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Música

Hans-Joachim Koellreutter

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 28.07.2021
02.09.1915 Alemanha / Baden-Württemberg / Freiburg
13.09.2005 Brasil / São Paulo / São Paulo
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Hans Joachim Koellreutter, s.d.

Hans-Joachim Koellreutter (Freiburg, Alemanha 1915 - São Paulo SP 2005). Compositor, professor, flautista, regente. A resistência ao autoritarismo é uma das marcas da trajetória de Koellreutter. Ainda menino, recluso em casa como castigo às traquinagens praticadas na escola, dribla a solidão aprendendo, sozinho, a tocar um velho flajolé.¹ Em 193...

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Biografia

Hans-Joachim Koellreutter (Freiburg, Alemanha 1915 - São Paulo SP 2005). Compositor, professor, flautista, regente. A resistência ao autoritarismo é uma das marcas da trajetória de Koellreutter. Ainda menino, recluso em casa como castigo às traquinagens praticadas na escola, dribla a solidão aprendendo, sozinho, a tocar um velho flajolé.¹ Em 1934, contra a vontade do pai e da madrasta - monarquistas simpatizantes do nazismo -, ingressa na Academia Superior de Música de Berlim e estuda composição com Kurt Thomas. Ali funda o Círculo de Música Nova, que, entre outras afrontas ao governo nazista, toca peças de compositores judeus. Expulso da escola em 1936, por se recusar a filiar-se ao Partido Nazista, conclui os estudos de flauta com Gustavo Scheck e Marcel Moyse e regência com Hermann Scherchen (1891 - 1966) no Conservatório de Genebra, na Suíça. Como flautista, apresenta-se em vários países da Europa.

Denunciado à Gestapo² pela própria família, que não aceita seu noivado com uma judia, imigra em 1937 para o Rio de Janeiro. Começa a lecionar no Conservatório Brasileiro de Música, além de dar recitais e aulas particulares, e tem entre seus alunos o jovem Tom Jobim. Ao lado de importantes representantes da vida musical carioca, cria em 1939 o movimento Música Viva³ e realiza palestras e concertos com obras suas e de seus alunos. Produz o programa Música Viva na Rádio MEC do Rio de Janeiro, de 1939 a 1944, e publica a revista de mesmo nome a partir de 1940. Complementa os rendimentos trabalhando como tipógrafo numa editora de partituras e tocando flauta e saxofone num restaurante da Lapa.

Em 1940, passa a trabalhar na capital paulista, e troca a atividade de tipógrafo pela de vendedor. Dá aulas no Instituto Musical de São Paulo e continua a lecionar no Rio de Janeiro, para onde viaja com frequência, mas não consegue viver exclusivamente de música. Isso só ocorre quando, de volta ao Rio, em 1944, se torna flautista da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Fixa-se novamente em São Paulo em 1949, e aí funda, três anos depois, a Escola Livre de Música Pró-Arte, em que permanece como diretor até 1958. Em Salvador, cria em 1954 os Seminários Livres de Música, que dão origem à renomada Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, dirigida por ele até 1962.

Koellreutter desenvolve ainda intensa atividade internacional. Em 1948, naturaliza-se brasileiro, é recebido no 11º Festival Internacional da Música Contemporânea da Bienal de Veneza como líder de uma nova escola de composição do Brasil. No ano seguinte, leciona no curso de verão de Darmstadt, Alemanha. Isso o inspira a criar, em 1950, o Curso Internacional de Férias Pró-Arte, em Teresópolis, Rio de Janeiro, inaugurando a tradição de cursos e festivais de férias no país. Nos anos 1950, atua como professor e regente na Europa, divulgando trabalhos seus e dos alunos. Com bolsa da Fundação Ford, em 1962, torna-se artista residente em Berlim. Como diretor do Instituto Goethe, trabalha em Munique (1963-1964), Nova Délhi (1965-1969) e Tóquio (1969-1975).

Retorna ao Brasil em 1975, e se fixa definitivamente. Continua exercendo a atividade docente por longo período, mesmo após ser acometido pelo mal de Alzheimer.


Notas
1 Pequena flauta de apenas seis furos. Hoje, em desuso, antigamenteera tocada em bandas militares.

