Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

Temas


Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Clementina de Jesus

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 08.06.2017
07.02.1902 Brasil / Rio de Janeiro / Valença
19.07.1987 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Digitalizado a partir do original

Clementina de Jesus
Madalena Schwartz, Clementina de Jesus
Matriz-negativo
Acervo do Instituto Moreira Salles

Clementina de Jesus da Silva (Valença, Rio de Janeiro, 1902 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1987). Cantora. Convive com canções em língua banta desde criança e aprende com a mãe ladainhas, benditos, partidos-alto, cantigas de trabalho, jongo, corimás, pontos de macumba e caxambu. Aos 8 anos, acompanha o pai nas cantorias de viola e participa d...

Texto

Abrir módulo

Biografia

Clementina de Jesus da Silva (Valença, Rio de Janeiro, 1902 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1987). Cantora. Convive com canções em língua banta desde criança e aprende com a mãe ladainhas, benditos, partidos-alto, cantigas de trabalho, jongo, corimás, pontos de macumba e caxambu. Aos 8 anos, acompanha o pai nas cantorias de viola e participa do coral do Orfanato Santo Antônio, onde estuda em regime de semi-internato. Trabalha como empregada doméstica desde os 18 anos. Ensaia o grupo de pastoras de Heitor dos Prazeres (1898-1966) e torna-se diretora da escola de samba Unidos do Riachuelo. Administra também a agremiação carnavalesca Índios do Acaú, que dura apenas de 1949 a 1955.

Em 1963, é descoberta por Hermínio Bello de Carvalho (1935), produtor musical que articula a estreia da cantora nos palcos, no show Movimento Menestrel, dividindo o recital com o violonista Turíbio Santos (1943). Participa do espetáculo Rosa de Ouro (1964), no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, dirigido por Hermínio e Kleber Santos e com participação de Anescarzinho do Salgueiro (1929-2000), Paulinho da Viola (1942), Elton Medeiros (1930), Jair do Cavaquinho (1922-2006), Nelson Sargento (1924) e Aracy Cortes (1904-1985). O musical fica em cartaz por um ano e excursiona na Bahia e em São Paulo. O sucesso do espetáculo gera dois álbuns homônimos, lançados em 1965 e 1967.

Clementina grava o primeiro disco solo em 1966, com destaque para as faixas “Cangoma me Chamou” e “Barracão É Seu”, essa em dueto com João da Gente (1882-1937), um dos baluartes da escola de samba Portela. No mesmo ano, representa o Brasil no Festival de Arte Negra, em Dacar, no Senegal,  e apresenta-se em concertos na Aldeia de Arcozelo e na Sala Cecília Meirelles, interpretando Missa de São Benedito, de José Maria Neves (1943-2002). Em 1968, grava três discos: Gente da Antiga, Mudando de Conversa e Fala Mangueira. Em 1970, lança o álbum Clementina, Cadê Você?, que traz sambas como “Vai Saudade”, composto por Candeia (1935-1978) e David do Pandeiro (1959), e adaptações de sua autoria para temas folclóricos, como as corimás “Ogum Megê”, “Bendito Louvado” e “Lá no Mato Tem Ganga”.  

Em 1973, lança o disco Marinheiro Só, cuja faixa-título é uma versão de Caetano Veloso (1942) para uma canção folclórica. Em 1976, grava Clementina de Jesus Convida Carlos Cachaça e, no ano seguinte, em dueto com Clara Nunes (1943-1983), registra o “Partido da Clementina de Jesus” (Candeia). Em Clementina e Convidados, de 1979, canta os sambas “Sonho Meu” [Dona Ivone Lara (1922) e Delcio Carvalho (1939-2013)], “Boca de Sapo” [João Bosco (1946) e Aldir Blanc (1946)], e “Cocorocó” [Paulo da Portela (1901-1949)]. 

Em 1982, lança Canto dos Escravos, com 14 cânticos recolhidos em Minas Gerais pelo filólogo Aires da Mata Machado Filho (1909-1985). No mesmo ano, é homenageada pela escola Lins Imperial com o samba-enredo “Clementina, uma Rainha Negra”  (Tibúrcio Antero e João Banana). Em 1983, o samba da escola Beija-Flor de Nilópolis, “A Grande Constelação das Estrelas Negras”, dedicado à cantora, conquista o troféu Estandarte de Ouro. No mesmo ano, é homenageada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em show com participação de Paulinho da Viola, Elizeth Cardoso (1920-1990) e João Nogueira (1941-2000). 

Análise

Clementina de Jesus desponta na música popular brasileira no início dos anos 1960, momento de confronto estético e ideológico. De um lado, uma música popular moderna, à procura de respostas para os temas desgastados da bossa-nova, apesar de ela ainda fazer sucesso. De outro, a jovem-guarda, marcada pela influência estrangeira e certo descompromisso com conteúdos de fundo social ou político. Enquanto isso, compositores e intérpretes da Zona Sul, como Carlos Lyra (1939) e Nara Leão (1942-1989), aproximam-se dos músicos do morro e do subúrbio carioca, a maioria ligada às escolas de samba e frequentadora do Zicartola – restaurante aberto por Dona Zica (1913-2003) e seu marido, o sambista Cartola (1908-1980). Entre eles,

Zé Kéti (1921-1999), Nelson Cavaquinho (1911-1986), Paulinho da Viola, Padeirinho da Mangueira (1927-1987), Elton Medeiros e João do Vale (1934-1996). É neste espaço que o jovem produtor Hermínio Bello de Carvalho reencontra Clementina, depois de presenciar, na Taberna da Glória, aquela voz grave e rascante a entoar partidos-alto, corimás e lundus. 

