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Enciclopédia Itaú Cultural
Cinema

Joaquim Pedro de Andrade

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.12.2022
25.05.1932 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
10.09.1988 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica autoria desconhecida

Guerra Conjugal [cartaz], 1974
Joaquim Pedro de Andrade
Desenho
43,00 cm x 30,00 cm

Joaquim Pedro de Andrade (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1932 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988). Cineasta e roteirista. Destaca-se como um dos mais importantes nomes do cinema novo.

Texto

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Joaquim Pedro de Andrade (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1932 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988). Cineasta e roteirista. Destaca-se como um dos mais importantes nomes do cinema novo.

Quando estudante de física pela Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi), em que se gradua em 1956, reativa o cineclube da escola ao lado de colegas. Considera-se como sua primeira obra O mendigo e a pintura (1953), filme amador desse período, interpretado por Saulo Pereira de Mello (1933-2020).

Filho de Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), fundador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), acompanha o pai, em 1957, na restauração de obras de Aleijadinho (1738-1814) em Congonhas do Campo, Minas Gerais. Essa experiência se desdobra em momentos diversos de sua carreira, que tem início ao trabalhar como assistente de direção em Rebelião em Vila Rica (1958), dos gêmeos Geraldo e José Renato Santos Pereira (1925-?). 

Dentre os cineastas do cinema novo, Joaquim Pedro de Andrade é o que mais demonstra a afinidade do grupo no diálogo com a literatura brasileira. Em 1959, como sócio da Saga Filmes, realiza os curtas-metragens O mestre de Apipucos e O poeta do castelo, dois documentários com forte impulso ficcional, que registram o cotidiano do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) e do poeta Manuel Bandeira (1886-1968), respectivamente. Semelhantes nos elegantes movimentos de câmera e na narração verbal com a voz dos retratados, os curtas compõem dois estilos distintos da vida intelectual do país: Freyre se apresenta como um senhor da casa-grande, dentro de uma propriedade reduzida ao jardim rústico, em ações que insinuam uma persistente situação patriarcal; Bandeira é o homem urbano, de uma cidade que reflete sua própria solidão, resgatado por uma arte própria que o transporta para o território de sua invenção, Pasárgada1.

Entre 1961 e 1962, dedica-se aos estudos de cinema. Bolsista do governo francês, faz estágio no Institute des Hautes Études Cinématographiques de Paris (Idhec) e na Cinemateca Francesa. Trabalha para o produtor Sacha Gordine (1910-1968), que viabiliza a finalização do curta Couro de gato (1961), filmado no Rio de Janeiro. Graças a uma bolsa da Fundação Rockfeller, estuda em Londres com Thorold Dickinson (1903-1984) na Slade School of Arts e, em Nova York, tem aulas de técnicas de cinema direto com os irmãos Albert (1926-2015) e David Maysles (1931-1987). 

De volta ao Brasil, participa do projeto Cinco Vezes Favela, produzido em 1962 pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), com a inclusão de Couro de gato entre os episódios. Integra um dos núcleos fundadores do Cinema Novo ao lado do grupo da Pontifícia Universidade Católica (PUC), do cineasta Cacá Diegues (1940). Dirige o documentário Garrincha, alegria do povo (1962), seu primeiro longa-metragem, em que descreve a biografia do jogador, apresentando lances e dribles que o deixaram famoso e, na sua parte final, abandona o mito do jogador e se dedica à paixão do torcedor. 

Seu primeiro longa de ficção, O padre e a moça (1966), é criado a partir da sugestão de um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Diálogos ambíguos explicitam aos poucos os relacionamentos escusos que tanto o espectador quanto o novo padre, que chega a um lugarejo decadente de Minas Gerais, conseguem captar nas sombras e nos cantos das casas e da igreja. A protagonista luta para ter vontade própria, mas, subjugada pelos homens do local, busca no titubeante padre o auxílio para escapar da opressão. Essa é uma forma sutil de mostrar um Brasil preso a formas socioeconômicas arcaicas, em que predominam a repressão e o patriarcalismo.

