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Enciclopédia Itaú Cultural
Teatro

Ariano Suassuna

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.03.2015
16.06.1927 Brasil / Paraíba / João Pessoa
23.07.2014 Brasil / Pernambuco / Recife
Ariano Vilar Suassuna (João Pessoa, PB, 1927 - Recife, PE, 2014). Romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e professor. Filho do político João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna (1886-1930), governador do estado da Paraíba entre 1924 e 1928, e de Rita de Cássia Dantas Vilar Suassuna. Em 1928, a família muda-se para a Fazenda Acahuan, em Sousa,...

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Biografia
Ariano Vilar Suassuna (João Pessoa, PB, 1927 - Recife, PE, 2014). Romancista, poeta, dramaturgo, ensaísta e professor. Filho do político João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna (1886-1930), governador do estado da Paraíba entre 1924 e 1928, e de Rita de Cássia Dantas Vilar Suassuna. Em 1928, a família muda-se para a Fazenda Acahuan, em Sousa, Paraíba. Dois anos depois, o pai, então deputado federal, é assassinado no Rio de Janeiro em decorrência de episódios da Revolução de 1930.1

A família se transfere para Taperoá, no mesmo estado, onde Suassuna conclui seus estudos primários. Nessa época ele entra em contato com a cultura popular nordestina, que marca grande parte da sua obra. Assiste pela primeira vez a um desafio de viola e a uma peça de mamulengo, o teatro nordestino de títeres, em uma feira na cidade. Em 1942, muda-se para Recife, onde cursa o secundário. Nesse período publica seu primeiro poema. Ingressa na Faculdade de Direito do Recife, em 1946, e participa do núcleo fundador do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), que encena, no ano seguinte, sua peça Uma Mulher Vestida de Sol.

Seu trabalho mais conhecido, O Auto da Compadecida, é escrito quase uma década depois, em 1955. Torna-se professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 1956, aposentando-se em 1994. Funda, em 1970, o movimento armorial, destinado à criação de uma arte erudita nordestina calcada em suas raízes populares. Lança o Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, em 1971 e seu desdobramento, História do Rei Degolado / Ao Sol da Onça Caetana, em  1977. Atua como secretário de educação da prefeitura do Recife, em 1975, e assume a Secretaria Estadual de Cultura de Pernambuco, em 1995. Torna-se membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1989.

Comentário crítico
Ariano Suassuna é conhecido principalmente por suas peças e pela militância em relação à defesa da arte popular brasileira. Em O Auto da Compadecida, sua peça mais conhecida, com centenas de encenações e adaptações para outros veículos de comunicação desde que foi escrita, é possível perceber o aproveitamento particular que o autor faz da tradição popular nordestina. Como o próprio título sugere, é proposto um auto, modalidade do teatro medieval que tem como tema a religiosidade. Suassuna, no entanto, reelabora essa forma teatral dentro de uma perspectiva radicalmente regionalista, o que resulta em uma obra essencialmente moderna na medida em que expõe, examina e incorpora um sistema estético do passado sob o crivo particular da tradição popular nordestina.
 
Essa atitude estética do autor permeia praticamente toda a sua produção, desde os poemas ao modo da poesia de cordel que publica ao longo da vida, principalmente em jornais, àquela que considera sua obra principal separada em livros distintos, o romance Quaderna, o Decifrador, que começa a escrever em 1958. Esse romance, que incorpora boa parte da pesquisa da arte popular nordestina empreendida nos seus escritos anteriores, tem um primeiro momento, Romance d'A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, e um segundo, História do Rei Degolado / Ao Sol da Onça Caetana. O cronista-fidalgo, rapsodo-acadêmico e poeta-escrivão dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna é o narrador criado pelo autor que se encontra preso, no ano de 1938, tentando se defender, por meio da escrita, das acusações que fazem sobre ele.

Para isso começa a traçar os fatos, acontecidos e inventados, que o colocaram naquela situação. Esses fatos, no entanto, sempre ganham uma coloração ambígua. Ora são contados como grandes eventos que remetem às façanhas dos cavaleiros e nobres medievais, ora como uma disputa miserável e sertaneja em que muitos morrem de forma grotesca em função de pequenas disputas pelo poder, principalmente em uma região do sertão nordestino entre Paraíba e Pernambuco. Esse lugar, segundo o narrador, é palco de um curto reinado de sua família no século XIX. Esses fatos do passado, retirados muitas vezes de acontecimentos históricos, são a base da justificativa da realeza de Quaderna, que se julga, na década de 1930, o pretendente ao trono do Império do Brasil, sempre deixando claro que esse império não tem ligação com os "reis e imperadores estrangeirados e falsificados da Casa de Bragança".