A voz e o repertório de Clementina – neta de escravos de uma fazenda de café do Vale do Paraíba, por parte de mãe, e de negros forros, por parte de pai – causam grande impacto na cena musical, ao evidenciar a influência africana na música brasileira. As canções ouvidas na infância em Valença, no Rio de Janeiro, e as manifestações musicais do subúrbio carioca são recriadas pela compositora de maneira sincrética, expressando a diversidade de sua formação musical espontânea. 

Católica fervorosa, Clementina se autodeclara misseira e não adepta do candomblé, embora participe dos pagodes e festas em homenagens a orixás. Durante os 63 anos antes da fama, a cantora convive com cânticos religiosos cristãos e com os de matriz africana, ambos importantes no campo espiritual e cultural da artista. 

Ao expandir-se da Bahia para o Rio, o candomblé continua em transformação. As experiências do negro na sociedade brasileira moderna criam novas sínteses religiosas. Surge a macumba, expressão do negro que, embora liberto, encontra-se em posição social marginalizada. A religião assume função assistencial, que provê divertimento, orientação espiritual e auxílio material.

Em meio à heterogeneidade de credos, nasce a umbanda, praticada por indivíduos da classe média. Assentados em lideranças de babalorixás e mães de santo, os grupos organizam suas atividades culturais e lúdicas, por meio da música, da dança, do carnaval (cada vez mais assimilado pelo restante da população), dos afoxés, do jongo, mesclando o sagrado e o profano nessas manifestações. 

É possível compreender a obra de Clementina dentro desse contexto. Sua musicalidade abarca elementos de diferentes culturas, como se percebe em “Cinco Cantos Religiosos”, do disco Marinheiro Só (1973). Nessa canção, Clementina reúne, em uma única faixa musical, o jongo “Oração de Mãe Menininha” [Dorival Caymmi (1914-2008)], os pontos de umbanda “Fui Pedir às Almas Santas” e “Atraca Atraca”, “Incelença” e finaliza com o ponto “Abaluaiê” [Waldemar Henrique (1905-1995)]. Enquanto a primeira cantiga evoca a principal ialorixá brasileira, Menininha do Gantois, remetendo ao candomblé, os outros pontos são característicos da umbanda. Entre eles, há uma incelença, tipo de canto fúnebre presente no interior do Nordeste e no Vale do Paraíba, que substitui a extrema-unção na ausência de um sacerdote. Outras manifestações são ligadas ao Natal católico – o ciclo do pastoril e a folia de reis – que, apropriadas e modificadas pela cultura popular, recebem versões de Clementina, nas cantigas “Deus Vos Salve a Casa Santa” (1970) e “Peixeira Catita” (1976).   

Ao frequentar as festas de escolas de samba, como a Portela e a Mangueira, improvisa rodas de partido-alto, presenciadas por Aniceto do Império (1912-1993) e Carlos Cachaça (1902-1999). Esse último afirma que Clementina, pela sua capacidade de improvisação, não é “cantora, mas cantadeira de jongo, de partido-alto, de batucada”. Entre os partidos gravados por ela, destacam-se “O Barracão É Seu” (1966) e “Esta Melodia” [Bubú da Portela e Jamelão (1913-2008)]. A artista também interpreta em seu repertório gêneros urbanos e rurais: em 1966, lança o partido “Piedade” e o jongo “Cangoma me Chamou”; em 1968, grava o samba “Roxá”, adaptação de música em domínio público, com Pixinguinha (1897-1973); no mesmo ano, registra a batucada “Mironga de Moça Branca” [Gastão Viana (1900-1959) e J. B. de Carvalho (1901-1979)], composta em 1932. Outros partidos, estreados no show Rosa de Ouro (1965) são: “Clementina Cadê Você” (Elton Medeiros), “Benguelê” (Pixinguinha e Gastão Viana) e “Sobrado Dourado” (Nelson Cavaquinho).

Obras 13

Abrir módulo

Fontes de pesquisa 8

Abrir módulo
  • BEVILÁCQUA, Adriana et al. Clementina, Cadê Você. Rio de Janeiro: LBA; Funarte, 1988.
  • CLEMENTINA de Jesus. Catálogo da caixa de CDs Clementina de Jesus. Rio de Janeiro: Petrobras, 2001. (Coleção Clementina de Jesus 100 anos.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • FRIAS, L.; CARVALHO, H. B.; LOPES, N.; ANDRADE, P. C.; COELHO, H. (Org.). Rainha Quelé – Clementina de Jesus. Valença: Editora Valença, 2001.
  • LOPES, Nei. Partido-alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.
  • MELLO, Zuza Homem de. A era dos festivais: uma parábola. São Paulo: Editora 34, 2003.
  • MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.
  • SOUZA, Tárik de. Tem Mais Samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003. (Coleção Todos os Cantos).

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: