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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Andrea Tonacci

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 06.11.2020
01.09.1944 Itália / Lazio / Roma
16.12.2016 Brasil / São Paulo / São Paulo
Andrea Tonacci (Roma, Itália, 1944 - São Paulo, São Paulo, 2016). Diretor de cinema, produtor e fotógrafo. Destaca-se como pioneiro na introdução do vídeo portátil no Brasil. Muda-se com a família para São Paulo, em 1953. Cidade onde inicia o curso de arquitetura e de engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas abandona para se dedic...

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Andrea Tonacci (Roma, Itália, 1944 - São Paulo, São Paulo, 2016). Diretor de cinema, produtor e fotógrafo. Destaca-se como pioneiro na introdução do vídeo portátil no Brasil. Muda-se com a família para São Paulo, em 1953. Cidade onde inicia o curso de arquitetura e de engenharia na Universidade Presbiteriana Mackenzie, mas abandona para se dedicar ao cinema.

Seus primeiros filmes contribuem para a discussão sobre a estética do Cinema Marginal, como o curta-metragem Olho por Olho (1965), o média - metragem Blá, Blá, Blá (1968), melhor filme da categoria, no Festival de Brasília do mesmo ano, e o longa Bang Bang (1970), considerado uma obra importante do movimento.

Apesar de sua trajetória ter início nos filmes de ficção, a maior parte de sua obra é composta de documentários, gênero no qual se estabelece a partir de meados dos anos 1970. Em 1972, realiza ao lado do diretor Júlio Bressane (1946) uma viagem ao Extremo Oriente e faz o registro fotográfico da viagem. Neste ano, iniciam-se suas experiências precursoras em vídeo. Em 1975, faz dois documentários sobre o artista plástico José Roberto Aguilar (1941), Do Tabu ao Totem e Roberto Aguilar em Nova York, ambos realizados em vídeo.

No mesmo ano, Tonacci dirige seu segundo longa metragem, Interprete Mais, Ganhe Mais, que registra em vídeo preto-e-branco a montagem da peça Os Autos Sacramentais, do dramaturgo espanhol Calderón de La Barca (1600-1681), o filme é finalizado apenas em 1995. Entre 1977 e 1984, realiza ampla documentação das culturas indígenas das Américas. Seu primeiro filme a respeito do tema é Conversas no Maranhão (1977), que se torna um dos pontos fundamentais do documentário brasileiro.

Andrea Tonacci inicia o projeto A Visão dos Vencidos, que se estende até 1983, com o apoio da Fundação Guggenheim, cujo o objetivo é aprofundar os trabalhos iniciados em Conversas no Maranhão. Viaja aos Estados Unidos, México, Peru, Bolívia, em 1978, quando realiza diversos documentários. No mesmo ano, Tonacci também se dedica à realização do documentário Hermeto, Macalé e Novos Baianos, em que grava, em 16mm, show dos artistas. Em 1979, produz documentários para os sindicatos operários do ABC, como 1º de Maio em São Bernardo do Campo e 13 de Maio em São Bernardo do Campo.

Em 1980, inicia outro documentário sobre a questão indígena chamado Os Arara. Dividido em três partes, gravado entre 1980 e 1983, respectivamente, o vídeo não tem uma edição final, pois apenas as duas primeiras partes foram finalizadas. Em 1994, faz um documentário em vídeo, para a Fundação Bienal, chamado Bienal Brasil século XX. No mesmo ano, dirige Óculos Para Ver Pensamentos, um vídeo de curta-metragem para o evento Arte/Cidade, em São Paulo. Em 1998, faz para a TVE do Rio de Janeiro, o documentário sobre direitos humanos Idade não é Documento.

Depois de três décadas, o diretor volta a produzir um longa-metragem, Serras da Desordem (2006). Tanto o filme quanto seu diretor são premiados como os melhores das suas categorias no Festival de Cinema de Gramado, em 2006.