O levantamento dos materiais que o narrador faz para sua defesa inclui gravuras de artistas nordestinos, poemas de cordel, distorções de fatos históricos, mitos do sertão etc. A distribuição desses se faz por meio de folhetos, ao modo da tradição popular nordestina, e aproxima essa estranha epopeia das formas literárias que antecederam historicamente o romance burguês, que surge em um mundo que aparentemente estava perdendo seus mitos. Essa confusão temporal que as narrativas de Quaderna causam, confusão em alguma medida semelhante a do estatuto ambíguo de O Auto da Compadecida, fez alguns estudiosos classificarem seus livros como romances míticos.

Existe por parte do autor, ao que parece, uma tentativa declarada de erguer uma espécie de mitologia brasileira com base popular nordestina. Para isso ele faz uso da tradição oral da região. Os folhetos de cordel - com suas formas plásticas de representação, as xilogravuras -, que são comercializados nas feiras populares, ganham ares de história oficial para Quaderna. Eles apresentam danças, cavalhadas e mitologias locais - principalmente as crenças sebastianistas, nas quais o narrador alicerça seu pretenso poder real. No entanto, essa estranha mitologia brasileira acontece também como um procedimento essencialmente moderno, dentro de uma construção literária em que o centro é dado por um narrador que quer convencer o corregedor, os soldados, as damas e, por fim, o leitor de que é uma pessoa que viveu uma "terrível história de amor e de culpa; de sangue e de justiça; de sensualidade e violência; de enigma, de morte e disparate", e que merece o perdão de todos e, quem sabe, a sua redenção e a de seu povo.

Essa armação narrativa dos seus "romances" recoloca e atualiza o século XX brasileiro, ligando tradição popular a uma forma de poder ancorada em mitos pré-burgueses. Uma cisão a que Miguel de Cervantes (1547-1616) dá forma no início da era moderna com Dom Quixote, contrapondo o mundo da cavalaria - e seus valores específicos que entravam em extinção - e o nascente mundo burguês.

Nota
Em meio à crise econômica mundial e às disputas internas pelo poder político e econômico, o presidente eleito, Júlio Prestes, é deposto. Getúlio Vargas assume a presidência do Brasil através de um golpe de estado.

Espetáculos 63

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Exposições 3

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Mostras 1

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Fontes de pesquisa 13

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  • ANUÁRIO de teatro 1994. São Paulo: Centro Cultural São Paulo, 1996. R792.0981 A636t 1994
  • ARIANO Suassuna. Texto Idelette Muzart Fonseca dos Santos, Wilson Martins, Carlos Newton Junior, Ligia Maria Pondé Vassallo, Millôr Fernandes, Marcos Vinicios Vilaça, Raduan Nassar; direção de edição Antonio Fernando De Franceschi; fotografia Eduardo Simões; colaboração Celso Furtado, Guel Arraes, Luiz Fernando Carvalho, Rogério Reis, Adam Sun, João Alexandre Barbosa, Maria Eugênia, Mariângela Alves de Lima, Rosana Tokimatsu, Marco Maciel, Moacyr Scliar, Luiz Santos. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2000. 203 p., il. p&b. (Cadernos de literatura brasileira, 10).
  • BRASIL, Ubiratan. Matrimônio inspirado no circo. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 23 ago. 2011. Disponível em: < http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,matrimonio-inspirado-no-circo,762259,0.htm >. Não catalogado
  • CARVALHO, Nelly. Ariano Professor. In: Linguagens da Vida. Recife: Universidade Federal de Pernambuco/Editora Universitária, 1998.
  • DOSSIÊ ARIANO SUASSUNA. Teatro e Cultura Popular. O Percevejo, ano 8, n. 8, Rio de Janeiro, 2000.
  • GUIDARINI, Mário. Os pícaros e os trapaçeiros de Ariano Suassuna. São Paulo: Ateniense, 1992.
  • HELIODORA, Barbara. Quem é quem nas artes e nas letras no Brasil: parte teatro. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1966.
  • MAGALDI, Sábato. Apresentação do teatro brasileiro. Rio de Janeiro: Inacen/Funarte, 1962.
  • MORAES, Maria Thereza Didier de. Emblemas da Sagração Armorial: Ariano Suassuna e o Movimento Armorial (1970-1976). Recife: Universidade Federal de Pernambuco/Editora Universitária, 2000.
  • PRADO, Décio de Almeida. O teatro brasileiro moderno. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1996. (Debates, 211).
  • Planilha enviada pela pesquisadora Julia Alves Carvalhal. Não Catalogado
  • Programa do Espetáculo - A Pedra do Reino - 2006. Não catalogado
  • VICTOR, Adriana: LINS, Juliana. Ariano Suassuna. Um perfil biográfico. São Paulo: Jorge Zahar, 2007.

Como citar

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