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Música

João Pacífico

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.08.2017
05.08.1909 Brasil / São Paulo / Cordeirópolis
30.12.1998 Brasil / São Paulo / Guararema
João Batista da Silva (Cordeirópolis, São Paulo, 1909 - Guararema, São Paulo, 1998). Compositor e cantor. João Pacífico nasce em 5 de agosto de 1909 na fazenda Cascalho, no atual município de Cordeirópolis, São Paulo. A avó, ex-escrava, e a mãe, Domingas, trabalham na cozinha da fazenda, e seu pai, José Batista da Silva, é maquinista da Companhi...

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Biografia

João Batista da Silva (Cordeirópolis, São Paulo, 1909 - Guararema, São Paulo, 1998). Compositor e cantor. João Pacífico nasce em 5 de agosto de 1909 na fazenda Cascalho, no atual município de Cordeirópolis, São Paulo. A avó, ex-escrava, e a mãe, Domingas, trabalham na cozinha da fazenda, e seu pai, José Batista da Silva, é maquinista da Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF). Durante a infância na fazenda convive com cantadores, violeiros e batuqueiros que fazem parte do cotidiano rural e também escuta a filha do proprietário tocar piano. Ao chegar à idade escolar transfere-se com a família para a cidade de Limeira, São Paulo. Ali aprende, sem muito sucesso, a tocar bateria em um pequeno conjunto e em 1919, muda-se para Campinas

Viaja para a cidade de São Paulo em 1924, em busca de trabalho, mas só consegue empregos passageiros. Retorna a Campinas no fim da década para trabalhar como ajudante de cozinha no vagão-restaurante da CPEF. Em uma das viagens, no início dos anos 1930, conhece o poeta Guilherme de Almeida (1890-1969) e lhe apresenta alguns de seus versos. O poeta recomenda que procure na capital paulista o cantor Paraguassu, na Rádio Cruzeiro do Sul. Ao voltar à capital, João Pacífico procura o cantor, que o encaminha ao compositor Raul Torres, pois julga que suas composições são mais adequadas ao repertório desse cantor. Desse encontro nasce sua primeira parceria com Raul Torres, a embolada Seu João Nogueira (1935), e surge o nome artístico "Pacífico", que recebe dos colegas de rádio em razão de sua personalidade amena e pacata.

Nas décadas de 1930 e 1940, a parceria produz dezenas de composições, como Chico Mulato (1936), Cabocla Tereza (1940), No Mourão da Porteira (1942) e Pingo d'Água (1944). As gravações e interpretações são das duplas Torres e Serrinha e depois Torres e Florêncio, que colaboram para consagrá-las como gênero sertanejo. Na década seguinte, amplia seu universo para outros gêneros e novas parcerias. Além disso, intérpretes como Tonico e Tinoco, Nelson Gonçalves e Luisinho e Limeira gravam suas composições. Paralelamente, mantém outros empregos, fato comum entre os músicos populares da época, pois a atividade artística ainda é precária em seu aspecto financeiro. No banco Ítalo-Belga segue carreira e se aposenta após 38 anos de trabalho. Esse emprego é que lhe dá condições e tranquilidade para cuidar da família.

Reúne suas composições na gravação dos LPs Pingo d'Água (1970) e João Pacífico (1979). Nos anos 1970, faz parceria com Adauto Santos, e organiza um trio formado pelos dois, mais Freddy (Frederico) Mogentale. Sebastião Pereira dirige o filme Cabocla Tereza, em 1980, inspirado em canção homônima, com a atriz Zélia Martins como personagem-título, para o qual João Pacífico compõe músicas inéditas.

Com as mudanças ocorridas no gênero nos anos 1980, as composições de João Pacífico deixam de interessar aos novos intérpretes e gravadoras. Sua obra fica limitada aos programas de resgate das tradições caipiras e lembranças de suas origens. Com a morte da mulher de João Pacífico, em 1990, ele é convidado pelo amigo e antigo parceiro Frederico Mogentale e sua esposa, Maria Antônia, a morar em um sítio em Guararema, São Paulo. Segundo o casal, ali ele continua compondo até sua morte, em 30 de dezembro de 1998.

Análise

A obra musical de João Pacífico é produzida no processo de formação do que se convenciona chamar de música caipira ou sertaneja. Na passagem dos anos 1920 e 1930, a cultura caipira originária do interior de São Paulo ocupa um lugar nos novos meios de difusão, como o rádio e discos, e nos palcos dos teatros de revista e de variedades. Inicialmente se destaca a figura isolada de Cornélio Pires com suas criações musicais, poéticas e humorísticas, difundidas em teatro e disco. O êxito dos discos da série caipira de Cornélio, vendidos de forma independente, estimula o interesse das gravadoras e emissoras de rádio, que tratam de apresentar discos e programas com essa temática regional.