2 Acrônimo em alemão de GeheimeStaatspolizei, nome da polícia secreta do estado nazista alemão (1933-1945).

3 O germe do movimento data de 1938, quando um grupo de críticos músicos que se reúnem na loja carioca Pinguim - entre os quais figuram Luiz Heitor Correa de Azevedo, Andrade Muricy, Brasílio Itiberê, Luis Cosme e o próprio Koellreutter - se organiza a fim de incrementar a atividade musical no Brasil. A proposta é concretizada no ano seguinte, com a realização do primeiro recital. As ideias do grupo - que sofre grandes mudanças com o tempo - são difundidas no boletim mensal Música Viva (1940-1941; 1947), no programa homônimo exibido pela Rádio MEC (1944-1952) e em três conhecidos manifestos (1944, 1945 e 1946).

 

Comentário Crítico

A Berlim da década de 1930, onde Hans-Joachim Koellreutter obtém sua formação inicial, sedia vanguardas artísticas e movimentos de resistência cujo espírito questionador é rapidamente captado pelo jovem músico. Ali ele tem contato com o polêmico compositor alemão Paul Hindemith, embora não chegue a ser seu aluno. É o regente alemão Hermann Scherchen que, igualmente vítima da perseguição nazista, o acolhe em Genebra e o introduz ao atonalismo,¹ à técnica dodecafônica² e a outras correntes de vanguarda. Mas é somente no Brasil que Koellreutter compõe as primeiras peças com o uso da técnica dos 12 sons e, instigado por seu jovem aluno Cláudio Santoro, adquire a tendência para compor com o uso de séries e estuda a fundo a técnica de Arnold Schoenberg, resultando em Improviso, para flauta e piano (1938), Invenção, para oboé, flauta e fagote (1940), e Música, para piano solo (1941).

Koellreutter, contudo, não assume um compromisso exclusivo com a música de vanguarda. Ao contrário, inicia a divulgação de obras clássicas dos séculos XVII e XVIII, pouco conhecidas do público brasileiro, apegado ainda ao repertório romântico. Tampouco se opõe frontalmente, nesse momento, à corrente nacionalista então hegemônica. Antes reúne muitos de seus adeptos em torno do grupo Música Viva, cujos concertos divulgam obras de Lorenzo Fernandes, Francisco Mignone, Brasílio Itiberê, Camargo Guarnieri e Heitor Villa-Lobos, que é também presidente de honra do movimento. Com o passar do tempo, porém, a crítica ao folclorismo, a defesa da música como linguagem universal e o emprego do dodecafonismo e outras técnicas modernas de composição acabam por afastá-lo dos nacionalistas. Tal cisma fica evidente a partir de 1944, quando, reunindo um bom número de alunos, muitos deles bastante expressivos no cenário musical (como Santoro, Edino Krieger, César Guerra-Peixe e Eunice Katunda), Koellreutter cria uma escola. O manifesto de 1946, denominado Declaração de Princípios, define a música como "traço de cultura, sociedade e época" e reafirma a necessidade de se "educar para o novo" e "criar a postura revolucionária essencial". O grupo defende então a criação de uma escola de composição nacional, que deve estudar a fundo o folclore (e não apenas aproveitá-lo como temática), desenvolvendo-o a partir de técnicas modernas (dodecafonismo, atonalismo). Datam dessa época seus Noturnos, para contralto e quarteto de cordas (1945), sobre texto de Oneyda Alvarenga, e Sinfonia de Câmara (1947), que não apresentam nenhuma preocupação com o nacional.

Nos anos 1950, porém, os principais discípulos de Koellreutter, Santoro e Guerra-Peixe, afastam-se das técnicas de vanguarda e se aproximam do nacionalismo, em parte devido à aceitação do realismo socialista aprovado no 2º Congresso de Compositores e Críticos Musicais em Praga, em maio de 1948. Conforme palavras do próprio Koellreutter, a substituição da "estética do novo" pela "estética do povo" faz ruir o movimento. A publicação, em 1950, da Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil, em que Camargo Guarnieri ataca ferozmente Koellreutter e o dodecafonismo, marca o início do isolamento do compositor. Sem a força do grupo, ele encontra na docência um campo de divulgação de suas ideias, segundo as quais "a maior responsabilidade de um artista contemporâneo é a veiculação das mais novas ideias do tempo em que vive". Na Bahia, figuram entre seus alunos Ernest Mahle, Diogo Pacheco, Isaac Karabitchevsky, Tom Zé, Damiano Cozzella, Rogério Duprat e Júlio Medaglia. Os quatro últimos, ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil - frequentadores dos seminários livres -, deram origem ao movimento tropicalista, com influência das ideias de Koellreutter. A grande variedade de caminhos seguidos por seus discípulos se deve ao seu método de ensino, baseado na liberdade de expressão e na busca do estilo de cada aluno, de quem procura apreender o que ensinar. Segundo o professor Koellreutter: 1) não há valores absolutos; 2) não há "erro" em arte, o importante é inventar o novo; 3) não acredite em nada que o professor disser; pergunte sempre porquê.