Identificado com o chamado cinema marginal e com a questão indígena, Andrea Tonacci constrói sua obra baseado na experimentação de diversas ferramentas cinematográficas. Blablablá e Bang Bang são exemplos desse experimentalismo e colaboram para a compreensão do Brasil no período da ditadura militar. Segundo o crítico Ismail Xavier (1947), em Bang Bang:

 Tonacci monta uma estrutura de tema e variações em torno da situação clássica de perseguição no cinema; enreda figuras grotescas de bandidos numa ação sem continuidade, que se torna pretexto para jogos de composição espacial, onde tudo sempre recomeça, o cineasta dando prioridade ao processo, não ao produto final, e ironizando a narrativa clássica 1.

O diretor recusa a narrativa clássica e constrói um filme que surpreende pelo inesperado, pelo humor e pela construção rigorosa. A influência de Jean-Luc Godard (1930) é percebida pela citação direta ou pela incorporação de elementos estilísticos. Para o crítico Alcino Leite Neto (1959):

 

Tonacci é completa vontade de potência cinematográfica. E, afinal, Bang Bang é um filme policial, em tom de sátira, cujos fundamentos provêm tanto das histórias em quadrinhos quanto do cinema burlesco [...]. Importa ao diretor extrair do personagem a sua identidade visual e reduzir as cenas à condição do puro acontecimento cinematográfico, ou seja, de ilusionismo e catástrofe. Por isso, esse filme, sempre deliciosamente juvenil, amadurece como um dos documentos por excelência de sua época 2.

 

A partir de 1970, sua obra torna-se símbolo de irreverência e liberdade, colocando o diretor ao lado dos cineastas Rogério Sganzerla (1946-2004), João Callegaro (1945) e Carlos Reichenbach (1945-2012), expoentes do cinema marginal paulista.

Depois de Bang Bang, Tonacci começa a utilizar o vídeo portátil em suas filmagens e, em 1972, torna-se pioneiro dessa técnica no Brasil. Grava o longa-metragem Jouez Encore, Payez Encore, tanto em vídeo em preto e branco quanto em 35 mm e 16 mm. O filme acompanha uma montagem teatral da companhia de Ruth Escobar (1936), dirigida pelo argentino Victor Garcia (1934-1982). Tonacci, com sua câmera, registra as oscilações de humor do elenco, da direção e da produção. O filme, previsto como vídeo institucional, ganha caráter documental das contradições internas dos discursos do grupo. A improvisação e a experimentação, características na obra do diretor, são perceptíveis nesse trabalho, finalizado somente em 1995, por causa de divergências com a produtora.

Em 1977, o diretor inicia a pesquisa sobre comunidades indígenas de diversos países e grava dois documentários sobre índios do Maranhão: Conversas no Maranhão e Os Arara . Nesses filmes, marcados pela espontaneidade e pelo improviso nas filmagens do dia a dia dos índios, Andrea questiona a vivência do homem branco em comunidades tribais, tema que ganha força em seus trabalhos. 

Em Serra da Desordem, seu último longa-metragem, Tonacci experimenta com rigor a linguagem cinematográfica. O filme conta a história de Carapiru, um índio que escapa do massacre de sua aldeia e percorre sozinho o interior do Brasil, entre 1977 a 1988. Ao ser encontrado por fazendeiros e identificado pela Funai, é levado de volta à tribo, na Bahia.

O crítico Luís Alberto Rocha Melo resume:

há momentos em que se busca [nas imagens de arquivo] a complementaridade, o fio narrativo linear, a harmonia na sucessão dos planos; em outros trechos, verifica-se o predomínio do choque, o desequilíbrio proposital na relação entre os universos ficcionais e documentais, tornando-se mais evidente o artifício da montagem 3.

Andrea Tonacci leva o espectador a refletir sobre o mundo e as várias formas de apreensão e construção da realidade. O retrato do real é alçando por meio do uso de diferentes ferramentas de registro, que permitem mesclá-lo com a ficção e oferecer novos olhares sobre o que já existe.

Notas

1. XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. p.21

2. LEITE NETO, Alcino. Bang Bang. In: PUPPO, Eugênio (org.). Cinema Marginal Brasileiro e suas Fronteiras. 2ª ed. Rio de Janeiro, Heco Produções, 2002, p.91.

3. MELO, Luís Alberto Rocha. O lugar das imagens. In: CAETANO, Daniel (Org.). Serras da desordem. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2008. p.35.

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