Desde então, o cineasta realiza diversas adaptações literárias. Nelas se veem não apenas o encontro do realizador com o tema desenvolvido pelo escritor (o chamado respeito e fidelidade ao original), mas um embate reflexivo e crítico com as próprias obras literárias, procurando extrair uma ponte entre a criação escritural e o compromisso do cineasta com a época de realização dos filmes e com sua visão pessoal da cultura brasileira.

Macunaíma (1969), seu primeiro filme colorido, promove uma "radicalização ideológica" no romance de Mário de Andrade (1893-1945), propondo uma reflexão voltada tanto para a questão do mito da identidade nacional e da fundamentação ética de um herói brasileiro quanto para a constatação de um processo antropofágico institucionalizado, segundo o qual o Brasil devora os brasileiros pela miséria e pelo subdesenvolvimento em estado perpétuo.

Morre durante os preparativos de filmagem de Casa-Grande, Senzala & Cia, cujo roteiro é publicado em 2003. Na criação, pretendia investigar as origens da civilização brasileira: o patriarcado português, a contribuição indígena e negra, as lutas de afirmação nas quais é sedimentada a cultura do país.  Também postumamente, sai impresso, em 1990, o roteiro de O imponderável Bento contra o crioulo voador (escrito em 1986), em que, nas palavras de Carlos Augusto Calil (1951), "novela e roteiro cinematográfico [...] convivem num texto que exibe mérito literário evidente"2, cumprindo involuntariamente o cineasta a sua vocação inicial de escritor.

Com uma preocupação em retratar a realidade brasileira e, simultaneamente, um interesse em dialogar com obras caras da literatura, Joaquim Pedro de Andrade deixa um vasto legado para o cinema nacional. 
 
Notas

1. Referência ao poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira, publicado no livro Libertinagem (1930)

2. ANDRADE, Joaquim Pedro de. O imponderável Bento contra o crioulo voador. São Paulo: Marco Zero: Cinemateca Brasileira, 1990.p.8

Obras 7

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Exposições 5

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Festivais 1

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Mostras audiovisuais 12

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Fontes de pesquisa 15

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  • ANDRADE, Joaquim Pedro de. Casa-grande, senzala & cia: roteiro e diário. Rio de Janeiro: Aeroplano: Editora UFRJ, 2003.
  • ANDRADE, Joaquim Pedro de. O imponderável Bento contra o crioulo voador. São Paulo: Marco Zero: Cinemateca Brasileira, 1990.
  • ARAUJO, Luciana Sá Leitão Corrêa de. Joaquim Pedro de Andrade: primeiros tempos. Tese de doutorado. São Paulo, 1999.
  • BENTES, Ivana. Joaquim Pedro de Andrade. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.
  • BERNARDET, Jean-Claude. Piranha no mar de rosas. São Paulo: Nobel, 1982.
  • ESCOREL, Eduardo. Adivinhadores de água: pensando no cinema brasileiro. São Paulo: Cosac Naify, 2005. p. 85-94.
  • FILMES DO SERRO. Site de Joaquim Pedro de Andrade. Disponível em: http://www.filmesdoserro.com.br/jpa.asp. Acessado em: 18 ago. 2012.
  • FILMES DO SERRO; PETROBRAS. Vida em movimento: Joaquim Pedro de Andrade. Rio de Janeiro, 2006.
  • HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Macunaíma: da literatura ao cinema. Apresentação Leandro Tocantins. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978.
  • JOHNSON, Randal. Cinema novo x 5: masters of contemporary Brazilian film. Austin: University of Texas, 1984. p. 13-51.
  • MINISTÉRIO DA CULTURA. Joaquim Pedro de Andrade. Rio de Janeiro, 2000.
  • RAMOS, Alcides Freire. Canibalismo dos fracos: cinema e história do Brasil. Apresentação de Ismael Xavier. Bauru: Edusc, 2001. 362 p.
  • RAMOS, Fernão Pessoa; MIRANDA, Luiz Felipe (Orgs). Enciclopédia do cinema brasileiro. São Paulo: Senac, 2000. p. 23-25.
  • VIANY, Alex. O processo do cinema novo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 1999.
  • XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal. São Paulo: Brasiliense, 1993.

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