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Música

Fernando Brant

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.06.2015
09.10.1946 Brasil / Minas Gerais / Caldas
12.06.2015 Brasil / Minas Gerais / Belo Horizonte
Fernando Rocha Brant (Caldas, MG, 1946 - Belo Horizonte, MG, 2015). Compositor e letrista. A família de origem mineira mantém vida itinerante, pois o pai, juiz de direito, serve em diversas cidades de Minas Gerais. Brant nasce na cidade de Caldas, sul do estado, onde vive até os 5 anos e dali segue para Diamantina. A família, composta de dez irm...

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Biografia
Fernando Rocha Brant (Caldas, MG, 1946 - Belo Horizonte, MG, 2015). Compositor e letrista. A família de origem mineira mantém vida itinerante, pois o pai, juiz de direito, serve em diversas cidades de Minas Gerais. Brant nasce na cidade de Caldas, sul do estado, onde vive até os 5 anos e dali segue para Diamantina. A família, composta de dez irmãos, se instala em Belo Horizonte quando ele tem 9 anos. Na capital realiza sua formação escolar, tem iniciação literária na biblioteca de casa e musical escutando rádio e discos. Ingressa na faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde participa de jornais e do diretório acadêmico. Formado, trabalha no Juizado de Menores de Belo Horizonte e depois como jornalista na revista O Cruzeiro (1969-1974). Em seguida torna-se redator de agência de publicidade e no final dos anos 1970 passa a viver exclusivamente de música.

Em meados da década de 1960, frequenta com colegas estudantes bares e cinemas no centro da cidade, onde conhece os irmãos Borges e outros jovens artistas. Começam a se encontrar para ensaios no apartamento da família Borges e ali conhece Wagner Tiso (1945), Beto Guedes e Milton Nascimento (1942), dando inicio ao movimento clube da esquina. Em 1967, Brant escreve sua primeira letra para uma música de Milton Nascimento, Travessia. A canção obtém o segundo lugar no II Festival Internacional da Canção da TV Globo, no Rio de Janeiro, revelando a dupla de compositores mineiros. A partir deste momento, passa a ter um papel importante como um dos principais letristas do Clube da Esquina e inicia uma longa amizade e parceria com Milton Nascimento.

Em 1969, muda-se para o Rio de Janeiro para trabalhar na revista O Cruzeiro, mas a parceria com os músicos mineiros permanece. Nesse mesmo ano Milton Nascimento grava algumas de suas composições, como Sentinela, Travessia e Outubro. Na década de 1970 ele grava dezenas de composições de Brant, fazendo dele seu principal parceiro. Nos anos 1980, ainda com Milton Nascimento, compõe alguns sucessos de público, como Canção da América (1980), Nos Bailes da Vida (1982) e Encontros e Despedidas (1985). Nessa década atua na defesa dos compositores e dos direitos autorais, torna-se diretor da União Brasileira de Compositores (UBC), no cargo de presidente, até a década de 2010. Nos anos 1990 continua compondo com o grupo de mineiros, dos quais fazem parte Wagner Tiso, Toninho Horta (1948), Beto Guedes, Lô Borges (1952), Flávio Henrique, Tunai, Sirlan, Gilvan de Oliveira, Yuri Popoff e, principalmente, Milton Nascimento. Só abre exceções para Joyce (1948), Eduardo Gudin (1950), Danilo Caymmi (1948) e Cleberson Horsth, do grupo Roupa Nova. No disco Nascimento (1997), de Milton Nascimento, vitorioso no Grammy de 1998, registra duas canções.

Participa também da realização da trilha sonora do documentário Tostão, a Fera de Ouro (1969) e dos espetáculos coreográficos, em parceria de Milton Nascimento, Maria, Maria (1976) e O Último Trem (1980), ambos encenados pelo Grupo Corpo, e Fogueira do Divino (2000), neste último tendo como parceiro Tavinho Moura.

Tem dois discos gravados apenas com composições suas, cantadas por vários intérpretes: Amigo É Coisa pra se Guardar (Odeon, 1987) e Outubro (2002). Com Tavinho Moura grava, em 2006, o disco Conspiração dos Poetas, acompanhados por Mariana Brant, sua sobrinha.

A partir de 2001, torna-se cronista e colaborador do jornal Estado de Minas e em 2004 publica coletânea de seus textos sob o título de Clube dos Gambás, pela editora Record.

Comentário crítico
A obra poética destinada à canção criada por Fernando Brant se confunde com o movimento musical mineiro que ficou conhecido como Clube da Esquina. Este, por sua vez, é influenciado pela evolução da trajetória artística individual de Milton Nascimento. Logo, é difícil dissociar estas três realidades, sobretudo no período que alcança o final dos anos 1960 até a década de 1980.

