Artigo da seção pessoas Denoy de Oliveira

Denoy de Oliveira

Artigo da seção pessoas
Teatro / cinema  

Denoy Gonçalves de Oliveira (Belém, Pará,  1933 – São Paulo, São Paulo, 1998). Diretor, ator, produtor, roteirista, músico. Cresce no subúrbio do Rio de Janeiro, onde começa a trabalhar aos 14 anos em funções diversas. Cursa Arquitetura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a partir de 1957, sem concluir a graduação, e artes cênicas na Escola de Teatro Martins Pena. 

Estreia como ator na peça O Círculo de Giz Caucasiano (1962) e engaja-se no Centro Popular de Cultura (CPC). Em 1964, após o fechamento do CPC pelo governo, funda com alguns remanescentes do CPC o grupo de teatro Opinião. Trabalha no setor administrativo e integra o elenco das peças Liberdade, Liberdade (1965) e Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come (1966), da qual também faz a música. Compõe, ainda, a trilha musical de Dois Perdidos numa Noite Suja (1966). Em 1966, abre a produtora Lestepe com o irmão e cineasta Xavier de Oliveira (1937), de quem produz o curta Escravos de Job (1965). Estreia como ator no cinema em Massacre no Supermercado (1968), do croata J. B. Tanko (1906-1993) e escreve a peça Os Monstros (1969). Em 1970, deixa o Opinião.

Atua e compõe a trilha sonora de Marcelo Zona Sul (1970) e produz e musica André, a Cara e a Coragem (1971), ambos de Xavier. Escreve e dirige Amante “Muito Louca”! (1973), prêmio de melhor direção no 2º Festival de Gramado. Realiza, ainda, o episódio “A Louca de Ipanema”, para o longa Esse Rio Muito Louco (1976), antes de se mudar para São Paulo, onde se torna um dos principais articuladores da Associação Paulista de Cineastas (Apaci).

Após a morte do diretor Egydio Eccio (1929-1977), assume o piloto para televisão, transformado em longa-metragem, J.J.J. – O Amigo do Super-Homem (1978), nunca lançado comercialmente. Em seguida, adapta o conto O Encalhe dos 300, de Domingos Pellegrini (1949), no filme 7 Dias de Agonia (O Encalhe) (1982). Finaliza O Baiano Fantasma (1984), grande vencedor do 12º Festival de Gramado.

Paralelamente, atua em filmes como Doramundo (1978) e O Homem que Virou Suco (1980), ambos de João Batista de Andrade (1939); Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman (1937-1987), Janete (1982), de Chico Botelho (1948-1991) e A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral (1928). Realiza os médias documentais Nós de Valor... Nós de Fato (1985) e Fala só de Malandragem (1985). Escreve e dirige A Grande Noitada (1997), lançado comercialmente após sua morte. 

Análise

A obra cinematográfica Denoy de Oliveira reúne diversos gêneros e estéticas e relaciona-se a momentos diversos da produção brasileira. Norteia-se, porém, pelos mesmos ideais sócio-políticos aprendidos no CPC: preferência por temas e/ou personagens à margem da sociedade, elaboração de narrativas com enfoque humanista e escrita de uma obra acessível e popular, para criar identificação com o público. Para isso, vale-se do humor, que traz leveza à história.

Seus dois primeiros longas são comédias e trazem tipos comuns da classe média baixa para o centro da trama. Em Amante “Muito Louca”!, Denoy usa os parâmetros da comédia erótica carioca para criticar a hipocrisia pequeno burguesa . Realizado no auge da repressão do Regime Militar, o longa acompanha a viagem de um bancário e sua família para o litoral, interrompida pela amante do patriarca. Dentro do espírito de contestação dos valores morais tradicionais, Denoy contrapõe a lógica das aparências, mantida pela classe média, à ruptura e transgressão das artes e do teatro. A personagem da amante, uma atriz, serve para desmascarar um ideal de decência e moralidade da família brasileira.

O filme seguinte, J.J.J. – O Amigo do Super-Homem, comédia policial, trabalha referências dos quadrinhos e das histórias de detetive. João Juca Jr. é um chaveiro que mora com a mãe, mas sonha com uma profissão que lhe dê sucesso e glória. O cineasta apropria-se de recursos cartunescos gráficos e sonoros, típicos das comédias populares da segunda metade dos anos 1970, que buscam fácil adesão do espectador. Isso acontece, por exemplo, quando um balão de quadrinhos (em que está escrito “Hi-hi-hi...”) aparece sobre a cabeça do vilão no momento em que tem uma ideia para o roubo de uma joia. O filme não é lançado comercialmente.

