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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Zezé Motta

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.08.2022
27.06.1944 Brasil / Rio de Janeiro / Campos dos Goytacazes
Maria José Motta de Oliveira (Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1944). Atriz e cantora. Em mais de cinco décadas de carreira, torna-se uma das presenças mais reconhecidas da televisão, do cinema e da música no Brasil. Referência na luta pela representatividade de artistas negros e negras, opõe-se a ofertas de trabalho restritas a personagen...

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Maria José Motta de Oliveira (Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1944). Atriz e cantora. Em mais de cinco décadas de carreira, torna-se uma das presenças mais reconhecidas da televisão, do cinema e da música no Brasil. Referência na luta pela representatividade de artistas negros e negras, opõe-se a ofertas de trabalho restritas a personagens subalternizadas e transita entre linguagens e estilos diversos para construir uma trajetória multifacetada. 

Filha de uma costureira e de um músico, aos dois anos de idade, muda-se com a família para o Rio de Janeiro. O pai, professor de violão, incute-lhe o gosto pela música, graças ao hábito de ouvir rádio enquanto dedilha as cordas do instrumento. As vozes de Ângela Maria (1929), Nora Ney (1922-2003), Cauby Peixoto (1931-2016), Marlene (1922-2014), Emilinha Borba (1923-2005) e outros cantores do rádio atraem sua atenção para a música1

Aluna em um colégio fundado pelo bispo Dom Hélder Câmara (1909-1999), aprende sobre consciência social e política. Influenciada por professores, passa a frequentar atividades artísticas na capital carioca. Estuda artes cênicas no Tablado, com a dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), e participa de diversas encenações amadoras com os colegas da escola. 

Aos 21 anos, é vista no musical estudantil Miss Brasil e faz sua estreia profissional no teatro como integrante do coro do espetáculo Roda Viva (1968), dirigida por José Celso Martinez Corrêa (1937). Na mesma época, apresenta-se em casas noturnas e estreia na televisão interpretando uma trabalhadora doméstica na novela Beto Rockfeller (1968), na TV Tupi. Atua no Teatro de Arena, sob a direção de Augusto Boal (1931-2009), em Arena conta Zumbi (1965) e Arena conta Bolívar (1969), com as quais viaja para os Estados Unidos, a Argentina, o México e o Peru. 

Ao saber da produção de uma biografia cinematográfica de Chica da Silva (c. 1732-1796), apresenta-se para o teste de elenco e é selecionada pelo diretor Cacá Diegues (1940) para o papel-título do longa-metragem Xica da Silva (1976). O filme leva mais de três milhões de espectadores aos cinemas e Zezé Motta se torna uma das artistas mais populares do país. Para a personagem, constrói uma figura vibrante e ousada, que aprende a jogar politicamente com o próprio corpo e a usar a raiva para romper regras impostas aos negros no período escravista brasileiro. Recebe pelo papel o prêmio de melhor atriz no Festival de Brasília daquele ano e alcança projeção internacional.

Embora a repercussão amplifique as demandas de trabalhos artísticos, os constantes convites para papéis subalternizados lhe causam incômodo, motivo pelo qual a atriz recusa alguns deles. “Fiz tantas empregadas [...] que, quando fui enredo da escola de samba Arrastão da Cascadura, do grupo 1-B, com [...] Zezé, um canto de amor à raça, do carnavalesco João de Deus, havia uma ala só de domésticas, representando as [...] que eu fiz ao longo da minha carreira”2.

Paralelamente à atuação, grava o primeiro disco em 1978, imortalizando a canção “Prazer, Zezé”, composta por Rita Lee (1947). A Warner sugere que o segundo álbum seja composto por sambas. Ainda que relutante com a associação redutora entre samba e raça, aceita lançar Negritude (1979), álbum que obtém grande sucesso. É reconhecida como “arrojada cantora que movimentou a cena musical dos anos 70 sem se deixar enquadrar (de início) no rótulo de sambista”, conforme escreve o crítico Mauro Ferreira3

Na televisão, interpreta papéis variados, com destaque para a atuação como Sônia Rangel, na novela Corpo a Corpo (1984), de Gilberto Braga (1945): arquiteta de classe média e bem-sucedida, a personagem se envolve romanticamente com um homem branco, filho de um milionário. A história do casal leva o debate sobre as relações interraciais ao horário nobre da Rede Globo. Conciliando com a carreira de atriz, apresenta-se como cantora em uma dezena de países, como em 1984, no Carnagie Hall, em Nova York. 

No cinema, atua em outros filmes de Cacá Diegues, como Quilombo (1984), Tieta do Agreste (1996) e Orfeu (1999). Também trabalha com Sérgio Bianchi (1945) em Cronicamente inviável (2000) e Quanto vale ou é por quilo (2005), entre outros importantes cineastas.

Em 2002, funda o Centro Brasileiro de Informação e Documentação do Artista Negro (Cidan), importante espaço de registro e pesquisa sobre artistas afro-descendentes. Em 2003, representa a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) no curta-metragem Carolina, dirigido por Jeferson De (1968), baseado em passagens do livro Quarto de despejo (1960). Premiado no Festival de Gramado, o trabalho revela o diretor paulista, com quem a atriz filma posteriormente Bróder (2010) e M8 - Quando a morte socorre a vida (2019).

No teatro, entre outras peças, assume a personagem Carmem do Baralho em O musical (2007), de Claudio Botelho (1964) e Charles Möeller (1967), com músicas compostas por Ed Motta (1971). Em 2016, integra o elenco de 3%, primeira série brasileira produzida pela Netflix. 

Segue fazendo shows e registrando álbuns com repertório diversificado, como Divina saudade (2000), em homenagem a Elizeth Cardoso (1920-1990), e Negra melodia (2011), em que entoa composições de Jards Macalé (1943) e Luiz Melodia (1951-2017), autores que marcam sua trajetória. Com este disco, reconquista a crítica. “O CD representa sopro de vitalidade, frescor e jovialidade em discografia que já estava [...] demasiadamente espaçada”.4

Aclamada pela vivacidade e luta pelo reconhecimento de artistas negros no Brasil, Zezé Motta constrói uma carreira plural à revelia das limitações impostas a artistas negras no país. Constantemente convidada para filmes e programas de TV, segue celebrada como atriz e cantora veterana.

Notas

1. MURAT, Rodrigo. Zezé Motta: muito prazer. São Paulo: Imprensa Oficial, 2005.s/p. Disponível em: https://livraria.imprensaoficial.com.br/media/ebooks/12.0.813.131.txt. Acesso em 4 ago. 2022.

2. Ibidem, s/p.

3. FERREIRA, Mauro. Negra Melodia dá frescor e vitalidade à discografia mofada de Zezé Motta. Blog Notas musicais. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: http://www.blognotasmusicais.com.br/2011/02/negra-melodia-da-frescor-e-vitalidade.html. Acesso em: 23 jun. 2021.

4. Ibidem.

Espetáculos 14

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