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Teatro

Fernanda Montenegro

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 21.10.2019
16.10.1929 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Fernanda Montenegro em cena de Computa, Computador, Computa - 1972

Arlette Pinheiro Esteves da Silva (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1929). Atriz. Uma das fundadoras do Teatro dos Sete, Fernanda Montenegro marca suas personagens com a sinceridade e o vigor que a tornam uma das personalidades mais destacadas no campo das artes cênicas – no teatro, no cinema e na televisão.

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Biografia

Arlette Pinheiro Esteves da Silva (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1929). Atriz. Uma das fundadoras do Teatro dos Sete, Fernanda Montenegro marca suas personagens com a sinceridade e o vigor que a tornam uma das personalidades mais destacadas no campo das artes cênicas – no teatro, no cinema e na televisão.

Começa a carreira no rádio, aos 16 anos. No teatro, sua primeira experiência ocorre em uma produção da diretora Esther Leão (1892-1971). Em 1952, ingressa na companhia de Henriette Morineau, Os Artistas Unidos. Em 1954, estreia no Teatro Maria Della Costa – TMDC, atuando em O Canto da Cotovia, de Jean Anouilh, um dos espetáculos mais importantes da companhia, com direção de Gianni Ratto (1916-2005). Permanece no TMDC por dois anos e tem seu primeiro papel de destaque, em 1955, interpretando Lucília em A Moratória, de Jorge Andrade, que lhe vale o Prêmio Saci e a promove ao estrelato. Em 1956, estreia no Teatro Brasileiro de Comédia - TBC, na peça Divórcio para Três, de Victorien Sardou, dirigida por Ziembinski. Lá permanece até 1958 e é premiada por dois trabalhos: com Nossa Vida com Papai (1956), de Howard Lindsay e Rusel Crouse, a atriz se revela em plena maturidade artística, e seu desempenho, que na opinião dos críticos faz valer o espetáculo, lhe confere o prêmio da Associação Paulista de Críticos Teatrais – APCT; com a interpretação sincera e vigorosa de Vestir os Nus (1958), de Luigi Pirandello (1867-1936), recebe o Prêmio Governador de Estado de São Paulo, e, novamente, o APCT. Diferente dos chamados "monstros sagrados" do teatro, Fernanda Montenegro assimila desde cedo a verticalidade do teatro, na figura do encenador: "... Eu vi que não era só dizer a frase com sujeito, verbo e predicado. Aquilo tinha uma imantação e cada período daqueles estava inserido numa cena, que tinha um batimento, que se unia a outra cena... E assim tinha um resultado não só artístico, mas social, político, existencial. Isso tudo dentro de uma visão estética do espetáculo que correspondesse a uma unidade cênica".1

Funda o Teatro dos Sete, com Fernando Torres (1927-2008), Sergio Britto (1923-2011), Ítalo Rossi (1931-2011) e Gianni Ratto, onde participa de todos os espetáculos até a dissolução da companhia, em 1965. Nesse período, é premiada três vezes: pela interpretação em O Mambembe (1959), de Artur Azevedo (1855-1908) e José Piza, dirigido por Gianni Ratto, recebe o Prêmio Padre Ventura do Círculo Independente de Críticos de Arte; por Mary, Mary (1963), de Jean Kerr, direção de Adolfo Celi (1922-1986), é premiada pela Associação Brasileira de Críticos Teatrais – ABCT; e por Mirandolina (1964), de Carlo Goldoni (1707-1793), recebe o Troféu Governador do Estado de São Paulo.

