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Cao Hamburger

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.10.2019
13.02.1962 Brasil / São Paulo / São Paulo
Carlos Império Hamburger (São Paulo, São Paulo, 1962). Diretor, produtor, roteirista. Filho de Ernst e Amélia Império Hamburger, professores de física da Universidade de São Paulo. É sobrinho de Flávio Império (1935-1985), um dos mais importantes cenógrafos e diretores de arte do Brasil.

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Carlos Império Hamburger (São Paulo, São Paulo, 1962). Diretor, produtor, roteirista. Filho de Ernst e Amélia Império Hamburger, professores de física da Universidade de São Paulo. É sobrinho de Flávio Império (1935-1985), um dos mais importantes cenógrafos e diretores de arte do Brasil.

Começa a carreira cinematográfica realizando curtas de animação com Frankenstein Punk (1986), dividindo a direção com Eliana Fonseca (1962), e A Garota das Telas (1988). Em 1994, dirige Castelo Rá-Tim-Bum para a TV Cultura de São Paulo. A série transforma-se em um dos maiores sucessos da televisão pública paulista, com cerca de 90 episódios, premiada, em 1994, com a Medalha de Prata – categoria infantil – no festival de Nova York.

Cao estreia no cinema de longa-metragem com o filme Castelo Rá-Tim-Bum (1999), baseado na série televisiva. A fita recebe, em 2000, o prêmio de Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema Infantil de Chicago.

Em 2006, cria e dirige, para o canal HBO, a primeira temporada da série Filhos do Carnaval, que tem como tema a luta pelo poder no interior da família Gebara, comandada pelo patriarca e bicheiro Anésio. Em 2009, apresenta a segunda temporada da série.

O retorno ao cinema ocorre com O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006). O filme revê o Brasil da ditadura militar da década de 1970 pelo olhar do protagonista Mauro, um garoto de 12 anos. Em 201, dirige Xingu, obra que conta a trajetória dos irmãos indianistas Cláudio (1916-1998), Orlando (1914-2002) e Leonardo Villas Bôas (1918-1961) e a viagem para o interior do Brasil que resulta na criação do Parque Indígena do Xingu (PIX). O PIX é a primeira reserva indígena criada no Brasil, localizado na região nordeste do Estado de Mato Grosso, porção sul da Amazônia brasileira.

Cria com o diretor Teodoro Poppovic, as séries Pedro e Bianca, que marca sua volta à TV Cultura, em 2012. A série conta, por meio das experiências dos irmãos gêmeos, os desafios da adolescência e ganha o Internacional Emmy Kids Awards (2014) como melhor série de 2013.

Análise

Ao transpor o Castelo Rá-Tim-Bum para o cinema, em 1999, Cao Hamburger vence o desafio de repetir na tela grande o sucesso da atração infantil na TV Cultura. A primeira imagem que o filme oferece é a da tela escura, sobre a qual lemos os créditos iniciais, que é tomada de repente por uma visão do alto da acinzentada cidade de São Paulo, com seus edifícios dominando a paisagem. Uma música vibrante contrasta com a visão da metrópole e acompanha o movimento de uma pipa de cores vivas que rompe com a monotonia do cenário de concreto. Este “convívio” de mundos diferentes constitui uma das características do filme.

Segundo Luiz Zanin Oricchio, a magia refinada da obra de Cao Hamburger está na aproximação de elementos díspares como física dos planetas e poderes místicos, o mundo atemporal do Castelo do cotidiano brasileiro tomado pela especulação imobiliária e corrupção no serviço público1.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias retoma o tempo da ditadura militar (1964-1985) em sua fase mais violenta, sob a presidência do General Emílio Garrastazu Médici (1905-1985), entre outubro de 1969 e março de 1974 pelo olhar do garoto Mauro.

Os pais de Mauro, militantes de esquerda, entraram na clandestinidade e são obrigados a sair de Minas Gerais às pressas em direção a São Paulo, onde deixam o filho na casa de seu avô. No mesmo dia em que ele chega, o avô morre e o menino fica sob os cuidados de Shlomo, um velho judeu do bairro do Bom Retiro. Mauro é obrigado a se adaptar ao novo bairro paulistano e aos efeitos da violência política brasileira do período, que interfe em seu espaço familiar. Tudo isso em meio à Copa do Mundo de Futebol, realizada no México em 1970, que Mauro acompanha apaixonadamente.

