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Música

Paulinho da Viola

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 25.10.2019
12.11.1942 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Paulo César Baptista de Faria (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1942). Compositor, cantor e instrumentista. Filho mais velho do violonista César Faria (1919-2007), integrante do conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim (1918-1969). Começa a tocar violão com 15 anos, influenciado pelo pai. Paralelamente, frequenta as reuniões promovid...

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Paulo César Baptista de Faria (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1942). Compositor, cantor e instrumentista. Filho mais velho do violonista César Faria (1919-2007), integrante do conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim (1918-1969). Começa a tocar violão com 15 anos, influenciado pelo pai. Paralelamente, frequenta as reuniões promovidas pelo pai em sua casa com grandes nomes do choro e do samba do Rio de Janeiro, como Pixinguinha (1897-1973), Jacob do Bandolim e Dino 7 Cordas (1918-2006). Frequenta também os saraus organizados por Jacob do Bandolim.

Com 17 anos, ingressa na ala de compositores da escola de samba União de Jacarepaguá, atuando também como instrumentista. Conhece os compositores Catoni (1930-1999) e Jorge Mexeu, de quem é parceiro e intérprete. Compõe na escola seu primeiro samba, “Pode Ser Ilusão”, em 1962. Aos 19 anos, emprega-se no Banco Nacional das Minas Gerais, planejando ser economista. Encontra na agência o compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho (1935), conhecido dos saraus na casa de Jacob do Bandolim. Iniciam uma parceria com “Duvide-o-dó”, interpretada por Isaurinha Garcia (1923-1993) e Noite Ilustrada (1928 - 2003) em 1970, e com a música “Valsa da Solidão”, gravada por Elizeth Cardoso (1920-1990), em 1985.

A convite de Hermínio Bello de Carvalho frequenta o restaurante Zicartola, reduto de sambistas, propriedade  de Cartola (1908-1980) e sua esposa, Dona Zica (1913-2003). Acompanha os principais nomes do samba do Rio de Janeiro e apresenta suas composições. Ganha ali o apelido de Paulinho da Viola, dado por Zé Kéti (1921-1999) e Sérgio Cabral (1937). Em 1964, o amigo Oscar Bigode leva Paulinho para conhecer a ala de compositores da Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, que já conta com nomes como Monarco (1933), Candeia (1935-1978), Alvaiade (1913-1981) e Ventura. 

Como compositor da Portela, em 1966, apresenta “Memórias de um Sargento de Milícias”, escolhido para ser o samba enredo daquele ano. A escola é campeã e o samba recebe nota máxima. Ainda nesse ano, estreia com o disco Samba na Madrugada, dividido com o parceiro Elton Medeiros (1930). A canção “Sinal Fechado” ganha o primeiro lugar no festival de MPB da TV Record de 1969 e é gravada por Martinho da Vila (1938) em 1971. Em 1985, Paulinho da Viola recebe o título de Chevalier de L’ordre des Arts et des Lettres, dado pelo governo francês e, em 1992, o prêmio Shell de música popular brasileira. Com Bebadosamba (1996), ganha o prêmio Apca de melhor show do ano em 1997. Recebe a comenda da Ordem do Mérito Cultural, em 2001, e, em 2003, Izabel Jaguaribe (1968) dirige um documentário que traça o perfil do compositor. O filme tem participação dos cantores Marina Lima (1955), Elton Medeiros (1930), Zeca Pagodinho (1959), Marisa Monte (1967), Nelson Sargento (1924), Monarco (1933) e a Velha Guarda da Portela.

 

Análise

Em seu samba “Dança da Solidão”, Paulinho da Viola canta:

"Meu pai sempre me dizia 

Meu filho tome cuidado 

Quando eu penso no futuro 

Não esqueço meu passado. "

Essa lição vem do pai, César Faria, um dos grandes violonistas que se dedicam à música brasileira, integrante do conjunto Época de Ouro. O filho experimenta a lição na prática, observando Jacob do Bandolim, Pixinguinha e outros que se dedicam ao conhecimento da tradição e à inovação dos gêneros musicais.

Em outro samba conhecido, “14 Anos”, afirma: 

"Tinha eu 14 anos de idade 

Quando meu pai me chamou 

Perguntou-me se eu queria 

Estudar Filosofia 

Medicina ou Engenharia 

Tinha eu que ser doutor."

O caminho é seguido pelo pai, que se torna oficial de justiça por conselho de Jacob do Bandolim. O envolvimento com o samba e o novo mercado da música levam Paulinho da Viola a um percurso diferente, tornando-se sambista e cantor profissional.

O compositor não é um “sambista de morro” como são alguns dos grandes sambistas que frequentam sua casa. Sua experiência urbana e individualizada, retoma o samba tradicional da comunidade com poesia moderna e formas mais abertas. As afirmações de liberdade do sambista em “Para Ver as Meninas” são novidades líricas: “Porque hoje eu vou fazer/ Ao meu jeito eu vou fazer/ Um samba sobre o infinito”. O sambista traz um tema pouco comum: o infinito. Como contraponto a essa inovação, inclui em seus discos faixas de autores importantes, porém pouco conhecidos, como Cartola, Nelson Cavaquinho (1911-1986), Candeia e Wilson Batista (1913-1968); ou desconhecidos do público, como Jorge Mexeu, Catoni, Zorba Devagar (1943) e Walter Alfaiate (1930-2010). Nesse sentido, suas gravações ajudam a consagrar compositores como Nelson Sargento, Casquinha da Portela (1922), Monarco e Mauro Duarte (1930-1989).

