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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

André Klotzel

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.10.2016
1954 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

A Marvada Carne [cartaz], 1985
Fernando Pimenta, Walter Rogério, André Klotzel
Desenho
65,00 cm x 90,00 cm

André Klotzel (São Paulo, São Paulo, 1954). Diretor de cinema, roteirista, produtor e montador. Estuda cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), entre 1973 e 1978, realizando, durante a faculdade, os curtas-metragens Eva (1975) e Os Deuses da Era Moderna (1977). No curso, frequenta as aulas do crítico Paulo...

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Biografia
André Klotzel (São Paulo, São Paulo, 1954). Diretor de cinema, roteirista, produtor e montador. Estuda cinema na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), entre 1973 e 1978, realizando, durante a faculdade, os curtas-metragens Eva (1975) e Os Deuses da Era Moderna (1977). No curso, frequenta as aulas do crítico Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), professor que o influencia, especialmente ao tratar do conceito de cinema popular.

Em 1974, estagia nas produtoras da Boca do Lixo. Trabalha como assistente de produção em Exorcismo Negro (1974), do cineasta José Mojica Marins (1936), nos episódios de Adriano Stuart (1942-2012) em Cada um Dá o que Tem (1975) e Sabendo Usar Não Vai Faltar (1975), e como assistente de direção em Kung Fu Contra as Bonecas (1976), também de Stuart. É assistente de produção em Curumin (1978), de Plácido Campos (1944), e assistente de direção em Na Estrada da Vida (1980), de Nelson Pereira dos Santos (1928). Em Janete (1982), de Chico Botelho (1948-1991), além de assistente de direção é corroteirista.

Dirige o curta-metragem Gaviões (1982), documentário a respeito do universo da torcida corinthiana. Funda, em 1983, com os fotógrafos Pedro Farkas (1954) e José Roberto Eliezer (1954), e com o diretor Ricardo Dias (1950) e Zita Carvalhosa (1960) a Cinematográfica Superfilmes, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. A Superfilmes se associa a Tatu Filmes para produzir seu primeiro longa-metragem, A Marvada Carne (1985), que ganha 11 prêmios no 13º Festival de Gramado, participa da Semana da Crítica, no Festival de Cannes, e leva mais de 800 mil pessoas aos cinemas.1

Produz o longa-metragem Anjos da Noite (1987), de Wilson Barros (1948-1992). Dirige o curta No Tempo da II Guerra (1989) e começa a trabalhar em Capitalismo Selvagem, longa-metragem que conclui em 1993. No final dos anos 1990, adapta o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor Machado de Assis (1839-1908), lançado em 2001. Deixa a Superfilmes e funda a Brás Filmes em 2006. Dirige Reflexões de um Liquidificador, seu primeiro longa em que não escreve o roteiro.

Comentário crítico
Nos anos 1980, em São Paulo, um grupo de cineastas, muitos deles formados na ECA/USP, estreia longas-metragens em um modo de produção diverso ao da Boca do Lixo, polo industrial que começa a sofrer pressões comerciais para realizar filmes de sexo explícito. Esses realizadores propõem uma nova via para o cinema popular. É a chamada renovação do cinema paulista, capitaneada principalmente por produtoras sediadas na Vila Madalena (Tatu Filmes, Superfilmes, Gira Filmes e Barca Filmes) – o que acaba identificando essa fase como cinema da Vila Madalena, ainda que vários dos cineastas não façam parte do grupo. André Klotzel é um dos principais nomes desse cinema devido à estreia de A Marvada Carne, que recebe grande número de espectadores e críticas positivas.

No seu primeiro longa-metragem, aposta no que se torna o traço mais marcante de sua obra: forte e constante ironia no texto e na construção dramática, aliada a uma composição visual verista – direção de arte, fotografia e som muito próximos da realidade – e a uma encenação dos atores que se esmera na naturalidade dos eventos. Em A Marvada Carne, o cineasta parte de uma história que soa absurda, baseada na peça Na Carrera do Divino (1979), do dramaturgo e corroteirista Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) – um caipira que deseja, acima de tudo, comer carne de boi –, mas que é teorizada no livro Os Parceiros do Rio Bonito, do crítico literário Antonio Candido (1918). Para Candido, pessoas que habitam regiões isoladas e não conseguem ter acesso a alguns tipos alimentos, passam a sentir fome psicológica, mesmo que se alimentem corretamente.  Dentro da cultura caipira, o diretor se baseia no escritor especializado Cornélio Pires (1884-1958) e no ator Genésio Arruda (1898-1967), um dos pioneiros em interpretar o tipo interiorano, para criar a saga de Nhô Quim, personagem de Dionísio Azevedo (1922-1994), utilizando aspectos farsescos e lúdicos na história – caso, por exemplo, da estatueta de Santo Antônio, muito requisitada por Carula, interpretada por Fernanda Torres (1965), que responde às falas dela com expressões faciais diversas. Esse “falso naturalismo”, como o crítico de cinema Jean-Claude Bernardet (1936) define tal característica, permeia toda a obra de Klotzel. Para ele, a chave da ironia baseia-se na máxima que, “apesar de toda essa verossimilhança, uma fábula está sendo contada”2.