Gianni Ratto, que dirige a maioria dos espetáculos do Teatro dos Sete, traduz a importância da atriz em texto que comemora seus 50 anos de carreira: "A sólida estruturação moral, a noção crítica que ela tem de seu trabalho na perspectiva histórica de suas origens e do mundo ao qual pertence e que ela mesmo criou para si, emprestam ao seu trabalho o cunho do severo e implacável profissionalismo de um artista da Renascença".2

De 1966 a 1968, Fernanda atua em quatro espetáculos, dirigida por Fernando Torres, e recebe o Prêmio Molière por A Mulher de Todos Nós (1966), de Henri Becque (1837-1899); e por O Homem do Princípio ao Fim (1967), de Millôr Fernandes (1923-2012). Na década de 1970, atua em Oh! Que Belos Dias (1970), de Samuel Beckett (1906-1989), com direção de Ivan de Albuquerque (1932-2001); O Marido Vai à Caça (1971), de Georges Feydeau (1862-1921), dirigida por Amir Haddad (1937); O Interrogatório (1972), de Peter Weiss (1916-1982), direção de Celso Nunes (1941); O Amante de Madame Vidal (1973), de Louis Verneuil (1893-1952), direção de Fernando Torres. É premiada por Seria Cômico ... Se Não Fosse Sério, de Dürrenmatt (1921-1990) – Troféu Governador do Estado e Prêmio da Associação dos Críticos Teatrais de São Paulo – e A Mais Sólida Mansão, de Eugene O'Neill (1888-1953) – Prêmio Molière – ambos em 1976. Com o espetáculo É... (1977), de Millôr Fernandes, passa três anos e meio em temporada, realizando, em quatro capitais, um recorde de apresentações ininterruptas.

Na década de 1980, seu espetáculo mais marcante é As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1982), de Fassbinder (1945-1982), pelo qual recebe os prêmios Molière e Mambembe. Macksen Luiz (1945) escreve sobre o desempenho da atriz no espetáculo: "Quando os refletores do Teatro dos Quatro iluminam um corpo de mulher no centro do palco, vêem-se apenas as suas costas muito brancas e os cabelos desalinhados de alguém que desperta. Assim tem início para a plateia uma das mais emocionantes experiências que um espectador de teatro pode ter. O privilégio de assistir a um monstro sagrado mostrando, em forma plena, a extensão de seu talento. O seu porte de cena é de um animal, dono de sua liberdade de movimentos num espaço que é inteiramente seu. Há uma intimidade tão estreita entre a atriz e seu espaço de trabalho, que sua criação nada mais é do que um ato de intimidade. Cada pausa, silêncio ou movimento corresponde a um gesto que acentua a intimidade. A sua própria respiração é um elemento dramático tão forte que é impossível ao espectador da última fila deixar de ouvi-la. Fernanda agarrou sua Petra com seus 30 anos de carreira, fez dela quase uma soma das centenas de personagens que já interpretou, desenhando com uma técnica requintada a complexidade das emoções de uma vida. Não há nada que Fernanda faça como Petra que não seja fruto de um extenuante trabalho, mas ao mesmo tempo a carga de emoção que ela consegue projetar na personagem só pode ser explicada por um trabalho irretocável. A força e a inteligência da atuação de Fernanda Montenegro em As Lágrimas Amargas de Petra von Kant nos devolvem a alegria de ir ao teatro".3

Cinco anos depois, seu desempenho é novamente consagrado em Dona Doida, Um Interlúdio (1987), de Adélia Prado (1945), valendo-lhe o Prêmio Molière. Em 1993, sobe à cena com a filha Fernanda Torres (1965), para fazer uma abordagem sarcástica e grotesca da relação maternal em The Flash and Crash Days – Tempestade e Fúria, de Gerald Thomas (1954). Nesse espetáculo feito de silêncio, em que o texto se resume a palavras ou frases só compreensíveis no contexto da ação, a atriz se expõe ao risco e à experimentação cênica.

No cinema, atua, entre outros, em: A Falecida (1964), de Nelson Rodrigues (1912-1980), direção de Leon Hirszman (1937-1987); Em Família (1970), roteiro de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974), direção de Paulo Porto (1917-1999); Tudo Bem (1978), direção de Arnaldo Jabor (1940); Eles Não Usam Black-Tie (1980), direção de Leon Hirszman. No final dos anos 90, recebe todos os prêmios nacionais, cinco prêmios internacionais e é a primeira atriz brasileira a ser indicada ao Oscar pela atuação no filme Central do Brasil (1998), de Walter Salles Jr (1956).

