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Artes visuais

Vilanova Artigas

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 09.02.2021
23.06.1915 Brasil / Paraná / Curitiba
12.01.1985 Brasil / São Paulo / São Paulo

Vilanova Artigas, São Paulo, 1978
Olney Krüse, Vilanova Artigas
Matriz - negativo

João Batista Vilanova Artigas (Curitiba, Paraná, 1915 – São Paulo, São Paulo, 1985). Arquiteto, engenheiro, urbanista e professor. A frase “Arquitetura é construção e arte”1, de Vilanova Artigas, resume bem a atuação desse importante arquiteto brasileiro. Com obras monumentais, como estádios e hospitais, e outras mais modestas em tamanho, como a...

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João Batista Vilanova Artigas (Curitiba, Paraná, 1915 – São Paulo, São Paulo, 1985). Arquiteto, engenheiro, urbanista e professor. A frase “Arquitetura é construção e arte”1, de Vilanova Artigas, resume bem a atuação desse importante arquiteto brasileiro. Com obras monumentais, como estádios e hospitais, e outras mais modestas em tamanho, como as residências, Artigas renova não apenas o modo de fazer arquitetura, mas também de pensá-la.

Essa singularidade do arquiteto pode ser explicada, em parte, por seus estudos. Artigas forma-se engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP), em 1937, onde o ensino de arquitetura deriva da engenharia, e não das belas-artes, como acontece no Rio de Janeiro na época. Sua extensa obra indica transformações de seu fazer arquitetônico ao longo do tempo, e há nela a valorização do processo construtivo, especialmente na explicitação das estruturas em concreto armado, elemento recorrente em seu trabalho. 

Segundo alguns críticos, a produção inicial de Vilanova Artigas tem forte influência do arquiteto norte-americano Frank Lloyd Wright (1867-1959), observada no desenho dos telhados, na continuidade interior/exterior e no uso de tijolos aparentes. Um exemplo dessa fase é a residência Rio Branco Paranhos (1943), em que Artigas constrói lajes de tijolo armado com grandes balanços. 

Os projetos de residência unifamiliar têm papel de destaque na obra de Vilanova Artigas, na medida em que ele se identifica com o processo de construção de uma "cultura urbana paulista", motivado por seu engajamento no Partido Comunista Brasileiro (PCB), ao qual é filiado. Para esse partido, a burguesia nacional precisa ser educada por uma nova ética do morar, capaz de conscientizá-la quanto ao seu papel de agente de transformação social, ideal perseguido nos projetos iniciais de Artigas. 

Seu engajamento se estende também à política de regulamentação da profissão e à docência. Em 1943, funda, com outros colegas, a representação do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/SP) em São Paulo e, em 1948, participa da criação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), onde passa a lecionar. 

Com o acirramento da Guerra Fria no início dos anos 1950, Artigas posiciona-se contra o imperialismo norte-americano e a alienação política da arte/arquitetura, buscando fortalecer e preservar a ideia de uma cultura nacional. Aproxima-se da arquitetura carioca, sobretudo de Oscar Niemeyer (1907-2012), incorporando um programa racionalista e certo otimismo plástico. A rodoviária de Londrina é um exemplar dessa fase do arquiteto. 

No entanto, Artigas passa a criticar a arquitetura moderna, da qual Niemeyer é representante. Nos artigos Le Corbusier e o Imperialismo (1951), e Caminhos da Arquitetura Moderna (1952), critica o racionalismo modernista. Radicalizando seu posicionamento, o arquiteto encontra no “novo brutalismo inglês” a base para defender a constituição de uma arquitetura nacionalista a partir da apropriação política do conhecimento técnico e do desenvolvimento de uma tecnologia nacional. 

Funda, então, o que se chama de “escola paulista” ou “brutalismo paulista”, que se caracteriza por uma ênfase construtiva, expressa na criação de grandes vãos, e no amplo emprego do concreto armado e aparente, ressaltando o perfil das estruturas e os esforços a que está submetida. São representantes importantes dessa escola os arquitetos Paulo Mendes da Rocha (1928) e Ruy Ohtake (1938).

