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Música

Anna Maria Kieffer

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.12.2017
28.07.1941 Brasil / São Paulo / São Paulo
Anna Maria Kieffer (São Paulo, São Paulo, 1941). Mezzo-soprano e pesquisadora. Inicia-se em piano aos sete anos na Escola de Música do Colégio Santa Marcelina com a Irmã Cecília Furtado e com Kita de Ulhoa Cintra e em canto com Magdalena Lébeis. No início dos anos 1960, na Pró-Arte - Seminários de Música, estuda com Hans-J. Koellreutter, Roberto...

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Biografia

Anna Maria Kieffer (São Paulo, São Paulo, 1941). Mezzo-soprano e pesquisadora. Inicia-se em piano aos sete anos na Escola de Música do Colégio Santa Marcelina com a Irmã Cecília Furtado e com Kita de Ulhoa Cintra e em canto com Magdalena Lébeis. No início dos anos 1960, na Pró-Arte - Seminários de Música, estuda com Hans-J. Koellreutter, Roberto Schnorrenberg, Theodor Heuberger (prática de ópera) e participa dos Encontros Internacionais de Música, tendo aulas de interpretação de música medieval e renascentista com Andrea Von Ramm no Studio der Frühen  Musik1. Nesse período, segue ainda cursos com Osvaldo Lacerda (harmonia), Mario Ficarelli (repertório contemporâneo), Maria José de Carvalho (dicção e estilo), o pianista co-repetidor Erik Werba (interpretação mozartiana, Viena) e o fonoaudiólogo Raoul Husson (técnica vocal, Paris).

Aperfeiçoa-se em canto com Eladio P. Gonzalez, de 1968 a 1975, e Marcel Klass, de 1976 a 1979, e em ópera com Graziella Sciutti e Franco Iglesias. Em 1967 realiza turnês pela Europa apresentando repertório colonial brasileiro e latino americano com o Madrigal e Orquestra de Câmara de São Paulo sob a direção de George Olivier Toni. Em 1975, funda, com Thaís V. Borges, a Confraria-Conjunto de Música Antiga. Realiza o levantamento e a restauração de partituras, a busca de instrumentos originais e a divulgação das obras em publicações, palestras, concertos e discos, trabalhando tanto no Brasil quanto no exterior ao lado de instrumentistas como Edelton Gloeden (violão), Gisela Nogueira (viola de arame), Achille Picchi e Fábio Luz (piano).

Na música contemporânea, inicia a carreira como solista no Festival de Outono de Paris, com Ensaio 72 de Mário Ficarelli. De 1977 a 1981, participa dos Cursos Latino americanos de Música Contemporânea e integra o Núcleo Música Nova, sob a coordenação do compositor Conrado Silva. Desenvolve a partir daí trabalhos em colaboração com compositores, dentre os quais destacamos Cidade, Ópera Aberta, de Gilberto Mendes, além de peças de compositores como Jocy de Oliveira,  Leo Küpper, Daniel Teruggi, e realizar estreias brasileiras na presença de compositores como Dieter Schnebel e John Cage. Criar trilhas para cinema e vídeo, como em O Retorno de Rodolfo Nanni. Realizar pesquisas de repertório e compõe ambiências sonoras e trilhas para exposições e espaços culturais, como Brasil Barroco, no Petit Palais (Paris, 1999), O Brasil dos viajantes (MASP e Centro Cultural de Belém- Lisboa) e Niobe Xandó (Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2007), além de curadorias, como as 18ª e 19ª edições da Bienal Internacional de São Paulo.

Participa de Festivais no Brasil e no exterior, entre os quais Nuova Consonanza (Roma, 1982), Ars Electronica (Linz, 1984), Outono de Varsóvia (1984), Centro Cultural Reyna Sofia (Madrí, 2007) e edições do Festival de Bourges. A partir da metade da década de 1990 seu trabalho é cada vez mais pautado pela concepção, direção e participação de espetáculos, gravação de CDs, além da organização de cursos, palestras, concertos e curadoria de eventos dirigidos à história da música brasileira. Sua discografia conta com mais de 20 títulos entre música antiga e contemporânea, uma grande parte gravada pelo selo Akron, que funda com Nanni em 1986. Em 1990, lança Viagem pelo Brasil, pelo selo Eldorado, com participação de Gisela Nogueira (viola de arame) e Edelton Gloeden (violão) com obras do Padre José Mauricio Nunes Garcia, Franco Manoel da Silva, Mussurunga, Candido Inácio da Silva e autores anônimos. Em 1999 grava Teatro do Descobrimento, com o violeiro Ivan Vielela e o Grupo Anima, e obras de João Zorro, Martin Codax, Padre José de Anchieta e Francisco Salinas, Gregório de Matos Guerra, antonio Madureira e Marcelo Varella.

Análise

A trajetória do trabalho de Anna Maria Kieffer se constrói pelo entrelaçamento de influências advindas da multiplicidade de experiências que vivencia e que agrega diferentes áreas do conhecimento. Se olharmos, por exemplo, sua formação como cantora, podemos constatar essa busca por eixos diferentes no desenvolvimento de seu ofício. Ela aprimora-se não apenas com cantores de formação, mas agrega outros pontos de vista vindos de pianistas co‑repetidores, regentes, fonoaudiólogos e mesmo atores e da pesquisa vocal ao lado de compositores.

