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Música

Rita Lee

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 07.03.2015
31.12.1947 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Rita Lee, 2004
Camille Kachani, Rita Lee
Placas de borracha e.v.a sobre mdf
90,00 cm x 100,00 cm

Rita Lee Jones (São Paulo SP 1947). Compositora, cantora, instrumentista, atriz, escritora. Filha do descendente de imigrantes norte-americanos Charles Jones e da italiana Romilda Padula, na infância, estuda piano clássico com Magdalena Tagliaferro e brinca de trio vocal com as irmãs. Aos 16 anos, integra um trio vocal feminino, as Teenage Singe...

Texto

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Biografia
Rita Lee Jones (São Paulo SP 1947). Compositora, cantora, instrumentista, atriz, escritora. Filha do descendente de imigrantes norte-americanos Charles Jones e da italiana Romilda Padula, na infância, estuda piano clássico com Magdalena Tagliaferro e brinca de trio vocal com as irmãs. Aos 16 anos, integra um trio vocal feminino, as Teenage Singers, e participa de shows e festas em colégios. O trio é descoberto por Tony Campello e passa a fazer coro para as gravações dos Jet Blacks, Demetrius e Prini Lorez. Em 1964, junta-se ao trio masculino Wooden Faces, formando o Six Sided Rockers, depois O'Seis. Com a saída de três membros, Rita e os irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Baptista passam a se chamar O Konjunto, depois Os Bruxos.

No programa O Pequeno Mundo de Ronnie Von, da TV Record, recebem o nome Os Mutantes, em 1966. Com a banda, Rita acompanha Gilberto Gil em Domingo no Parque no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, de 1967, participa do disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis, apresenta-se com Caetano Veloso no 3º Festival Internacional da Canção, em 1968, na TV Globo, em É Proibido Proibir, e grava com ele um compacto duplo com a canção Marcianita, de Sérgio Murilo. Participa dos cinco discos da banda Os Mutantes (1968), Mutantes (1969), A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970), Jardim Elétrico (1971), Mutantes e Seus Cometas no País dos Bauretz (1972).

Rita inicia a carreira solo com Build Up (1970), com direção musical de Arnaldo Baptista, parcerias com ele e Élcio Decário, arranjos de Rogério Duprat e show com direção do dramaturgo Antonio Bivar; e Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida (1972), acompanhada pelos Mutantes. Em 1973, forma com Lúcia Turnbull uma dupla de folk rock, As Cilibrinas do Éden, cuja única gravação é ao vivo em São Paulo, no festival Phono 73.1 Atrás do Porto Tem uma Cidade (1974) é o primeiro disco de Rita com o grupo Tutti Frutti, que a acompanha em mais quatro álbuns. Lança Refestança, registro de turnê com Gilberto Gil, em 1977. A partir de 1979, produz seus discos em parceria com o marido, Roberto de Carvalho, com destaque para Rita Lee (1979-1980) e Saúde (1981). Apresenta-se na abertura da turnê da banda britânica Rolling Stones, em 1995. Lança Aqui, Ali, em Qualquer Lugar (Bossa´n´Beatles), em 2001, e o álbum Balacobaco, em 2003. No ano seguinte, a cantora Ná Ozetti grava um tributo à roqueira e lança Lovelee Rita.

Como atriz e apresentadora, atua no filme Dias Melhores Virão (1989), de Cacá Diegues; no curta-metragem Tanta Estrela por Aí... (1992), pelo qual ganha prêmio no Festival de Cinema em Gramado; e em Durval Discos (2001), de Ana Muylaert. Faz pontas nas novelas Top Model (1989) e Vamp (1991), de Antonio Calmon; comanda o programa TVLeezão na MTV, em 1991; e integra o programa Saia Justa, da GNT, entre 2002 e 2004. Publica livros de temática ecológica para um público infantil: Dr. Alex - Quem Canta Conta (1986), Dr. Alex e os Reis de Angra (1988), e Dr. Alex na Amazônia (1990).