Em 1961, realiza uma série de projetos que definem as linhas mestras da "escola paulista": o Anhembi Tênis Clube, a Garagem de Barcos do Iate Clube Santa Paula, e o edifício da FAU/USP, na Cidade Universitária, todos em São Paulo. Este último, construído de 1966 a 1969, é bastante representativo do fazer arquitetônico de Vilanova Artigas. Fundamentado na ideia de democratização dos espaços e da convivência comunitária, o prédio caracteriza-se por sua continuidade espacial, sem portas nem divisões fortemente marcadas. Há um grande vazio central, em torno do qual se organizam seis pavimentos que comportam as diferentes atividades da faculdade e se conectam por amplas rampas. De seu exterior, observa-se um prédio escultural, que combina o peso de um grande paralelepípedo com a leveza de pilares em formato de trapézios duplos.

Mesmo sendo perseguido pela ditadura militar, Artigas defende o desenho como a arma mais eficaz do arquiteto e projeta, em 1968, com Paulo Mendes da Rocha e Fábio Penteado (1929-2011), o Conjunto Habitacional Zezinho Magalhães Prado (Parque Cecap), em Guarulhos. Em 1969, é afastado da FAU/USP, à qual retorna apenas com a anistia, no fim de 1979. Reassume em 1984 sua posição anterior à cassação, após submeter-se a um concurso para professor titular, cujas arguições são publicadas com o título de A Função Social do Arquiteto2. Recebe, da Union Internationale des Architectes (UIA), os prêmios Jean Tschumi, em 1972, por sua contribuição ao ensino de arquitetura, e Auguste Perret, em 1985, por sua obra construída.

Autor de uma extensa e contundente obra (constituída por cerca de 700 projetos), Vilanova Artigas é, no Brasil, o maior exemplo de um arquiteto que consegue aliar engajamento político-social efetivo, densidade poético-formal, apuro técnico-construtivo e trabalho docente, combinados por um princípio geral de inquietude experimental e coerência ideológica. Constitui-se, assim, como um dos nomes mais importantes da arquitetura brasileira. 

Notas:

1. Carta de João Batista Vilanova Artigas enviada ao proprietário do Hospital São Lucas, no Paraná, em 1945. Reproduzida em: INSTITUTO DE ARQUITETOS DO BRASIL. Carta de Vilanova Artigas, de 1945, aponta vantagens de se contratar arquitetos. Disponível em: https://iab.org.br/noticias/carta-de-vilanova-artigas-de-1945-aponta-vantagens-de-se-contratar-arquitetos. Acesso em: 26 abr. 2020.

2. ARTIGAS, Vilanova. A função social do arquiteto. São Paulo: Nobel-Fundação Vilanova Artigas, 1989. Esse conjunto de arguições foi posteriormente incorporado em: ARTIGAS, Vilanova. Caminhos da arquitetura. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

Obras 2

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Exposições 9

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Fontes de pesquisa 9

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  • ARTIGAS, Vilanova. Vilanova Artigas. Organização Marcelo Carvalho Ferraz; São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi : Fundação Vilanova Artigas, 1997. 215 p., il. color. (Arquitetos brasileiros).
  • BRUAND, Yves. Arquitetura Contemporânea no Brasil. Tradução Ana M. Goldberger. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1999.
  • CRUZ, Débora de Melo da. A influência de Frank Lloyd Wright sobre João Batista Vilanova Artigas – uma análise formal. 2010. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Construção) – Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2010.
  • FRACALOSSI, Igor. Clássicos da Arquitetura: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) / João Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi. Arch Daily, 7 dez. 2011. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/01-12942/classicos-da-arquitetura-faculdade-de-arquitetura-e-urbanismo-da-universidade-de-sao-paulo-fau-usp-joao-vilanova-artigas-e-carlos-cascaldi. Acesso em: 26 abr. 2020. Acesso em: 26 abr. 2020.
  • KAMITA, João Masao. Vilanova Artigas. São Paulo: Cosac & Naify, 2000. 127 p., il. color., p&b. (Espaços da Arte Brasileira).
  • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Arquitetura brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1979.
  • LIRA, José Tavares Correia de. Apresentação. In: ARTIGAS, Vilanova. Caminhos da arquitetura. Organização Rosa Camargo Artigas e José Tavares Correia de Lira. 4. ed. rev. e ampl. São Paulo: Cosac & Naify, 2004. 240 p., il. p&b. p.7-13.
  • SEGAWA, Hugo. Arquiteturas no Brasil, 1900-1990. 2.ed. São Paulo: Edusp, 1999.
  • XAVIER, Alberto; CORONA, Eduardo; LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Arquitetura moderna paulistana. São Paulo: Pini, 1983.

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