Outro exemplo que demonstra claramente sua busca por transformações, rupturas, ou inovações, pode ser vista na sua participação no projeto Supermercado de Som e Imagem, de 1971, realizado no Teatro FAAP em colaboração com o diretor Rodolfo Nanni, do maestro Jamil Maluf e do compositor Rodolfo Coelho de Souza, e que a leva a ser co‑criadora de um dos primeiros espetáculos multimídia de São Paulo que abrange música, literatura, teatro, cinema e artes plásticas.

É essa liberdade tanto de referências quanto de meios de expressão que lhe permite trabalhar com áreas distintas, porém inter-relacionadas, como a improvisação musical, a colaboração e co-criação com compositores contemporâneos, a criação de trilha original para diversos meios artísticos como vídeo e cinema, a curadoria musical para exposições de arte e rádio, a direção de espetáculos musicais ou interdisciplinares, além da reconstituição histórica e artística de repertório e de instrumentos de época através do trabalho conjunto com construtores de instrumentos.

De toda essa multiplicidade, duas características permeiam todas as áreas de atuação às quais se dedica: a pesquisa histórica e a exploração criativa. A primeira se origina pelo contato com Curt Lange na Pró-Arte; a segunda, pela convivência com artistas como Maria José de Carvalho e o poeta Lindolf Bell, através dos quais é introduzida, ainda muito jovem, à comunidade artística de São Paulo (frequentada por artistas plásticos, poetas, atores.). Ali, as frequentes discussões a respeito da condição da arte contemporânea e da criação artística na atualidade vão influenciar a cantora, que transfere rapidamente para a área musical, levando-a a ser intérprete colaboradora de compositores. Na área da pesquisa, seu apreço pelo conhecimento histórico se desvela com a descoberta de 12 árias que compõe a obra Marilia de Dirceu de compositor anônimo do começo do século XIX escritas sobre poemas de Tomás Antonio Gonzaga e reproduzidas pelo musicólogo Mozart de Araújo em seu livro A Modinha e o lundu no século XVIII. Kieffer reencontra tais partituras ainda em seu período estudantil e as guarda consigo até a sua gravação, em 1985, ao lado de Edelton Gloeden e Gisela Nogueira, lançando o resultado em um disco compacto em 1994 pelo selo Akron.

Seu trabalho se torna, com o passar dos anos, cada vez mais meticuloso em termos da busca da fidelidade da interpretação da obra. Assim, durante os 9 anos no grupo Confraria, o trabalho, que no seu início não contava com instrumentos originais, acopla, com o tempo, as rabecas brasileiras. Kieffer interessa‑se igualmente pelos tratados de música de época e documentos iconográficos a fim de determinar não apenas a organologia da música antiga, como sua prática: como os instrumentos eram tocados, em qual situação social e tipo de ambiente, quais eram as técnicas instrumentais empregadas, as questões estéticas envolvidas.

Nos anos 1980, por exemplo, consegue, após encontrar e comprar uma viola de arame original do século XVIII na cidade de Tiradentes, construir uma duplicata do instrumento pelas mãos de Roberto Gomes. É a partir dessa pesquisa de luteraria e da leitura da cópia de um raro exemplar do livro Nova Arte da Viola, de Manuel da Paixão Ribeiro, adquirida por José Mindlin e cedida à instrumentista, que se desenvolve as pesquisas que desembocam, posteriormente, no álbum Marilia de Dirceu., lançado em 1989 pelo selo Eldorado.  A gravação torna-se parte de um projeto mais ambicioso concebido pela cantora e intitulado Memória Musical Brasileira: os 500 Anos, uma tentativa de interpretação do universo musical brasileiro profano e que conta com um conjunto de dez álbuns que tenta englobar manifestações musicais no Brasil entre os séculos XVI e XX e que tem, como diretriz, a reconstituição das origens do povo brasileiro através de sua música. Segundo a cantora: "Ao contrário da forma como é constantemente pensada e utilizada, a música não é apenas uma forma de entretenimento, mas sim parte construtora das culturas, veiculando e refletindo seus valores, sua visão de mundo e sua história. Daí seu valor incalculável como forma de conhecer o mundo e de estar nele. Conhecer as raízes de sua própria música é reencontrar-se diante de uma identidade nem sempre conhecida e mesmo suspeitada"2. Para tanto, realiza pesquisa não apenas baseada em fontes históricas, como atesta a utilização que faz dos cantos indígenas recolhidos por Jean de Léry, Hans Staden, José de Anchieta e Gregório de Matos, como também em campo, entrevistando pessoas ligadas a diversas colônias de imigrantes em São Paulo e apontando, assim, a riqueza do legado da tradição oral como vetor de transmissão de costumes e de práticas musicais pagãs dentro da comunidade brasileira.

Ao mesmo tempo, apesar de desenvolver uma pesquisa histórica, a cantora não é uma purista. Em seu trabalho com Küpper para a peça Ways of the voice, por exemplo, Kieffer utiliza-se do canto de rezas populares do Brasil de modo muito livre, numa experimentação vocal misturada à montagem eletroacústica.

Notas

1. Centro de Música Antiga
2. Texto de apresentação do curso Aspectos da Música Brasileira Dos Tupinambás a Eletrônica.

Obras 1

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Exposições 1

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