Comentário Crítico
Rita Lee tem uma carreira musical multifacetada iniciada com os experimentalismos da primeira fase com Os Mutantes, vai pelo rock - entre o blues e o hard rock - com a banda Tutti Frutti e com Roberto de Carvalho passa para a fusão de rock, pop e MPB. Torna-se conhecida com Os Mutantes a partir de 1967, participa do disco Tropicália ou Panis et Circensis, em 1968, e dos festivais de música popular brasileira nas TVs Record e Globo. Esses festivais mobilizam plateias de jovens influenciados de modo geral pelo projeto nacional-popular que embasa o Centro Popular de Cultura da União Nacional de Estudantes (1961-1964) e o Teatro Opinião. Numa época de polarização ideológica vivenciada no período da ditadura militar, noções como engajamento versus alienação política e nacionalismo versus cosmopolitismo estão em voga, são valorizados os artistas que adotam a estética de harmonias e melodias elaboradas, porém comprometidos com a ideia de brasilidade; que utilizam elementos musicais considerados autenticamente nacionais, seja na escolha de instrumentos como o violão acústico e percussão afro-brasileira, seja na recorrência a ritmos tradicionais como o baião, as toadas nordestinas e o samba.

Em sua primeira participação no Festival da Record, em 1967, com Os Mutantes acompanhando a apresentação de Gilberto Gil interpretando Domingo no Parque, causam polêmica com suas roupas coloridas, cabelos compridos e guitarras elétricas. Sob a égide da bandeira tropicalista, Os Mutantes voltam a atuar de maneira provocativa no 3º Festival Internacional da Canção, da TV Globo, em 1968. Rita Lee surge vestida de noiva grávida para defender Caminhante Noturno, causando reações de repúdio na plateia justamente numa música cuja letra pode ser considerada engajada por aludir às "trevas" de um período de perseguição e censura imposto pelo regime. No mesmo festival, acompanham Caetano Veloso na combativa É Proibido Proibir e são vaiados pelo público.

O experimentalismo de Os Mutantes acaba por afastá-los do rock ingênuo da Jovem Guarda e os expõe ao crivo da censura e provoca reações entre os partidários puristas da MPB. Com a banda, Rita Lee lida de modo irreverente com várias tradições - sejam elas ritmos regionais brasileiros, samba-canção ou dicções latinas -, trabalhando-as por via do pastiche, mas mais comumente da paródia. É o que se vê em gravações de canções de outros artistas, como Minha Menina, de Jorge Ben, Adeus Maria Fulô, de Humberto Teixeira e Sivuca, e na versão francamente debochada de Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa; mas também em composições próprias, como Dois Mil e Um, de Rita e Tom Zé, em que o sotaque capiau dos intérpretes contrasta ironicamente com terminologias como "astronauta", "galáxia", "computador" e "velocidade da luz", o mesmo ocorrendo no plano instrumental pelo choque de viola e chocalho com efeitos sonoros e instrumentos eletrificados; e El Justiciero e Cantor de Mambo, ambos rocks latinizados - o primeiro cantado em inglês e em portunhol e com cha-cha-cha no refrão; o segundo traz a história de um exilado brasileiro que tenta ganhar a vida nos Estados Unidos como cantor de mambo.

A liberdade estética dos tempos de Os Mutantes acompanha a atitude de Rita Lee mesmo quando ela se dirige ao sucesso diante do público mainstream: a ênfase no humor engajado e o trânsito entre gêneros musicais nacionais e estrangeiros estão sempre presentes, mesmo em seus trabalhos de teor mais roqueiro ou pop.

Com a banda Tutti Frutti, a postura de palco de Rita mostra uma teatralidade menos brejeira e explora o lado sensual em performances inspiradas no glitter rock de David Bowie, mais condizentes com a de um superastro. Isso se reflete no uso cuidadoso de maquiagem, roupas e adereços identificados com a "modernidade" da época; e numa postura mais centralizadora sob os holofotes, cantando todas as músicas e manejando instrumentos variados. Nesse momento, favorecida pelo acompanhamento de instrumentistas íntimos da linguagem do rock, como o baixista Lee Marcucci e o guitarrista Luis Sérgio Carlini - o solo de Carlini ao final de Ovelha Negra é dos mais lembrados do rock brasileiro -, Rita fixa uma imagem de musa roqueira antenada, em antagonismo com a ingenuidade das divas antecessoras como Celly Campello e Wanderléa. As letras de algumas de suas canções ajudam a criar essa sintonia, como em Dançar pra Não Dançar, Fruto Proibido e Esse tal de Roque Enrow. O flerte com a loucura, explorado com Os Mutantes em canções como A Balada do Louco, ressurge novamente em tom de manifesto em Luz Del Fuego. Em Arrombou a Festa, parceria com Paulo Coelho, relata, de forma cômica e ambígua, a entrada na antes engajada e excludente MPB de músicos como Raul Seixas, Benito de Paula, Odair José e Gilberto Gil (com quem Rita canta essa música, em excursão que resulta no álbum Refestança).