As influências musicais e culturais presentes no clube da esquina e na carreira do compositor são bem diversificadas. Elas revelam a dinâmica dos movimentos culturais da juventude do período, que busca do ponto de vista musical e poético novas e diferentes experiências. De modo geral, aponta para a escuta aberta e diálogos com várias tradições, como as da música brasileira, do rock e do jazz. A presença do rock em suas diversas variantes é muito evidente entre eles. Desde a influência da poética, dos vocais e guitarras dos Beatles, referência nos anos 1960, passando pelas formas do rock mais experimental e progressivo na década seguinte. Além disso, eles têm em vista também as formas e conteúdos relacionados com as novidades da bossa nova e MPB, em expansão no período. A partir dos anos 1970, aparece o nítido interesse pelo jazz nas suas formulações mais puras e também no seu diálogo com o rock. Por fim, as tradições musicais regionais mineiras se apresentam na obra do clube da esquina e, consequentemente, de Fernando Brant. Assim, a poesia destinada à canção aparece como alternativa para os jovens poetas que procuram novos caminhos culturais nos anos 1960 e 1970. Como compositor e poeta, Fernando Brant é, ao lado dos irmãos Borges, protagonista desta dinâmica entre os jovens mineiros do clube da esquina, sendo identificado com o movimento.

Sua parceria com os músicos mineiros é frequente. No disco Milton Nascimento (1969), por exemplo, entre as dez canções que compõe a obra, seis são parcerias com Brant: Sentinela, Rosa do Ventre, Beco do Mota, Sunset Marquis, Aqui Ó e Travessia. Neste mesmo ano, tem ainda registrado Bridges (Travessia) e Outubro no LP Courage, gravado por Milton Nascimento nos Estados Unidos. Na década seguinte, a parceria com Nascimento e os outros mineiros é reforçada. No disco Milton, de 1970, tem cinco canções gravadas: Para Lennon e McCartney (com Márcio e Lô Borges), Durango Kid (com Toninho Horta), Aqui é o País do Futebol, O Homem da Sucursal e Maria 3 Filhos. Em Clube da Esquina I (1972) apresenta San Vicente, Paisagem na Janela (com Lô Borges), Ao que Vai Nascer e Saídas e Bandeiras 1 e 2. No ano seguinte, por imposição da censura, o disco Milagre dos Peixes é basicamente instrumental e experimental e, por isso, a parceria se limita à canção homônima e Escravos de Jó. Nos LPs seguintes, ele registra Ponta de Areia, Saudade dos Aviões da Panair (Conversando no Bar), Idolatrada em Minas (1975) e Promessas do Sol em Geraes (1976). Em Clube da Esquina II (1978), Brant participa com Credo, Canoa Canoa (parceria com Nelson Ângelo), Paixão e Fé (parceria com Toninho Moura), O que Foi Feito Devera e Maria, Maria, que rapidamente alcança sucesso de público.

Nos anos 1980 mantém a parceria com Milton Nascimento. O disco Sentinela (1980) apresenta seis canções suas: Canção da América, Roupa Nova, Povo da Raça Brasil, Sentinela, Bicho Homem e Itamarandiba. Caçador de Mim (1981), mais cinco: Amor Amigo, Notícias do Brasil, Vida, Nos Bailes da Vida e Coração Civil. Encontros e Despedidas (1985), quatro; Yauretê (1987), seis; e Miltons (1989), mais quatro. Nas duas décadas seguintes a parceria continua, mas já sem uma produção tão volumosa. De qualquer modo, é justamente por essa parceria permanente, altamente produtiva e formada por músicas de sucesso que se pode dizer que Brant é o principal parceiro de Milton Nascimento.

Porém, além do cantor mineiro, suas canções foram gravadas por dezenas de outros intérpretes, como Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Fafá de Belém, Gal Costa, Sarah Vaughan, MPB-4, Dori Caymmi, Elis Regina e Mercedes Sosa.

Os temas que Fernando Brant aborda em sua obra poética são muito variados e, como é comum entre os jovens dos anos 1960 e 1970, revelam uma postura crítica e de insatisfação com a vida moderna. Em oposição, ele tenta apontar para a procura de novas relações humanas, étnicas e comunitárias. Busca essas referências tanto no regionalismo mineiro como em um universo supranacional. É por isso que muitas vezes sua obra é vista sob um ponto de vista do engajamento político, que na verdade se torna evidente nos anos 1980 em razão da dinâmica política nacional no período. No entanto, Brant ultrapassa esses limites, já que evidencia também um conteúdo filosófico que pretende discutir questões como a morte, o destino humano, as dúvidas existenciais e as relações pessoais e sociais.

Espetáculos 3

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Fontes de pesquisa 7

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  • BORGES, Márcio. Os sonhos não envelhecem: histórias do Clube da Esquina. São Paulo: Geração Editorial, 1996.
  • Catálogo de 15 anos de Ponto de Partida - 1995. Não catalogado
  • DOLORES, Maria. Travessia. A vida de Milton Nascimento. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • GARCIA, Luiz Henrique. Coisas que ficaram muito tempo por dizer: o Clube da Esquina como formação cultural. 160 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2000.
  • MORRE o parceiro de Milton Nascimento no Clube da Esquina. O Estado de S. Paulo, Sâo Paulo, 13 jun. 2015. Caderno 2, C5.
  • VIEIRA, Francisco Carlos Soares Fernandes. Pelas esquinas dos anos 70: utopia e poesia no Clube da Esquina. 136 f. Dissertação (Mestrado em Poética) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1998.

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