Assim, as duplas caipiras, os cantores e programas sertanejos, raros na cidade até o início dos anos 1930, ampliam seu espaço nos meios de comunicação. Nesse ritmo, a cultura e a música caipira saltam rapidamente, sem muitas transições e intermediações, de seu espaço cultural de origem rural e local para o universo dos meios de comunicação de massa das indústrias fonográfica e radiofônica. João Pacífico é um dos primeiros protagonistas dessa troca de experiências de dimensões tão relevantes.

Nascido em uma pequena cidade paulista interiorana, João Pacífico passa integralmente a sua vida em cidades grandes, como Campinas e São Paulo. Apesar disso, as referências culturais rurais não se perdem, e o compositor sabe fazer uso delas, adaptando-as à nova cultura urbana em formação, marcada profundamente pelos meios de comunicação. Ele sabe traduzir os sentimentos e as temáticas rurais, provincianas, trágicas e ingênuas típicas da tradição caipira, geralmente expostas em extensas e longas canções e histórias, para uma nova poética e para o tempo da indústria fonográfica e radiofônica, e torna-se um autêntico intermediário entre essas culturas.

Sua obra de certo modo representa uma síntese e ao mesmo tempo colabora para consolidar essas histórias e temáticas como sendo próprias da música sertaneja. A maior parte de suas composições aborda as muitas faces do cotidiano do caipira. A natureza aparece de diversas formas e de modo recorrente em suas canções, e muitas vezes a exaltação dessa natureza se confunde com a vida rural e a do sertão. Colocada em contraste com o mundo moderno e urbano, a vida interiorana tende a desaparecer e, por isso, é vista com a saudade de uma perda sentida e profunda. A saudade também está presente nas canções de amor. Geralmente elas transitam entre a revelação de um sentimento ingênuo e puro, muitas vezes abandonado, e um desfecho que pode ser trágico. Essas temáticas aparecem isoladamente ou em conjunto, como é mais comum, e surgem em canções como Mourão da Porteira, Tapera Caída, Chico Mulato e Cabocla Tereza.

Nas duas últimas canções João Pacífico apresenta como novidade o que ele denomina de "toada histórica". Antes de iniciar as quadras poéticas musicadas, isto é, a canção propriamente dita, há uma longa introdução declamada, que na verdade mostra o enredo e prepara o espírito do ouvinte. Esse tipo de canção cria nos anos 1930 e 1940 um problema técnico para a indústria fonográfica, pois tende a ultrapassar o padrão de três minutos dos discos, que acaba sendo resolvido com a diminuição dos sulcos justamente para otimizar e expandir o tempo da gravação.

A trajetória de João Pacífico começa a mudar de direção em meados do anos 1950, assim como a de toda a música sertaneja. Além da larga influência que o gênero sofre de outros ritmos latino-americanos, as transformações tecnológicas anunciam o aparecimento do LP e a ascensão da televisão, que rapidamente ocupa lugar do rádio como principal meio de difusão da música popular. Influenciado pelos gêneros ibero-americanos, João Pacífico compõe uma guarânia com o sugestivo nome Tema Novo. Compõe o hino Treze Listras (1954) em comemoração ao quarto centenário de São Paulo e coloca letra no choro Doce de Coco (1954), de Jacob do Bandolim.

Apesar de continuar compondo, nas décadas seguintes, sua importância e influência no desenvolvimento do gênero diminuem significativamente. Com isso, as duplas e intérpretes deixam de gravar suas composições antigas e as novas, a não ser em ocasiões especiais de reunião de sua obra em LP. Enfim, sua obra fica ligada a um passado distante e vinculada a uma originalidade e pureza do gênero.

Fontes de pesquisa 12

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  • ACERVO Instituto Moreira Salles. Disponível em: <http://acervos.ims.uol.com.br>. Acesso em: 21 set. 2009.
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  • CALDAS, Waldenyr. O que é música sertaneja. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987. Coleção Primeiros Passos 186.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • FERRETE, J.L.. Capitão Furtado: música caipira ou sertaneja? Rio Janeiro, Funarte, 1985.
  • MORAES, José Geraldo Vinci. Metrópole em sinfonia. História, cultura e música popular na São Paulo dos anos 30. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2000.
  • MUGNANI JUNIOR., Ayrton, Enciclopédia das músicas sertanejas. São Paulo: Letras e letras, 2001.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música Caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 1999.
  • PACÍFICO, João. João Pacífico. A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes. CD, Dir, J.C. Botezelli, SESC-SP. Gravação original do Programa Ensaio, Fundação Padre Anchieta, dir Fernando Faro, 1991.
  • TINHORÃO, José Ramos. Os gêneros rurais urbanizados. In: Pequena história da música popular. São Paulo: Circulo do livro, s/d.
  • WEIDEBACH,Paulo. João Pacífico, o caipira de São Paulo. São Paulo: Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo; Vídeo Imagem; Turiaçu Studios; Movie Center, 2002. Longa-metragem / Sonoro / Não ficção. 16mm, COR, 74min, 814m, 24q.

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