O futebol é um importante elemento do filme. Logo na primeira cena, o menino brinca com um jogo de botões enquanto o ouvimos dizer, em voz off, que os goleiros passam a vida sozinhos, esperando o pior acontecer. Mauro vê a história se desenrolar a sua frente e pode contar somente com a ajuda daqueles que estão ao seu lado para evitar que a bola entre. Quando o atacante adversário está diante dele, sem ninguém para defendê-lo, ele conta apenas consigo para continuar “vivo” na partida. Para Augusto Sarmento-Pantoja, “o estado de prontidão é o que aproxima o goleiro de um exilado. É o que Mauro é, mas não sabe. É o que Mauro será, mas não imagina. Não pode falhar! Ficar Isolado!”2.

Com Xingu, Hamburger lança o olhar sobre um Brasil distante, geográfica e culturalmente, da maior parte dos brasileiros. Por meio da epopeia dos irmãos Villas Bôas, o cineasta relata o contato aberto e generoso, sem o desejo de espoliação, de indivíduos com os índios.

Numa entrevista, o cineasta afirma que os Villas Bôas são personagens deslocados, pois não se sentem à vontade na cidade, nem integrados ao universo dos índios3. Todavia, eles não realizam a travessia visando explorar os nativos e as riquezas da região, e sim, compreender e tentar preservar uma cultura ameaçada pela civilização.

Embora tenha se destacado na televisão com os olhos voltados para o público infantil, a produção cinematográfica de Cao Hamburguer traz diversidade e engajamento. Passa por sucessos como Castelo Rá-Tim-Bum, sem deixar de lado a crítica, ao referir-se à especulação imobiliária que ameaça o castelo em meio a cidade de São Paulo. Lida com temas que envolvem a história cultural e política do país desde a expedição dos irmãos Villas Bôas, até a ditadura militar e sua repressão aos opositores. O diretor antecipa o trânsito entre televisão e cinema, natural entre os profissionais da área.

Notas

1. ORICCHIO, Luiz Zanin. Ver ‘Castelo’ no cinema é programa obrigatório. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 dez. 1999. Caderno 2, p. D-3.

2. SARMENTO-PANTOJA, Augusto. O jogo como estratégia de defesa, sedução e erotismo no cinema latino americano. Anais do SILEL. Volume 2, n. 2. Uberlândia, EDUFU, 2011, p. 3.

3. MERTEN, Luiz Carlos. Irmãos no exílio. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 5 abr. 2012. Caderno 2, p. D-7.

 

Obras 1

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Mostras audiovisuais 5

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Mídias (1)

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Depoimento - Cao Guimarães
Produção Documenta Brasil e Itaú Cultural

Fontes de pesquisa 13

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  • ARANTES, Silvana. Ame-o ou deixe-o. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 out. 2006. Ilustrada, p. E-1.
  • CAETANO, Daniel (org.). Cinema brasileiro: 1995-2005. Ensaios sobre um década. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2005. 352 p.
  • COUTO, José Geraldo. Drama com bela história simples comove sem abrir mão da inteligência. Folha de S.Paulo, São Paulo, 25 out. 2006. Ilustrada, p. E-1.
  • HAMBURGER, Cao. Entrevista: Cao Hamburger. Revista de Cinema, São Paulo, 6 ago 2015. Disponível em: http://revistadecinema.uol.com.br/2015/08/entrevista-cao-hamburger/. Acesso em: 23 mar. 2016.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Irmãos no exílio. O Estado de São Paulo, São Paulo, 5 abr. 2012. Caderno 2, p. D-7.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Nino criança é a alma do filme que não teme ousar. O Estado de São Paulo, São Paulo, 31 dez. 1999. Caderno 2, p. D-3.
  • NAGIB, Lúcia. A utopia no cinema brasileiro: matrizes, nostalgia, distopias. São Paulo: Cosac & Naify, 2006. 216 p.
  • NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Cinema de novo: um balanço crítico da retomada. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Ver ‘Castelo’ no cinema é programa obrigatório. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 31 dez. 1999. Caderno 2, p. D-3.
  • PRADO, Luís André do. A animação brasileira revela seu talento. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 set. 1988. Caderno 2, p. D10.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • SARMENTO-PANTOJA, Augusto. O jogo como estratégia de defesa, sedução e erotismo no cinemalatino americano. Anais do SILEL, Uberlândia, v. 2, n. 2, p. 3, 2011.

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