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Artes visuais

Ernesto Nazareth

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 04.11.2019
20.03.1863 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
04.02.1934 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Ernesto Nazareth, s.d.

Ernesto Silva Nazareth (Rio de Janeiro RJ 1863 - idem 1934). Compositor e pianista. Nasce no Morro do Nhéco, entre os bairros de Santo Cristo e Cidade Nova, na capital do Rio de Janeiro. É o segundo dos cinco filhos de Vasco Lourenço da Silva Nazareth, um pequeno funcionário aduaneiro, e Carolina da Silva Nazareth. Sua mãe, com quem inicia os es...

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Biografia

Ernesto Silva Nazareth (Rio de Janeiro RJ 1863 - idem 1934). Compositor e pianista. Nasce no Morro do Nhéco, entre os bairros de Santo Cristo e Cidade Nova, na capital do Rio de Janeiro. É o segundo dos cinco filhos de Vasco Lourenço da Silva Nazareth, um pequeno funcionário aduaneiro, e Carolina da Silva Nazareth. Sua mãe, com quem inicia os estudos de piano, morre em 1873, e a família muda-se para o Bairro do Andaraí. Em seguida estuda piano com o professor Eduardo Moreira. Aos 10 anos cai de uma árvore e sofre hemorragia em um dos ouvidos. Esse acidente ocasiona problemas auditivos que se manifestam em 1893 e o acompanham por toda a vida.

Começa a compor, ainda jovem, valsas, polcas, tangos e suas variações, como Você Bem Sabe! (1877), O Nome d'Ella (1879), Cruz Perigo! (1879), e logo publica suas obras pela Casa Arthur Napoleão & Miguez. Em 1881, edita Não Caio n'Outra, seu primeiro sucesso de vendas, em resposta a Caiu, Não Disse?, do flautista Viriato. Publica em várias outras casas editoriais, como a Viúva Filipone e Filha, Buschmann & Guimarães, Pereira & Araújo, Fertin de Vasconcellos & Morand, Vieira Machado & Cia. e mais tarde na E. Bevilacqua e Cia. e Vitalle.

Além de compor, concentra-se no aprendizado de piano, pois pretende tornar-se concertista. Tem aulas com o professor Lucien Lambert em 1881, mas aprofunda seus estudos de maneira autodidata. A partir de 1885 faz concertos em conhecidos clubes da época, como o do Rio Comprido, Engenho Velho, São Cristóvão e Rossini.

Ernesto Nazareth procura sustentar a família com as atividades artísticas, editando suas composições, dando aulas de piano e se apresentando em festas, concertos e lojas de instrumentos musicais, como a Casa Arthur Napoleão & Miguez, um importante centro de irradiação musical da cidade. Como as atividades artísticas profissionais no período são precárias, em 1907 trabalha como terceiro escriturário do Tesouro Nacional, mas logo deixa o cargo. Faz por encomenda alguns hinos e composições. De 1910 a 1913 é contratado para tocar na sala de espera do Cine-Teatro Odeon, na Avenida Central, ao qual retorna em 1918 para tocar acompanhado por pequena orquestra da qual participa Villa-Lobos. Ainda em 1910 edita pela Casa Mozart a obra Odeon, homônima do teatro, que se torna um clássico da música brasileira. Dois anos depois grava a composição em disco 78 rpm pela Casa Edison, com o flautista Pedro Alcântara. Entre 1919 e 1925 trabalha na Casa Carlos Gomes, fundada por Eduardo Souto, como pianista demonstrador de partituras, e nas décadas de 1920 a 1930 volta a gravar algumas de suas composições.

No fim da primeira década do século XX, a convite do maestro Alberto Nepomuceno, apresenta ao piano alguns concertos no Instituto Nacional de Música e teatrono Teatro João Caetano, com reação negativa da elite. Essa reação se repete com mais vigor nos concertos organizados por Luciano Gallet em 1922, quando toca somente suas composições. Nos anos de 1926 e 1927 viaja para São Paulo, onde é bem acolhido, e com apoio de Mário de Andrade (1893 - 1945) apresenta-se no Conservatório Dramático Musical e em concertos promovidos pela Sociedade Cultura Artística. Bastante doente e com a surdez avançada, em 1932, faz alguns concertos pelo Rio Grande do Sul e viaja ao Uruguai.

Ao retornar do sul, com os sintomas agravados, interna-se no Hospital de Neurossífilis da Fundação Gaffrée e Guinle. Após nova crise, em 1933, é internado na Colônia Juliano Moreira.

Em fevereiro de 1934 foge da colônia e seu corpo é encontrado no dia 4 nas águas da represa existente na mata nos arredores. É sepultado no cemitério do Caju em 5 de fevereiro.

 

Comentário crítico

A obra de Ernesto Nazareth revela a multiplicidade das experiências musicais realizadas na cidade do Rio de Janeiro entre o fim do século XIX e início do XX. Capital política e econômica do Império e da primeira fase da República, maior porto e centro urbano do Brasil, o Rio atrai por diferentes motivos populações com as mais variadas tradições culturais. Nesse espaço urbano em crescimento e ebulição, para o qual convergem elementos modernizadores e os arcaísmos das tradições escravistas, essas culturas criam, dialogam e sintetizam experiências, e nelas a música ocupa lugar de destaque. Gêneros europeus, sobretudo a polca, mas também quadrilha, mazurca e valsa, executados ao piano nos salões, convivem cotidianamente com os ritmos afro-americanos dos batuques e lundus, e com as modinhas brasileiras. As contaminações e trocas culturais são as mais diversas. Esses gêneros e suas múltiplas misturas são apresentados em extensa rede de difusão musical urbana, constituída por praças e salões, festas públicas e populares, teatros formais e de revista, cafés-concertos e cantantes, e, já no início do século XX, na indústria fonográfica e no Carnaval.

