Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Artes visuais

Luiz Peixoto

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 22.10.2019
02.02.1889 Brasil / Rio de Janeiro / Niterói
14.11.1973 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Luiz Carlos Peixoto de Castro (Niterói, Rio de Janeiro, 1889 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1973). Caricaturista, revistógrafo1, compositor, diretor teatral, cenógrafo, figurinista, pintor, escultor, poeta. Filho do empresário Luiz Peixoto de Castro e da pianista e cantora Lucinda Miguez de Castro. Na adolescência, publica na Revista da Seman...

Texto

Abrir módulo

Luiz Carlos Peixoto de Castro (Niterói, Rio de Janeiro, 1889 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1973). Caricaturista, revistógrafo1, compositor, diretor teatral, cenógrafo, figurinista, pintor, escultor, poeta. Filho do empresário Luiz Peixoto de Castro e da pianista e cantora Lucinda Miguez de Castro. Na adolescência, publica na Revista da Semana suas primeiras charges. No ano seguinte, tem seus desenhos divulgados na revista O Malho. Colabora em periódicos cariocas, como O Papagaio, A Avenida, Fon-Fon e Revista da Semana. As caricaturas em parceria com Raul Pederneiras (1874-1953) são assinadas com o pseudônimo Raiz (Raul e Luiz). Funda jornais humorísticos, como Hora H (1911), Última Hora (1912) e Sete Horas (1914) e a revista Zum-Zum (1918). É desenhista e redator no Jornal do Brasil (1906-1919) e, como escultor, participa no Salão dos Humorísticos de 1911.

Estreia como autor teatral em 1911, na revista Seiscentos e Seis, escrita em parceria com Carlos Bittencourt. A dupla obtém sucesso com a burleta Forrobodó, musicada por Chiquinha Gonzaga (1847-1935), um clássico do teatro musicado. Em 1917, participa da fundação da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), que dirige por vários mandatos.

Viaja à Europa em 1920, como cenógrafo do Théâtre de l’Oeuvre de Paris. De volta ao Rio, sua comédia Esquecer, em parceria com Tobias Moscoso e Hebert de Mendonça, recebe o Prêmio de Teatro da Academia de Letras. Entre 1922 e 1925, trabalha como diretor artístico, figurinista e cenógrafo da Companhia do Teatro São José, atualizando o teatro de revista brasileiro com técnicas e ideias trazidas da França. Em 1927, participa do Teatro de Brinquedo, movimento idealizado pelo poeta e jornalista Álvaro Moreira (1888-1964) que procura levar o teatro de vanguarda à plateia carioca. Dirige várias companhias teatrais do Rio de Janeiro, como a Tangará (1926), no Cine-Teatro Glória; a Antônio Neves (1930), no Teatro Recreio e a Comédias Musicadas do Teatro Trianon (1931). Em 1934, sob o pseudônimo GIP, publica suas caricaturas no jornal A Nação. No ano seguinte, escreve poemas humorísticos no periódico O Malho. Ainda na década de 1930, dirige o Cassino da Urca e atua como diretor na Rádio Clube do Brasil (1932) e na Rádio Kosmos (1935).

Nas décadas de 1940 e 1950, trabalha na Companhia de Revistas Walter Pinto e escreve monólogos de sucesso na interpretação de Procópio Ferreira (1898-1979), Margarida Lopes de Almeida e Bertha Singerman (1901 - 1998). Nos anos 1950 e 1960, dirige a Escola de Teatro Martins Pena.

Em 1963, o Estado da Guanabara homenageia-o por serviços prestados ao teatro brasileiro. No ano seguinte, publica poesias num livro elogiado pelo poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e pelo pintor Di Cavalcanti (1987-1976). Volta a pintar em 1967, em virtude de um acidente que lhe reduz a mobilidade. As telas produzidas durante o repouso forçado são expostas em vernissage organizada pela escola Martins Pena, em 1968. Quando falece, deixa inacabado um livro de memórias intitulado Se Não me Falha a Memória. Em seu enterro, o ator Labanca (1913-1988) afirma que “Peixoto era uma antologia carioca de 50 anos de teatro, jornalismo, humorismo, música e artes plásticas”2.