Pela simplicidade, trabalhada e consciente, Fernanda Montenegro resiste ao papel de mito em que é rematadamente colocada e, nos momentos de homenagem, sempre obriga a audiência a se lembrar dos colegas de sua classe. Ao tentar definir seu estilo, os redatores não resistem a ampliar o olhar para mirar a pessoa e a cidadã. Como Caetano Veloso para o prefácio de sua biografia: "Há artistas que nos abalam com a potência do seu gênio; muitos, na tentativa desesperada de salvar o mundo, dele se afastam, às vezes virando as coisas à própria arte, à vida mesmo. Fernanda, artista de gênio, em nenhum dos três itens foge ao centro: no meio do mundo, no meio da arte, no meio da vida. É assim que a vejo, ela mesma pouco a pouco entendendo seu próprio destino. Esse destino que confere ao seu trabalho uma dimensão que transcende a evidente excelência: suas criações (...) descobrem (inventam) o sentido do nosso modo de ser; nos fundam, nos filtram, nos projetam. E nos acenam com enormes tarefas. (...) Em cena, ela estende um pano sobre a mesa, em silêncio, e tudo está dito sobre a mulher, a elegância, a condição humana e o teatro. De costas para a platéia, sua pele muito branca irradia uma intensa onda sensual, feita de fragilidade e firmeza, coragem e recato".4

 

Notas

1. MONTENEGRO, Fernanda. Entrevista a Regina Zappa e Pedro Butcher. In: Fernanda Encena: retrospectiva 50 anos, Rio de Janeiro, MAM, 1999.

2. RATTO, Gianni. O primeiro roubo. In: Fernanda Encena: retrospectiva 50 anos. Op. cit.

3. LUIZ, Macksen. Citado por BRITTO, Sérgio. Fábrica de ilusão: 50 anos de teatro. Rio de Janeiro: Funarte, 1996.

4. VELOSO, Caetano. Prefácio. In: RITO, Lúcia. Fernanda Montenegro em o exercício da paixão. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1990.

Obras 2

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Fontes de pesquisa 13

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  • BARBOSA, Neusa. Fernanda Montenegro: A Defesa do Mistério. Disponível em : < http://aplauso.imprensaoficial.com.br/edicoes/12.0.813.613/12.0.813.613.txt >. Acesso em: 22 de julho de 2011. Não catalogado
  • BRANDÃO, Tania. A máquina de repetir e a fábrica de estrelas: Teatro dos Sete. Rio de Janeiro: 7Letras : Faperj, 2002. 792.09 T253b
  • BRITTO, Sérgio. Fábrica de ilusão: 50 anos de teatro. Rio de Janeiro: Funarte, 1996. 260 p.
  • CALABAR, o Elogio da Traição. São Paulo: Theatro São Pedro, 1980. 1 programa do espetáculo realizado no Theatro São Pedro. Não catalogado
  • EICHBAUER, Hélio. [Currículo]. Enviado pelo artista em 24 de abril de 2011. Espetáculo: Fedra 13 1986. Não catalogado
  • FERNANDA Encena: retrospectiva 50 anos, Rio de Janeiro, MAM, 1999. (Caderno publicado por ocasião da exposição comemorativa dos 50 anos de carreira da atriz).
  • Programa do Espetáculo - A Mulher de Todos Nós - 1968. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo - As Lágrimas Amargas de Petra von Kant - 1983. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo - Dias Felizes - 1995. Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - Fedra - 1986. Não catalogado
  • Programa do Espetáculo - É... - 1977. Não Catalogado
  • RITO, Lúcia. Fernanda Montenegro em o exercício da paixão. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1990.
  • SERIA cômico se não fosse sério. Sâo Paulo, 1976-1977. 1 programa do espetáculo realizado no Teatro Sesc Anchieta. Não catalogado

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