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Cinema

Leon Hirszman

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.10.2018
22.11.1937
16.09.1987
Leon Hirszman (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937 – Idem, 1987). Diretor, produtor, roteirista. Filho de imigrantes judeus poloneses. Aos 14 anos, por influência do pai, entra para o Partido Comunista. Em 1956, ingressa na Escola Nacional de Engenharia, onde funda seu primeiro cineclube. Conclui os estudos, mas não exerce a profissão. Tem o pr...

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Biografia

Leon Hirszman (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937 – Idem, 1987). Diretor, produtor, roteirista. Filho de imigrantes judeus poloneses. Aos 14 anos, por influência do pai, entra para o Partido Comunista. Em 1956, ingressa na Escola Nacional de Engenharia, onde funda seu primeiro cineclube. Conclui os estudos, mas não exerce a profissão. Tem o primeiro contato com a realização cinematográfica como assistente na filmagem de Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos (1928). Em 1958, com o cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988), funda a Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro e, mais tarde, o movimento Cinema Novo.

Ao aproximar-se do grupo Teatro de Arena – formado, entre outros, pelo diretor Augusto Boal (1931-2009) e pelo ator Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006) –, participa da montagem da peça Chapetuba Futebol Clube (1959), de Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974). Em 1961, colabora com a fundação do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE) e dirige seu primeiro filme, "Pedreira de São Diogo", um dos episódios do longa-metragem Cinco Vezes Favela (1962). No longa, também trabalha como produtor. Entre 1963 e 1964, ainda pelo CPC, dirige o curta Maioria Absoluta, agraciado como melhor documentário no Festival de Viña del Mar (Chile), em 1965, e com o Prêmio Joris Ivens, no Festival de Oberhausen (Alemanha), em 1966.

Durante 1965, vive no Chile. Em 1966, de volta ao Brasil, cria a empresa produtora Saga Filmes com o cineasta Marcos Farias (1935-1985). A empresa produz Garota de Ipanema (1967), mas o filme não agrada nem público nem crítica.

Em 1972, dirige São Bernardo, que recebe os prêmios Margarida de Prata e Air France de melhor filme. A produção é censurada e desencadeia uma crise financeira na empresa. Em 1979, filma ABC da Greve, montado postumamente em 1990. Com Eles não usam Black-Tie (1981), recebe reconhecimento de público e crítica, com oito premiações, entre elas, o Prêmio Especial do Júri – Leão de Ouro (ex aequo), no Festival de Veneza de 1981.

Entre 1983 e 1986, produz seu último trabalho, o tríptico Imagens do inconsciente.

Análise

A obra de Leon Hirszman  traz forte atuação política e intensa confluência de culturas. Essa característica contribui para pensar o cineasta e sua filmografia, construída para discutir o Brasil e as questões populares de sua época, sem abrir mão do rigor formal.

“Pedreira de São Diogo” remete à teoria da montagem intelectual do cineasta russo Sergei Eisenstein (1898-1948). O curta conta a história de moradores de uma favela que se organizam e impedem que seus barracos sejam destruídos numa explosão. Para o crítico Eduardo Escorel (1945), Leon demonstra nesse filme sua profunda crença no ser humano. Em Maioria absoluta, essa crença emerge no tratamento dado às condições materiais e espirituais da vida de analfabetos nordestinos.

A Falecida (1965) é o primeiro longa-metragem, adaptado da peça homônima de Nelson Rodrigues (1912-1980). Ao contrário do texto original, o filme aprofunda-se no universo feminino, enfocando em Zulmira a alienação da mulher no processo urbano, e evita os excessos do melodrama da peça. A câmera observa as personagens e concentra-se nos rostos, dando ênfase ao olhar, para revelar a perplexidade na qual elas sobrevivem.

O mesmo rigor na composição das imagens se vê em São Bernardo, com o distanciamento da câmera dos personagens e a investigação da crescente melancolia do personagem Paulo Honório. Essa leitura cinematográfica do livro de Graciliano Ramos (1892-1953) ajusta-se ao texto, evitando supérfluos, e realiza-se, segundo o diretor, com base nas dificuldades de produção. A crise financeira enfrentada pela produtora Saga Filmes, após a realização do filme, obriga os sócios a decretarem falência.