Na década de 1960, as constantes viagens ao Oriente influenciam fortemente sua produção musical. Na Índia e no Japão, onde trabalha como diretor do Instituto Goethe, entra em contato com a música microtonal, que incorpora em suas composições, e com as filosofias orientais (zen-budismo e hinduísmo), as quais o inspiram na criação da "estética relativista do impreciso e do paradoxal". Esta procura romper com a precisão métrica e racional da música ocidental ao mesmo tempo que propõe a superação de seus mais caros dualismos, como dissonância/consonância, melodia/acorde, contraponto/harmonia. Com base nesses princípios, Koellreutter cria obras de forma variável (ou aberta), que vem experimentando desde a Sistática, para flauta solo, 1955. Também desenvolve a técnica de composição planimétrica, que esboça em Concretions, 1960, provavelmente influenciado pela notação gráfica³ que está se desenvolvendo na Europa e nos Estados Unidos. Nessa técnica, ele une o predeterminado (escrita) ao aleatório (interpretação). Utilizando um plano, elabora diagramas multidirecionais, nos quais distribui signos musicais que representam sons, silêncios e durações. No entanto, cabe ao intérprete combinar aleatoriamente as alturas, andamentos e timbres indicados. Em Acronon, 1979, ele substitui o plano por um suporte tridimensional, construindo os diagramas sobre uma esfera de acrílico transparente, que deve ser posicionada aleatoriamente pelos intérpretes durante a execução. Ainda se aventura pela música eletroacústica, compondo, entre outras peças, Sunyata, para flauta, orquestra e fita magnética, de 1968, e Dharma, para orquestra de câmara e instrumentos elétricos, de 1993.

Sua última peça de envergadura é a ópera Café, escrita entre 1974 e 1996, sobre libreto de Mário de Andrade. Nela combina procedimentos planimétricos, atonais, dodecafônicos, seriais, assimétricos e aleatórios, chegando a escrever um samba dodecafônico. Representada pela primeira vez no Teatro Brás Cubas, em Santos, São Paulo, no governo da prefeita Telma de Souza.
 
Notas
1 Técnica (ou conjunto de técnicas) que não segue os parâmetros do tradicional sistema tonal. Para tanto, evita-se construir melodias e harmonias que repousem sobre uma determinada altura (nota) ou centro tonal.

2 Técnica de composição atonal criada por Arnold Schoenberg, que propõe o uso de séries de 12 sons da escala cromática.

3 Tipo de escrita musical que, negando o tradicional pentagrama, utiliza novos signos e suportes para grafar sons não convencionais, muitos deles de altura e duração imprecisas.

Fontes de pesquisa 7

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  • BRITO, Maria Teresa Alencar de. Koellreutter educador: o humano como objetivo da educação musical. São Paulo: Editora Fundação Peirópolis, 2001.
  • CACCITORE, Olga. Dicionário biográfico de música erudita brasileira. Rio: Forense Universitária, 2005.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • KATER, Carlos, Música Viva e H. J. Koellreutter: Movimentos em direção à modernidade. São Paulo: Musa/Atravez, 2001.
  • KOELLREUTTER, J. H. "Entrevista de 1977 com Hans-Joachin Koellreutter". Republicada em O Estado de S. Paulo, 17/09/2005.
  • KOELLREUTTER, J. H. "Lições de vanguarda". Entrevista a Carlos Adriano e Bernardo Vorobow. Folha de S. Paulo, Caderno Mais!, 07/11/1999.
  • NEVES, José Maria. Música contemporânea brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2008.

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