Artigo da seção pessoas Lúcio Alves

Lúcio Alves

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deLúcio Alves: 28-01-1927 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Cataguases) | Data de morte 03-08-1993 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Lucio Ciribelli Alves (Cataguases MG 1927 - Rio de Janeiro RJ 1993). Cantor, arranjador, violonista e compositor. Mineiro da cidade de Cataguases, aos 7 anos muda-se com a família para o Bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, e aprende a tocar violão com o pai. Suas primeiras influências musicais vêm de cantores brasileiros, como Orlando Silva, e de norte-americanos, como Bing Crosby. Faz sua estreia em 1936, no programa Picolino, de Barbosa Junior, na Rádio Mayrink Veiga. No ano seguinte, forma o conjunto vocal Namorados da Lua, com o qual se profissionaliza, em 1941. Responsável pelos arranjos de vozes do grupo, lança uma série de discos em 78 rpm, emplacando seu primeiro sucesso em 1945, Eu Quero um Samba, de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida. Ganha o apelido de "O Cantor das Multidinhas", em comparação com seu ídolo Orlando Silva, "O Cantor das Multidões". Em 1947, Isaura Garcia grava o samba De Conversa em Conversa, primeira composição de Lucio em parceria com Haroldo Barbosa. Nesse ano, deixa seu conjunto para se dedicar à carreira solo e assina com a gravadora Continental. Viaja para Havana, para integrar o grupo Anjos do Inferno, acompanhante de Carmen Miranda, seguindo posteriormente para os Estados Unidos. Retorna ao Brasil em 1949, e é homenageado por jovens, que criam o Dick Haymes-Lucio Alves Fan Club para rivalizar com o Sinatra-Farney Fan Club (em tributo a Frank Sinatra e Dick Farney).

Até o segundo semestre de 1958 (época de lançamento de Chega de Saudade, com João Gilberto, e do surgimento da bossa nova), Alves grava mais de 30 discos em 78 rpm, alcançando sucesso com temas como Sábado em Copacabana (Dorival Caymmi e Carlos Guinle), em 1951, e Teresa da Praia (Tom Jobim e Billy Blanco), em 1954, ao lado de Dick Farney, encerrando a suposta rivalidade entre os dois, imaginada pelos fã-clubes dos cantores. Em 1957, lança o LP Serestas, sem grande repercussão. Com o advento da bossa nova, grava em duo com Sylvia Telles Eu Não Existo sem Você (1958), de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; Estrada do Sol (1959), de Tom Jobim e Dolores Duran; e Dindi (1960), de Tom Jobim e Newton Mendonça. Com o sucesso do gênero, lança LPs como Lucio Alves, Sua Voz Íntima, Sua Bossa Nova, Interpretando Sambas em 3-D (1959); A Noite do Meu Bem (1960), com composições de Dolores Duran; A Bossa É Nossa e Cantando depois do Sol (1961); Tio Samba - Música Americana em Bossa Nova (1962); Balançamba (1963), com temas de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli; e Bossa Session (1964), ao lado de Sylvia Telles. A partir da segunda metade dos anos 1960, com o surgimento da jovem guarda, de músicas menos sofisticadas e de mais apelo comercial, Alves perde espaço em gravadoras e casas de shows, ficando 11 anos sem gravar. Volta a lançar um LP, Lucio Alves e as Mulheres, em 1975. Até o fim de sua carreira, lança dois álbuns ao vivo: Dóris Monteiro e Lucio Alves no Projeto Pixinguinha (1978) e Romântico (1986). Com dificuldades financeiras e problemas circulatórios, morre no dia 3 de agosto de 1993, num apartamento alugado, no Leblon.

Análise

Considerado um dos maiores cantores brasileiros do fim da década de 1940 até meados de 1950, Lucio Alves inicia a carreira musical muito jovem. Aos 14 anos é profissional e convive com artistas mais velhos: os integrantes de seu conjunto, Namorados da Lua; com o público para o qual se apresenta nos cassinos do Rio de Janeiro (Atlântico e Copacabana); e compositores e intérpretes mais experientes, como Haroldo Barbosa e Isaura Garcia, também responsáveis pelo sucesso de sua canção De Conversa em Conversa. É nesse ambiente que sua formação artística se concretiza, os hábitos cotidianos transformam Alves em adulto ainda na juventude: aos 14 anos ele bebe, fuma e deixa a casa dos pais para morar com uma mulher de muito mais idade. Também na primeira metade dos anos 1940, lança diversos discos em 78 rpm com o Namorados da Lua, emplacando apenas dois sucessos: Sábado em Copacabana e Eu Quero um Samba.

No grupo Namorados da Lua, Alves canta e toca violão, mas é nos arranjos vocais que demonstra mais desenvoltura. Mesmo sem saber ler partituras, elabora combinações de vozes extremamente originais para os sambas De Conversa em Conversa, Eu Quero um Samba, Desgosto e a marcha Vestidinho de Iaiá. As fontes de inspiração vêm de conjuntos vocais norte-americanos, como Starlighters, Modernaires, Pied Pipers, Pastels e Page Cavanaugh Trio. O trabalho criativo de Alves influencia diversos grupos que aparecem depois, entre eles Os Garotos da Lua, Vagalumes do Luar, Os Cariocas, Os Modernistas (de João Donato) e Anjos do Inferno. Ele integra este grupo entre 1948 e 1949, em turnê nos Estados Unidos. Ao lado de Aluísio Ferreira, Harry Vasco de Almeida, Walter Pinheiro e Russinho, impressiona os norte-americanos cantando composições brasileiras e chega até a gravar Too Marvelous for Words, com ajuda do amigo Jorge Aminthas Cravo, o "Cravinho", para a orquestra de Tex Beneke. Contrariando a amiga Carmen Miranda, Alves decide retornar o Brasil em 1949 para dar continuidade à carreira solo na gravadora Continental.