A presença de personagens do povo, abordados em leitura humanista e política, é recorrente nos documentários em curta-metragem "Nelson Cavaquinho" (1969), da série Cantos de Trabalho (1975), e em Partido Alto (1976/1982). Com eles, Hirszman constrói movimentos ágeis, influenciados pela câmera na mão preconizada pelo Cinema Verdade. Também produz enquadramentos estudados, planos longos e estáticos.

ABC da Greve alcança força política ao investigar, durante três meses, a realidade humana e social dos trabalhadores que habitam as fábricas e a cidade paulista de São Bernardo do Campo. Assume com eles a vivência daquele movimento operário. Eles não usam Black-Tie rearticula esses elementos na ficção, usando uma família como base para discutir as relações sociais dos indivíduos.

O tríptico Imagens do inconsciente – composto pelos filmes “Em Busca do Espaço Cotidiano”, “No Reino das Mães” e “A Barca do Sol” – apresenta uma virada na filmografia do diretor: ele se desloca do popular para mergulhar na intimidade de pacientes da psiquiatra Nise da Silveira (1905-1999). O filme centra-se nos trabalhos pintados por Fernando Diniz, Adelina Gomes e Carlos Pertuis, para desvelar as imagens do inconsciente de cada um. Os planos destacam a narrativa científica e, ao mesmo tempo, a expressão artística dos pintores. Passando por um processo laborioso, o diretor afirma que seu inconsciente pôde aparecer para ele mesmo. Segundo o crítico José Carlos Avellar (1936-2016), “o filme – mais exatamente o realizador por trás dele – agiu num certo instante como um espectador diante das pinturas. No instante seguinte, como um crítico diante das pinturas. E logo como um filme mesmo, linha reta riscada para fazer saltar aos olhos de todos que o mundo pode ser transformado a partir da vontade dos homens, pode ser traçado bem assim como o desejamos”.

Na atuação política, conhecido como a cabeça fria do movimento cinemanovista, Leon Hirszman sempre milita a favor da organização e regulamentação do mercado brasileiro de cinema. Na prática, a câmera do diretor reflete com integridade suas concepções estéticas e políticas, buscando posições que fazem "avançar o todo da sociedade".

 

Obras 3

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Exposições 2

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Mostras audiovisuais 22

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Fontes de pesquisa 12

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  • AVELLAR, José Carlos. A sabedoria que a gente não sabe. Cinemais, Rio de Janeiro, n.27, p.179-203, jan./fev. 2001.
  • CALIL, Carlos Augusto; BOJUNGA, Claudio. Navegando entre as estrelas. Filme Cultura, Rio de Janeiro, n.44, p.49-55, abr./ago. 1984.
  • CINEMATECA BRASILEIRA. ABC da greve: documentário inédito de Leon Hirszman sobre a origem do moderno sindicalismo brasileiro. São Paulo, 1991.
  • HIRSZMAN, Leon. Três desafios. Humboldt, v.31, n.60, p.38-41, 1990.
  • LUIZ, Macken. Leon Hirszman e São Bernardo. Filme Cultura, Rio de Janeiro, v.8, n.25, p.26-7, mar. 1974.
  • MERTEN, Luiz Carlos. Leon Hirszman: cabeça fria, cabeça pensante, cabeça política. In: A Revista. n. 9. São Paulo: Takano, 2003.
  • MONTEIRO, José Carlos. Leon Hirszman: ficção e confissão. Cinemais, Rio de Janeiro, n.1, p.1476-192, set./out. 1996.
  • PELLEGRIN, Dejean Magno. Meu amigo Leon. Cinemin, Rio de Janeiro, n.44, p.30-31, jun. 1988.
  • RAMOS, Fernão Pessoa. Hirszman e Mauro, documentaristas. Estudos de Cinema, n.3, p.191-216, 2000.
  • SANTOS, Alexandre Carvalho dos. Leon Hirszman: seus personagens nunca usaram balck-tie. Beta, n.7, p.14-17, outono 2010.
  • Vasconcelos, Ana Lúcia. Leon Hirszman de volta às origens. Agulha - Revista de Cultura, n. 49. Fortaleza - São Paulo, jan. de 2006. Disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/ag49hirszman.htm Acesso em 05 de junho de 2006. Não catalogada
  • XAVIER, Ismail. A Falecida e o realismo, a contrapelo, de Leon Hirszman. Novos Estudos Cebrap, n.50, p.191-209, mar. 1998.

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