É nesse efervescente universo de diálogos culturais e musicais que Nazareth constrói sua escuta e a devolve à sociedade em forma de tango, polca, valsa, samba, marcha, quadrilha e schottische. Apresentadas de maneira inovadora e diferente, suas composições são ao mesmo tempo formas privilegiadas dos intercâmbios entre as inúmeras culturas populares e a erudita. Nazareth é antes de tudo um verdadeiro intermediário cultural que sintetiza de modo criativo aspectos da moderna música urbana em formação no Brasil. Seus "tangos brasileiros", cuja denominação tenta camuflar seus aspectos populares, é a expressão dessas sínteses. Para eles convergem a "febre das polcas" da segunda metade do século XIX, a prática dos pianeiros cariocas do período, os timbres e práticas instrumentais do choro em formação e, sobretudo, os requebros dos maxixes e lundus, que tratam de deslocar o acento rítmico "fora do tempo".

Fundada nessa misturada de gêneros e práticas musicais, a obra de Nazareth serve como eixo de decantação da síncope característica que se torna a base organizativa da música popular urbana do período. Presente ainda de maneira tímida em Cruz Perigo (1879), ela é célula rítmica central, por exemplo, em Rayon d'Or (1892) e Brejeiro (1893). Nas duas dezenas de "polcas" que Nazareth compõe nesse período, a síncope está completamente incorporada traçando caminhos para a música popular urbana. Em seus "tangos característicos" como Turuna (1899), Floraux (1909), Batuque (1913) e Mesquitinha (1914), ocorre o mesmo, com a síncope completamente integrada e consolidada. Na realidade, do ponto de vista estritamente musical os maxixes e os "tangos brasileiros" se equivalem. Suas representações sociais e culturais é que estabelecem as diferenças: popular e marginal no primeiro caso e de salão e entretenimento da elite carioca no segundo.

Mário de Andrade identifica a obra de Nazareth como precursora e anunciadora do maxixe, embora fosse essencialmente instrumental, rítmica e por isso mesmo com pouco apego ao sucesso. Mas, contraditoriamente, alcança fama. Segundo o musicólogo, talvez porque já trouxesse a forte vocação à oralidade e tendência à canção. Na verdade seu pensamento musical tem forte traço polifônico em que se sobrepõem camadas rítmicas, melódicas e harmônicas, como ocorre, por exemplo, na composição Odeon (1910).

A prática instrumental do piano é característica importante nas composições de Ernesto Nazareth. O piano está presente em toda sua trajetória musical e na cultura de sua época, e sem ele não é possível compreender sua obra. Sua prática é reveladora da febre pianística existente nos salões cariocas do período, como também expressa de modo evidente o uso popular que pianistas dos cafés-concertos e pequenos teatros fazem dela, apresentando outras formulações, sobretudo rítmicas. Ao mesmo tempo, expressa a ambição, que Ernesto Nazareth carrega por toda a vida, de tornar-se concertista erudito, mas sem conseguir reconhecimento e sucesso. Esse conflito, espelhando sua trajetória, é tratado por Machado de Assis (1839 - 1908) no conto Um Homem Célebre (1888). Nele conta a história do pianista Pestana, que em toda sua vida sonha ser grande compositor e concertista. No entanto ao sentar-se ao piano só consegue compor polcas, fato que o torna, para sua angústia, muito popular.

A vida profissional de Nazareth é diversificada e construída no variado circuito de difusão da música da época, colaborando destacadamente para dar fama a sua obra. Suas composições são publicadas por várias casas editoriais e tocadas nos salões privados, tal como ocorre com o Pestana de Machado de Assis. Ele as toca nas casas de instrumentos musicais, nas salas de espera dos cinemas e alguns recitais. Elas são populares entre os pianeiros e chorões. Por fim, algumas delas chegam por suas próprias mãos ou pelas de outros intérpretes à incipiente indústria fonográfica, expandindo sua circulação e consolidando a influência na moderna música brasileira. Sua fama e importância na época podem ser medidas pela avaliação, em 1919, do compositor francês Darius Milhaud: "Nazareth é o maior criador da música brasileira".

Como produto desse criativo processo de construção, mistura e síntese musical, Ernesto Nazareth deixa registrados 88 tangos, 41 valsas, 28 polcas e mais hinos, sambas, marchas, quadrilhas, schottisches, foxtrotes, romances, entre outros gêneros, totalizando 212 composições.

Exposições 2

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Fontes de pesquisa 7

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  • ACERVO Instituto Moreira Salles. Disponível em: <http://ims.uol.com.br/ims/>. Acesso em: 07 dez. 2009.
  • ANDRADE, Mário. Ernesto Nazareth (Conferência na Sociedade de Cultura Artística, de S. Paulo). In: Música, doce música. São Paulo: Martins Editora, 1963.
  • ARAÚJO, Mozart. Ernesto Nazareth. In: Revista brasileira de cultura, Rio de Janeiro, ano 4, n. 14, 1972.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • MACHADO, Cacá. O enigma do homem célebre: ambição e vocação em Ernesto Nazareth. São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2007.
  • SANDRONI, Carlos. Feitiço decente. Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1933). Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed./Ed.UFRJ, 2001.
  • WISNIK, José Miguel. Machado Maxixe: o caso Pestana. In: Teresa. Revista de Literatura Brasileira. São Paulo: Ed. 34, n. 4/5, pp. 13-79, 2003.

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