Na parceria com Roberto de Carvalho, são marcantes as baladas pop românticas Mania de Você, Doce Vampiro, Baila Comigo, Caso Sério, Flagra, Saúde, Nem Luxo Nem Lixo e Amor e Sexo, esta tem a letra retirada de uma crônica homônima de Arnaldo Jabor. Em 1978, Rita é citada por Caetano Veloso na música Sampa como a "mais completa tradução" da cidade. Com a canção Lança Perfume, de 1980, Rita está mais focada na música para dançar, sem preocupações políticas e ideológicas. A composição torna-se um hit e faz com que suas apresentações lotem estádios e casas de espetáculos pelo Brasil. Em seu repertório inclui releituras de marchinhas como Mamãe Eu Quero, de Jararaca e Vicente Paiva; Chiquita Bacana, de Alberto Ribeiro e João de Barro; e Joujoux e Balangandãs, de Lamartine Babo, gravado com João Gilberto em programa especial da TV Globo em 1980, lançado no disco João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Sua obra faz referências a diversos gêneros musicais, passando pelo rock dos Beatles, pop, bossa nova, samba-rock e baião.

Note
1 O disco gravado em estúdio entre o fim de 1973 e início de 1974, com dez faixas, Mamãe Natureza (regravado em Saúde, 1981), com Lúcia Turnbull, Paixão da Minha Existência Atribulada, Festival Divino, Bad Trip e uma releitura de Minha Fama de Mau, de Erasmo Carlos, é lançado apenas em LP pirata, em edição importada, limitada a 500 exemplares, em 2008.

Obras 1

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Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Rita Lee

Placas de borracha e.v.a sobre mdf

Fontes de pesquisa 13

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  • BARTSCH, Henrique. Rita Lee mora ao lado: uma biografia alucinada da rainha do rock. São Paulo, Panda Books, 2006.
  • CALADO, Carlos. A divina comédia dos Mutantes. São Paulo, Editora 34, 2006.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • NAPOLITANO, Marcos. "O conceito de 'MPB' nos anos 60". In História - Questões & Debates. Ano 16, no 31, julho a dezembro de 1999, pp. 11-30.
  • NAVES, Santuza Cambraia. Canção Popular no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. 159 p. (Coleção Contemporânea).
  • RIBEIRO, Julio Naves. Lugar nenhum ou Bora Bora?: narrativas do rock brasileiros anos 80. São Paulo: Annablume, 2009.
  • RITA LEE. Combate Rock-Jornal da Tarde. Disponível em: http://blogs.estadao.com.br/combate_rock/tutti-frutti-e-rita-lee-esse-tal-de-rock-acertou/ Acesso em 13 Julho 2011.
  • RITA LEE. In: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Instituto Cultural Cravo Albin. Disponível em: http://www.dicionariompb.com.br/rita-lee. Acesso em 13 Julho 2011.
  • RITA LEE. In: Rita Lee etc. Disponível em: http://www.ritalee.com.br/. Acesso em 11 Julho 2011.
  • RITA LEE. In: Uol entretenimento-música. http://www2.uol.com.br/ritalee/biografia.htm. Acesso em 15 Julho 2011.
  • RITA LEE. In: Whiplash.net. São Luis. Disponível em: http://whiplash.net/materias/biografias/038389-ritalee.html. Acesso em 14 Julho 2011.
  • RODRIGUES, Fábio. In: Rita Lee: "Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida" (1972) - Encarte da reedição em Cd.
  • SANTIAGO, Silviano. "Caetano Veloso enquanto superastro" In: Uma literatura nos trópicos: ensaios sobre dependência cultural. São Paulo, Perspectiva, 1978.

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