 

Análise 

Luiz Peixoto transita por diferentes áreas da produção cultural brasileira da primeira metade do século XX: teatro popular, poesia, música e artes plásticas. Desenha capas de livros, cria decorações carnavalescas e atua como designer de móveis, vidros e até de um carro. Essa versatilidade aparece nos empreendimentos de que participa ao longo da vida. Paralelamente à carreira artística, é proprietário de uma fábrica de vidros, representante dos perfumes Babani e dos bombons Mme Sévigné, sócio de um estabelecimento de arte e antiguidades e funcionário público. 

Integra uma geração de caricaturistas cariocas, da qual participam Raul Pederneiras (1874 - 1953), J. Carlos (1884-1950), K. Lixto (1887-1957) e Storni (1881-1966). Com mensagens diretas, em que texto e imagem se complementam ou se contradizem, as charges criticam os costumes cariocas e a vida política brasileira. Nem sempre são bem recebidas pelo público, como é o caso da caricatura publicada no Jornal do Brasil em 1912. Depois de assumir a pasta do Ministério do Exterior no lugar do Barão do Rio Branco (1845-1912), recém-falecido, o franzino Lauro Müller (1863-1926) é retratado vestindo a farda do antecessor, sob a legenda: “O defunto era maior”.

A verve cômica de Peixoto ganha o grande público com o teatro, em peças de longa permanência em cartaz. É responsável pela direção, figurino e cenografia de várias montagens. Paradigmática, a burleta Forrobodó é a primeira a ser protagonizada por membros da população negra dos bairros pobres do Rio de Janeiro. A peça coloca nos palcos o sotaque e as gírias cariocas, numa época em que a pronúncia lusitana é predominante.

Sua obra teatral pode ser dividida em duas fases. Na primeira, entre 1911 e 1919, escreve burletas, a maioria em parceria com Carlos Bittencourt, como a já citada Forrobodó (1912), Dança de Velho (1916), Morro da Favela (1916), Três Pancadas (1917) e Flor do Catumbi (1918). A partir de 1920, volta-se para a revista, influenciado pelo modelo francês. Considerado um dos responsáveis pela modernização do gênero no Brasil, introduz em suas peças girls seminuas, figurinos feéricos e cenários suntuosos. Com Marques Porto (1870-1910), forma uma das duplas de revistógrafos mais famosas dos anos 1920. As revistas fazem sátiras, abusando dos chistes e do duplo sentido. É o caso de Prestes a Chegar (1926), que faz referência ao presidenciável Julio Prestes (1882-1946), então deputado federal e responsável pela política econômica do governo. Também alude a outro Prestes, o Luis Carlos (1898-1990), cuja marcha iniciada em 1924 estava “prestes a chegar” à capital. Uma das canções mais aplaudidas da peça, “Paulista de Macaé”, musicada por Pedro de Sá Pereira (1892-?), satiriza a figura do presidente Washington Luís (1869-1957). Outro recurso é a paródia. Banco do Brasil (1929) satiriza a entrada em circulação do cruzeiro e inicia-se com um arremedo de Castro Alves (1847-1871) ao poema de Gonçalves Dias (1823-1864)

Minha terra é um paraíso 

Que Deus fez pra se gozá, 

O que nos falta é juízo,

O resto tudo dá lá. 

A peça é responsável pelo lançamento de dois sambas de sucesso: “Meu senhor do Bonfim”, em parceria com Marques Porto e música de Pedro de Sá Pereira, e “Juramento”, com música de Ary Barroso (1903-1964) e Marques Porto. No ano seguinte, a revista Vai Dar o que Falar marca a estreia de Carmen Miranda (1909-1955), anunciando “efeitos de luz como só se vê nas revistas de Paris, Nova Iorque e Londres”3. Entre outras peças da “feliz parceria”, destacam-se Secos e Molhados (1924), Comidas, Meu Santo! (1925), Cangote Cheiroso (1927), Miss Brasil (1928), Pátria Amada (1929), Guerra ao Mosquito (1929), Pau-Brasil (1930) e Dá Nela! (1930). 

Durante o Governo Vargas, as revistas de Peixoto retratam o presidente como político esperto que passa a perna em seus adversários, numa espécie de “sátira a favor”. Dessa época, datam suas parcerias com Geysa Bôscoli (1907-1978), Freire Junior (1881-1956), Ary Barroso, entre outros.