Ao colocar lado a lado composições novas e de sambistas mais antigos, Paulinho da Viola reconhece a importância da tradição e a diferença de sua obra em relação à da geração anterior. Assim como o conjunto Época de Ouro, grava valsas, choros, polcas e maxixes com a intenção de revisitar o gênero. Também compõe revendo a tradição do samba e do choro. Suas realizações no choro incluem “Abraçando Chico Soares” (1971) e “Choro Negro” (1973), parceria com Fernando Costa. Realiza um disco exclusivo do gênero: Memórias Chorando (1976), no qual grava choros autorais, como “Romanceando”, “Rosinha, Essa Menina” e “Inesquecível”, além de interpretar o consagrado Pixinguinha com “Cinco Companheiros”, “Segura Ele”, “Cochichando” e o pouco conhecido “Chorando”, de Ary Barroso (1903-1964).

“Para Ver as Meninas”, “Por um Amor no Recife” e “Encontro” são sambas gravados com toques de bossa nova. Essa tendência é assumida no acompanhamento do violão, na emissão da voz e na relação entre ambos, notando-se a influência da batida de João Gilberto (1931). No samba-canção, destacam-se as melodiosas “Nada de Novo” e “Mente ao Meu Coração” e, para os partideiros versarem, compõe “No Pagode do Vavá” e, “Moema Morenou” (parceria com Elton Medeiros).

Entre os sambas-enredo está “Sei lá Mangueira”, música para versos de Hermínio Bello de Carvalho, que o letrista inscreve no Festival de MPB da TV Record de 1968 sem avisar ao parceiro. O fato traz complicações para Paulinho de Viola que, nesse momento, é presidente da ala de compositores da Portela. Para desculpar-se e evitar mal-entendidos com os portelenses, compõe “Foi um Rio que Passou em Minha Vida” (“Se um dia meu coração for consultado/ Para saber se andou errado/ será difícil negar”), uma letra longa combinada a uma estrutura melódica criativa e sem repetições. Em meio à confusão e ao ciúme entre as escolas e seus representantes, compõe dois sambas que se tornam sucesso de público e inovam a estrutura dos sambas-enredo. Com eles, ganha o perdão dos portelenses.

Outra vertente importante são os sambas de crônicas da vida cotidiana do subúrbio carioca, como “Coisas do Mundo, Minha Nega” e “Dona Santinha e Seu Antenor”, de sua autoria, e a parceria “Vela no Breu”, com letra de Sergio Natureza (1947), que narra os costumes de um personagem quase mítico da vida boêmia carioca. Outro conjunto de composições é mais próximo da canção, sem categoria definidora no samba tradicional. É o caso de “Sinal Fechado” que, com letra em forma de diálogo, parte de uma melodia de samba-canção para resultar em algo novo. Já “Cidade Submersa” é um samba-canção, com influência da poesia moderna e harmonia modulante. 

Com base na vivência no choro, Paulinho da Viola produz um tipo de samba mais encorpado no requinte melódico e harmônico. Além do coloquialismo vocal bossanovista, estabelece uma ponte com experimentalismos de vanguarda – como em “Sinal Fechado”, que dá título ao disco de canções alheias de Chico Buarque, em 1974. O compositor utiliza cravo no lugar de piano em “Meu Samba Curto” e injeta dissonâncias em gravações como “Consumir é viver/ conviver é sumir”, do compositor Marcus Vinícius (1949), e em suas próprias como “Roendo as Unhas” e “Comprimido”. Ao mesmo tempo, Paulinho é autor de “Argumento”, que prega cautela nas reformas: 

" Tá legal 

Eu aceito o argumento 

Mas não me altere o samba tanto assim 

Olha que a rapaziada está sentindo a falta 

De um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim. Tá legal. 

 

Sem preconceito ou mania de passado

Sem querer ficar do lado de quem não quer navegar 

Faça como o velho marinheiro

Que durante o nevoeiro leva o barco devagar."

Obras 3

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Espetáculos 2

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Fontes de pesquisa 6

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  • COUTINHO, Eduardo Granja. Velhas histórias, memórias futuras: o sentido da tradição na obra de Paulinho da Viola. Rio de Janeiro: Eduerj, 2002.
  • MÁXIMO, João. Paulinho da Viola: sambista e chorão. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Rioarte, 2002.
  • NEGREIROS, Eliete. Ensaiando a canção: Paulinho da Viola e outros escritos. São Paulo: Ateliê Editorial, 2011.
  • PEREIRA JUNIOR, Luiz Costa. O mar que me navega: sintonias filosóficas em Paulinho da Viola. Tese de doutorado, São Paulo, 2011.
  • SOUZA, Tárik de. Tem Mais Samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003. (Coleção Todos os Cantos).
  • VIOLA, Paulinho da. Site oficial do artista. Disponível em: http://www.paulinhodaviola.com.br. Acesso em: 10 out. 2011

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