7 Dias de Agonia (O Encalhe) é um drama social com poucos momentos de humor. O cineasta debruça-se sobre o infortúnio de trabalhadores que têm suas vidas interrompidas em decorrência das fortes chuvas que atolam caminhões em uma estrada de terra. O filme demonstra a preocupação didática do cineasta em construir um discurso de classe contrário ao da classe dominante. Num momento em que os sindicatos voltam a ter uma participação social na realidade brasileira, no filme, após sete dias de sofrimentos, os caminhoneiros sentam, conversam e, juntos, entendem a importância de se unirem para exigir melhorias em suas condições de trabalho.

O forte acento social e a comédia de costumes encontram-se em O Baiano Fantasma, filme que o consagra. O longa acompanha Lambusca [José Dumont (1950)], um paraibano que vem a São Paulo para melhorar de vida e aceita fazer cobranças de serviço de proteção de uma gangue. Durante uma visita, um cliente enfarta e Lambusca passa a ser procurado pela polícia e pela gangue. Em tom crítico, o cineasta apresenta o preconceito ao nordestino assim que Lambusca aparece. Paraibano, é sempre chamado pelo termo pejorativo de baiano. Denoy acompanha os dramas de seu personagem, invisível aos olhos da sociedade paulistana, sem o transformar em vítima.

O último longa de Denoy de Oliveira, A Grande Noitada, também enfoca personagens marginalizados, como um transformista e uma ex-presidiária em liberdade condicional. Inspirado em Tristão e Isolda, é seu filme mais alegórico, em que utiliza uma estética cênica artificial, oriunda da ópera. Na primeira metade do filme, os personagens cantam e os cenários são evidentemente construídos. Apenas quando os personagens socialmente excluídos entram em cena, o filme encaminha-se para o naturalismo. Tal tônica serve para compreender a obra do cineasta: para ele, os únicos personagens reais são as pessoas comuns, anônimas.

Outras informações de Denoy de Oliveira:

  • Habilidades
    • Ator
    • diretor de teatro
    • dramaturgo
    • Roteirista

Espetáculos (7)

Fontes de pesquisa (18)

  • ADRIANO, Carlos. ‘Grande Noitada’ tem discurso piegas. Folha de S.Paulo, São Paulo, 11 dez. 1998. Ilustrada, p. 7.
  • ARAÚJO, Inácio. Denoy de Oliveira distinguiu-se pelo afeto. Folha de S.Paulo, São Paulo, 6 nov. 1998. Ilustrada, p. 4.
  • CARNEIRO, Gabriel. Noites Paulistanas: o cinema paulista da geração 1980. Dissertação (Mestrado em Multimeios) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2016.
  • FASSONI, Orlando L. O rebolado invade a classe média. Folha de S.Paulo, São Paulo, 18 nov. 1974. Ilustrada, p. 41.
  • FASSONI, Orlando L. Os encalhados da estrada e da sociedade. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2 jun. 1983. Ilustrada, p. 30.
  • FERREIRA, Fernando. 7 dias de agonia. O Globo, Rio de Janeiro, 21 jun. 1983. Rio Show, p. 33.
  • LESTEPE Produções. Rio de Janeiro. Disponível em:  http://www.lestepe.com.br/. Acesso em: 21 set. 2016
  • MERTEN, Luiz Carlos. Brasil perde cineasta do homem comum. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 6 nov. 1998. Caderno 2, p. D3.
  • MOTTA, Carlos M. “Baiano”, premiado, chega às telas. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 4 out. 1984. p. 21.
  • NAGIB, Lúcia (Org.). O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002. p. 331-333.
  • O ESTADO de S. Paulo. Cineasta dividiu filme com diretor de arte. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 dez. 1998. Caderno 2, p. D18.
  • O GLOBO. Denoy de Oliveira – Uma carreira vitoriosa do teatro até o cinema. O Globo, Rio de Janeiro, 5 abr. 1974. p. 28.
  • OLIVEIRA, Denoy de. Por que ‘Tristão e Isolda’ & outras óperas? O Estado de S. Paulo, São Paulo, 11 dez. 1998. Caderno 2, p. D18.
  • ORICCHIO, Luiz Zanin. Denoy de Oliveira filma o povo simples. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 18 fev. 1995. Caderno 2, p. D2.
  • PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. Amante Muito Louca. O Globo, Rio de Janeiro, 3 maio 1974. p. 35.
  • Planilha enviada pela pesquisadora Rosyane Trotta Não Catalogado
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000.
  • SUKMAN, Hugo. O estilo CPC é rejuvenescido em ópera-bufa. O Globo, Rio de Janeiro, 11 dez. 1998. Rio Show, p. 10.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • DENOY de Oliveira. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa13130/denoy-de-oliveira>. Acesso em: 09 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7