Na mesma linha, Memórias Póstumas de Brás Cubas traz muito dessas características do texto de Machado de Assis, reconhecido pela acidez irônica. Klotzel transforma seu narrador-personagem Brás Cubas, interpretado por Reginaldo Faria (1937), em mestre de cerimônias do longa, observando os fatos enquanto os conta. Já Reflexões de um Liquidificador é uma comédia com aspectos similares, porém mais mordaz e repleta de humor negro e macabro, por conta de sua temática, a morte.

Parte significativa da construção de tais características na obra de Klotzel vêm do uso da narração em off de um personagem central na história. O discurso subjetivo conduz a trama em suas ficções, dando o tom farsesco à narrativa. Pela ausência desse elemento, Capitalismo Selvagem é seu filme mais diferente. A comédia busca criticar a linguagem exagerada e a trama rocambolesca das telenovelas, mas não o faz explicitamente, talvez devido à ausência da narração em off. O próprio cineasta se queixa da falta de entendimento pelo público à época do lançamento, pois achava-se que havia feito um filme-denúncia sobre a questão indígena.3

O uso do off criativo e bem-humorado também dá o tom para a maioria de seus curtas documentais, como Brevíssima História das Gentes de Santos (1996) e O Bom Retiro É o Mundo (2006), realizados respectivamente para a Prefeitura de Santos e para o projeto História dos Bairros de São Paulo. Tal característica e o uso de elementos ficcionais – aspecto que vem utilizando desde Gaviões – marcam seu trabalho como documentarista.

Notas
1 FILMES brasileiros com mais de 500.000 espectadores: 1970 a 2011. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: http://oca.ancine.gov.br/media/SAM/DadosMercado/2105.pdf. Acesso em: 18 abr. 2012.
2 BERNADET, Jean-Claude. Os jovens paulistas. In: O desafio do cinema. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p. 80.
3 Cf. CARNEIRO, Gabriel. Entrevista com André Klotzel. Revista Zingu!, ed. 37. São Paulo, nov.-dez. 2009. Disponível em: http://revistazingu.blogspot.com.br/2010/04/dakentrevista3.html. Acesso em: 20 abr. 2012.

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Fontes de pesquisa 31

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  • AB’SABER, Tales Afonso Muxfeldt. A imagem fria: cinema e crise do sujeito no Brasil dos anos 80. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. p. 61-108.
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  • ARAUJO, Inácio. Liquidificador é narrador de filme com câmera surpreendente. Folha de S.Paulo. São Paulo, 14 dez. 2011, Ilustrada, p. E10.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Os Jovens Paulistas. In. XAVIER, Ismail.; BERNARDET, Jean-Claude.; PEREIRA, Miguel. O desafio do cinema: a política do Estado e a política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.
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  • CARNEIRO, Gabriel. Entrevista com André Klotzel. Revista Zingu!, ed. 37. São Paulo, nov.-dez. 2009. Disponível em: < http://revistazingu.blogspot.com.br/2010/05/dak-entrevista.html>. Acesso em: 20 abr. 2012.
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  • COUTO, José Geraldo. Ambiguidades marcam ‘Capitalismo Selvagem’. Folha de S.Paulo. São Paulo, 6 set. 1993, Ilustrada, p. 4.
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  • DE OLARIA para Helsinque: a história de um salto. In: Memória do esporte olímpico brasileiro. Disponível em: < http://www.memoriadoesporte.org.br>. Acesso em: 21 abr. 2012.
  • DOSSIÊ André Klotzel. Revista Zingu!, ed. 37. São Paulo: nov.-dez. 2009. Disponível em: <http://revistazingu.blogspot.com.br/2010/05/edicao-37.html >. Acesso em: 20 abr. 2012.
  • FILMES brasileiros com mais de 500.000 espectadores: 1970 a 2011. Rio de Janeiro, 2011. Disponível em: <http://oca.ancine.gov.br/media/SAM/DadosMercado/2105.pdf>. Acesso em: 18 abr. 2012.
  • GARDNIER, Ruy. Memórias Póstumas, de André Klotzel. Contracampo, Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.contracampo.com.br/criticas/memoriaspostumas.htm>. Acesso em: 20 abr. 2012.
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  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000. R791.430981 E56
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