A volta e o alcance de grande sucesso no Brasil rendem a criação de um fã-clube em sua homenagem, o Dick Haymes-Lucio Alves Fan Club (rival do Sinatra-Farney Fan Club). As duas organizações de jovens admiradores são frequentadas por nomes como João Donato, Johnny Alf, Paulo Moura, Raul Mascarenhas, Fafá Lemos, Cyl Farney, Carlos Manga, Nora Ney entre outros. Ao lado de Farney, Alves é considerado por críticos e especialistas como revolucionário na maneira de cantar e uma das influências para a bossa nova. Com pinta de galã e carreira bem-sucedida também nos Estados Unidos, Farney canta de maneira mais intimista e sedutora para os ouvintes, o que lhe rende o apelido de "Voz de Travesseiro". Sem contar sua admiração por jazz e sua extrema habilidade ao piano. Do outro lado, Alves se mostra mais competente cantando do que ao violão. Sua maior qualidade é combinar a potência da voz de barítono (por conta disso é apelidado de "Besouro" pelo sambista e compositor Cyro Monteiro) com um jeito envolvente de cantar e fazer divisões das frases muito mais desenvoltas e naturais em comparação com o que se fazia anteriormente. À exceção de Mario Reis, nos anos 1930 e 1940, só há espaço para os apreciadores do bel-canto, como Francisco Alves, Orlando Silva, Carlos Galhardo, Vicente Celestino e Silvio Caldas. Com o jeito novo de cantar e escolha de repertório criteriosa, fugindo dos tradicionais boleros da época, Lucio passa a ser referência assumida de João Gilberto.

Em relação à discografia, Lucio Alves é coerente e linear. Depois de lançar mais de 40 discos em 78 rpm, ele registra 11 LPs, cantando basicamente samba e bossa nova. Os de menos repercussão são Seresta (1957), antítese de seu modernismo estético, incluindo quatro composições de Silvio Caldas (Chão de Estrelas, Serenata, Suburbana e Arranha-Céu), e Tio Samba - Música Americana em Bossa Nova (1962), no qual, convencido pelo diretor da Philips, Aloysio de Oliveira, grava um disco com versão em português de standards norte-americanos. No álbum, as letras em português são escritas pelo próprio Aloysio, além de Fred Jorge e Haroldo Barbosa. Sua estreia em LP, em 1959, com Lucio Alves, Sua Voz Íntima, Sua Bossa Nova, Interpretando Sambas em 3-D, tem marcos históricos de Lá Vem a Baiana, Se Acaso Você Chegasse, Beija-Me e Ninguém Me Ama. No ano seguinte, ao lado de nomes como Luiz Carlos Vinhas, Chiquinho do Acordeom, Ed Lincoln e Baden Powell, com A Noite do Meu Bem, ele interpreta composições de Dolores Duran, com destaque para as duas parcerias dela com Tom Jobim: Estrada do Sol e Por Causa de Você. Já em Balançamba (1963), registra apenas temas de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, como Rio e O Barquinho. Em 1975, após 11 anos sem lançar um disco, desponta com Lucio e as Mulheres, em que canta apenas composições com nomes femininos, como Lígia, Rosa, Januária, Helena, Helena, Helena, entre outras. Destaque também para o disco ao vivo Dóris Monteiro e Lucio Alves no Projeto Pixinguinha (1978), em que os dois interpretam juntos De Conversa em Conversa e Mudando de Conversa.

Outras informações de Lúcio Alves:

  • Outros nomes
    • Lúcio Ciribelli Alves
  • Habilidades
    • Compositor
    • Instrumentista
    • Cantor/Intérprete

Fontes de pesquisa (8)

  • Acervo da Fundação Joquim Nabuco (discos de 78 rpm). Disponível em:  www.fundaj.gov.br.
  • Acervo do Instituto Moreira Salles (discos de 78 rpm). Disponível em: www.ims.com.br
  • BOTEZELLI, J. C., e PEREIRA, Arley. A Música Brasileira Deste Século Por Seus Autores e Intérpretes. São Paulo, SESC, 2003.
  • CASTRO, Ruy. A Onda Que Se Ergue No Mar - Novos Mergulhos na Bossa Nova. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.
  • CASTRO, Ruy. Carmen - Uma Biografia. São Paulo, Companhia das Letras, 2005.
  • CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A Canção no tempo II: 85 anos de músicas brasileiras (1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. v. 2. (Ouvido Musical)
  • SEVERIANO, Jairo. Uma História da Música Popular Brasileira - Das Origens à Modernidade. São Paulo, editora 34, 2008.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • LÚCIO Alves. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12623/lucio-alves>. Acesso em: 02 de Abr. 2020. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7