Como letrista, Peixoto destaca-se pelas canções que compõe para o teatro. Uma das mais conhecidas é “Linda Flor”, com música de Henrique Vogeler (1888-1944), lançada na revista Miss Brasil e considerada o primeiro samba-canção de sucesso. Tem letra de Cândido Costa: “Linda flor, tu não sabes, talvez, quanto é puro o amor que me inspiras. Não crês, nem sobre mim teu olhar, veio um dia pousar”. Rebuscada, com verbos em segunda pessoa e versos que não se encaixam nas frases melódicas, é gravada, sem sucesso, por Vicente Celestino (1894-1968). Em seguida, Francisco Alves (1898-1952)  regrava-a com letra Freire Junior. O sucesso só vem com a letra de Luiz Peixoto, em parceria com Marques Porto, escrita a pedido de Aracy Cortes (1904-1985), que a lança em 1929: “Ai Ioiô, eu nasci pra sofrer. Fui oiá pra você, meus óinho fechô”. Mesmo com o caráter sentimental e declaratório da versão anterior, Peixoto subverte a canção com seus versos espontâneos, que recuperam o linguajar das camadas populares. A habilidade para criar letras compatíveis com o espírito das melodias revela-se também em “Maria”, samba de Ary Barroso (“Maria, o teu nome principia/Na palma da minha mão”). Originalmente intitulada “Bahia”, e com outra letra, a canção é recriada por Peixoto para a revista Me Deixa Ioiô (1932), com Freire Junior. O sucesso vem na gravação de Silvio Caldas (1908-1998), em 1932. 

Peixoto compõe ainda para disco e rádio. Entre seus parceiros, destaca-se Heckel Tavares (1896-1969), com quem compõe canções bucólicas a exemplo de “Suçuarana”, “Azulão” e “Casa de Caboclo”, baseada em motivos de Chiquinha Gonzaga. A última canção torna-se um clássico e propaga o ditado “Numa casa de caboclo um é pouco, Dois é bom, três é demais". Também tem parcerias com Almirante (1908-1980), José Maria de Abreu (1911-1966), Custódio Mesquita (1910-1945) e Radamés Gnattali (1906-1988) .

 

 

Notas

1.  Autor de teatro de revista, gênero popular a partir do final do século XIX. O teatro de revista caracteriza-se pela difusão e crítica de modos e costumes, por meio de falas irônicas e de duplo sentido, canções “apimentadas” e hinos picarescos. A música é marcante por abranger vários gêneros cômicos e tornar eficiente a transmissão da mensagem.

2. JORNAL do Brasil. L. Peixoto foi enterrado no S. J. Batista. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 nov. 1973.  p. 20.

3. EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas da MPB. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 2007. v. 1. p. 61.

 

 

Espetáculos 43

Abrir módulo

Espetáculos de dança-teatro 1

Abrir módulo

Exposições 1

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 9

Abrir módulo
  • ABREU, Brício de. Esses populares tão desconhecidos. Rio de Janeiro: E. Raposo Carneiro, 1963.
  • EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas da MPB. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 2007. 2 v.
  • ENIO, Lysyas; VIEIRA, Luis Fernando. Luiz Peixoto pelo buraco da fechadura. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica e popular. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1977.
  • GULLAR, Ferreira (et. al). 150 anos de pintura no Brasil: 1820-1970. Rio de Janeiro: Colorama, 1989. R703.0981 P818d
  • JORNAL do Brasil. L. Peixoto foi enterrado no S. J. Batista. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 nov. 1973. p. 20.
  • MARIZ, Vasco. O talento multifacetado de Luís (sic) Peixoto. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 04 fev.1989. Caderno Cultura, p. 6-7.
  • PAIVA, Salvyano Cavalcanti de. Viva o Rebolado: vida e morte do teatro de revista brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
  • SILVA, Daniel Marques da. “Precisa arte e engenho até...” : um estudo sobre a composição do personagem-tipo através das burletas de Luiz Peixoto. Rio de Janeiro, Dissertação (Mestrado em Teatro) – Centro de Letras e Artes da Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), Rio de Janeiro,1998.

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: