radionovelas, espetáculos do Teatro de Arena, na TV e em diversos filmes....

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Ariclenes Venâncio Martins (Sacramento, Minas Gerais, 1930). Ator, diretor, dublador, narrador, sonoplasta, roteirista, apresentador. Pioneiro da televisão brasileira, é reconhecido pelo investimento na composição do perfil psicológico de seus personagens, interpretados em radionovelas, espetáculos do Teatro de Arena, na TV e em diversos filmes. Consagra-se como ator de novelas ao criar tipos cômicos marcantes, como Sinhozinho Malta, de Roque Santeiro (1985).

Filho de um boiadeiro e de uma artista circense, na juventude ajuda ocasionalmente a mãe nos picadeiros, que influencia significativamente sua carreira de ator e é a primeira pessoa a fazê-lo perceber o sentido das artes cênicas.

Em 1946, Lima vai para São Paulo sozinho, na boleia de um caminhão de mangas. Com o sonho de trabalhar em rádio, é reprovado em um teste para a TV Tupi por causa do sotaque acentuado, mas ingressa na rádio como estagiário de sonoplastia. Faz imitações que chamam a atenção do dramaturgo Oduvaldo Vianna (1892-1972), que o convida a atuar em uma radionovela.

Adota o nome Lima Duarte por sugestão da mãe. Participa do programa inaugural da televisão, na TV Tupi, em 1950, um show de variedades dirigido por Cassiano Gabus Mendes (1929-1993), com artistas como Hebe Camargo (1929-2012) e Lolita Rodrigues (1929), e da primeira telenovela brasileira, Sua Vida me Pertence (1951).

Na mesma emissora, faz a primeira adaptação televisiva de Hamlet no teleteatro TV de Vanguarda, nos anos 1950. O crítico Guilherme de Almeida (1890-1969) descreve no Estado de S. Paulo seu trabalho como “patético, mas nunca ridículo”1, definição na qual Lima Duarte se reconhece e assume para sua carreira.

A origem rural é determinante para que ingresse no Teatro de Arena (1953-1972), nos anos 1960, a convite de Augusto Boal (1931-2009), Chico de Assis (1933-2015) e Oduvaldo Vianna, pois converge com a ambição dos fundadores do Arena de apresentar um teatro nacional, feito com “brasileiros típicos” que conheçam os modos de andar, falar e sentir habituais da população do país, em oposição à tradição europeia celebrada no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC) (1948-1964).

Segundo Décio de Almeida Prado (1917-2000), o ator chega “pronto ao teatro”, “É inteiramente cálculo, premeditação, mas dá a impressão contrária”2. Por O Testamento do Cangaceiro (1961), Lima Duarte recebe o prêmio Saci de melhor ator e uma bolsa de estudos em Nancy, na França.

Atua em peças emblemáticas como Arena Conta Zumbi (1965), sobre a luta quilombola em Palmares e os conflitos de poder no Brasil. O musical inaugura o Sistema Curinga proposto por Boal, em que cada ator pode desempenhar qualquer personagem. Lima permanece no grupo até o fechamento imposto pela ditadura em 1971. “Devo ao Arena todo meu entendimento de compor um personagem, de entender sua psicologia, essa coisa que Constantin Stanislavski (1863-1938) nos ensinou: pessoa, personagem, personalidade, ou seja, a psicologia e o papel social do ator”3.

Na TV Tupi, faz sucesso em novelas como O Direito de Nascer (1964) e Beto Rockfeller (1968) ⎼ esta se diferencia por “personagens críveis, sem maneirismos ou impostações”4, em um contexto predominante de folhetins mexicanos e de outros países.

Estreia nas novelas da TV Globo em 1972 como diretor de O Bofe, mas fracassa na audiência. Já em O Bem-Amado (1973), na pele de Zeca Diabo, surpreende com o contraste cômico entre a voz fina e a violência do jagunço. Em Roque Santeiro, ostensivamente censurada pela ditadura, proporciona a Sinhozinho Malta um gesto marcante da teledramaturgia brasileira, o balançar da pulseira.

Em O Salvador da Pátria (1989), novamente representa a síntese do brasileiro comum ao interpretar Sassá Mutema, cuja trajetória de boia-fria que ganha popularidade e ingressa na política é associada às eleições presidenciais daquele ano.

Nesse mesmo período, apresenta o programa Som Brasil (1984-1989), contando histórias literárias. Apresenta também o Você Decide (1993). A habilidade vocal para imitações e caricaturas permite que se torne dublador de personagens memoráveis de desenhos animados, como o Catatau, de Zé Colmeia, e o protagonista de Manda-Chuva.

No cinema, embora faça dezenas de filmes, não obtém o mesmo reconhecimento que na televisão. Com o truculento protagonista de Sargento Getúlio (1983), baseado no livro de João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), recebe o kikito de melhor ator no Festival de Gramado. Imprime ao personagem a capacidade de provocar medo, sobretudo pelo olhar feroz capturado pela câmera como se fosse seu adversário.

Também filma Os Sete Gatinhos (1980), que ressalta o grotesco do texto de Nelson Rodrigues (1912-1980), ao qual o ator responde “dançando à beira do abismo da caricatura”5. Em Palavra e Utopia (2000), do consagrado diretor português Manoel de Oliveira (1908-2015), faz o Padre Antônio Vieira na velhice e “impressiona ao retratar o desencanto e a decadência física do personagem, declamando seus sermões de maneira por vezes arrebatadora”6.

Com personagens tão díspares como um milionário de Da Cor do Pecado (2004) e o sacerdote indiano de Caminho das Índias (2009), na TV Globo, Lima Duarte sustenta uma longa carreira transitando entre papéis cômicos, histriônicos e dramáticos.

Nutrido por sua origem rural e pela memória afetiva, constrói uma ampla galeria de personagens de sotaques e subjetividades diversas, criando ações físicas e outras marcas que os distinguem na memória do público.

Notas

1. REVISTA BRASILEIROS. 85 anos de Lima Duarte. [S.l., s.d.]. Disponível em: https://limaduarteoficial.wordpress.com/2015/03/29/85-anos-de-lima-duarte-releia-a-entrevista-do-ator-a-brasileiros/. Acesso em: 1 dez. 2019.

2. PRADO, Décio de Almeida. Teatro em progresso: crítica teatral (1955-1964). São Paulo: Perspectiva, 1964.

3. Idem 1.

4. Idem 1.

5. ORICCHIO, Luiz Zanin. No cinema, Lima Duarte é eclético e espontâneo no drama e na comédia. Estadão, [s.l.], 2 set. 2019.  Disponível em: https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,na-cinema-lima-duarte-e-ecletico-e-espontaneo-no-drama-e-na-comedia,70002993860. Acesso em: 1 dez. 2019.

6. SILVA Jr., Gilberto. Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira. Contracampo, [s.l., s.d.]. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/criticas/palavraeutopia.htm. Acesso em: 1 dez. 2019.

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