Artigo da seção pessoas Ary Barroso

Ary Barroso

Artigo da seção pessoas
Teatro / música  
Data de nascimento deAry Barroso: 07-11-1903 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Ubá) | Data de morte 09-02-1964 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Biografia

Ary de Resende Barroso (Ubá MG 1903 - Rio de Janeiro RJ 1964). Compositor, pianista, locutor esportivo e apresentador de programas de rádio e televisão. Aos 6 anos, órfão de pai e mãe, é criado pela avó e pela tia Rita Margarida de Resende, com quem tem aulas de piano. Aos 12, é o pianista de fundo musical para filmes mudos em Ubá.

Em 1922, muda-se para o Rio de Janeiro e matricula-se no curso de direito na Universidade do Rio de Janeiro (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ). Começa a tocar piano no cinema e em orquestras de jazz, como a Trianon, de Alarico Paes Leme; a American Jazz, de José Rodrigues; e a Jazz Band Sul-Americana, de Romeu Silva. Nesse momento, inicia a atividade de compositor. No fim de 1928, tem os sambas Tu Queres Muito e Vou a Penha gravados por Mário Reis e Artur Castro, respectivamente.

Ganha em 1930 o primeiro lugar no concurso musical da Casa Edison, no Teatro Lírico, com a marcha carnavalesca Dá Nela, gravada no mesmo ano por Francisco Alves. Indicado pelo tio e deputado Alarico Barroso, viaja para Nova Resende, Minas Gerais, para assumir o cargo de promotor público. No entanto, não demonstra aptidão para a magistratura e retorna ao Rio de Janeiro para dedicar-se profissionalmente à música. A convite de Marques Porto e Luiz Peixoto, passa a compor para o teatro de revista. Também rege espetáculos e divide a autoria das revistas teatrais, como em Brasil do Amor, parceria com Porto. Na época, suas músicas chegam ao disco na voz de cantores como Francisco Alves e Carmen Miranda.

Quando a rádio se afirma como veículo de comunicação de massa no início dos anos 1930, Renato Murce o contrata para o programa Horas do Outro Mundo, da Rádio Philips. Ary Barroso fala sobre teatro, cinema e música popular, além de apresentar cantores, contar anedotas e tocar piano. É o início de sua carreira como comunicador, e também como locutor de futebol. Destaca-se pela originalidade da locução e por seu temperamento, que o leva a estar sempre às voltas com alguma polêmica. Flamenguista fanático, não esconde a preferência nas locuções futebolísticas, fato que o singulariza ainda mais. Sempre utiliza uma gaita, que é tocada na comemoração de um gol. Para sofisticar muito mais as transmissões, cria a figura do repórter de campo e do comentarista esportivo. Ganha grande popularidade como apresentador de programas de calouros, tanto na rádio quanto na televisão, e revela futuras estrelas, como Elza Soares.

Dos seus inúmeros sucessos, o samba-exaltação Aquarela do Brasil (1939) tem mais destaque. A composição é gravada pela primeira vez por Francisco Alves, com arranjos e acompanhamento de Radamés Gnattali e sua orquestra. Por causa dessa música, trabalha com os Estúdios Walt Disney e torna-se mundialmente conhecido.

Na política, elege-se vereador pela União Democrática Nacional (UDN), em 1946, e milita pela construção do Estádio do Maracanã. No decorrer da carreira, exerce também a atividade de jornalista, iniciada em 1935, no Correio da Noite, em que comenta temas ligados à rádio, à música e ao futebol. Participa ativamente da defesa do direito autoral e integra diversas entidades com esse propósito. Tem dois songbooks dedicados a sua obra, um de Gal Costa, lançado em 1980, e o produzido por Almir Chediak, em 1995.

Análise

A carreira de Ary Barroso ganha impulso como pianista em bandas de jazz. No decorrer dos anos 1920, as orquestras difundem-se nas metrópoles brasileiras, em especial no Rio de Janeiro, sob o impacto da onda jazzista do pós-guerra. As inovações e as sofisticações melódicas e harmônicas de suas composições expressam como ele utiliza o jazz no contexto de afirmação do samba como gênero da música popular brasileira. Não menos importante é a influência que recebe do sambista Geraldo Pereira. Barroso adora seus sincopados e o considera um grande compositor. Também considera Ismael Silva, Ataulfo Alves e Assis Valente gênios da música. Ele compõe Camisa Amarela (1939) inspirado no samba Camisa Listrada (1937), de Valente.

Conhecido como Mr. Samba, tem seus primeiros sucessos gravados por Mário Reis: Vou a Penha (1928) e Deixa de Intimidade (1929). Essas composições são incluídas no teatro de revista Laranja da China. Até a rádio tornar-se um veículo de massa, o teatro de revista é o meio de popularização das canções. Barroso passa a compor para essas peças e seus maiores sucessos estreiam nesses espetáculos, sobretudo na voz de Araci Cortes. O samba-canção Na Grota Funda, cuja letra, em sua primeira versão, escrita por J. Carlos, é composta para a peça É do Outro Mundo, de 1930, de autoria do próprio J. Carlos. Posteriormente, com letra de Lamartine Babo, recebe o título No Rancho Fundo, tornando-se uma das obras-primas da música popular brasileira.

Sua outra obra emblemática, Aquarela do Brasil, é também apresentada pela primeira vez na revista Joujoux e Balangandãs, de Henrique Pongetti, que, em meados de 1939, estreia no Theatro Municipal do Rio de Janeiro sob os auspícios da primeira-dama do Brasil, Darci Vargas. Os arranjos musicais da peça são de Radamés Gnattali. Com essa roupagem musical, Aquarela do Brasil tem a primeira gravação na voz de Francisco Alves, nesse mesmo ano. Desde então, a composição segue uma das trajetórias mais bem sucedidas da música popular brasileira. Aparece em inúmeras gravações, além de compor a trilha sonora do filme Alô Amigos, de Walt Disney, de 1943. O filme, encomendado no contexto da "política da boa vizinhança" do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, busca sedimentar os laços de amizade entre Estados Unidos e Brasil, representados pelos personagens Pato Donald e Zé Carioca. A aura de brasilidade de Aquarela do Brasil não pode ser mais oportuna para a trilha de Disney. Aliás, esse samba intencionalmente celebra o Brasil e ocupa lugar referencial nos chamados sambas-exaltação, engajados na afirmação do nacionalismo do Estado Novo (1937-1945). Dentro dessa linha, destaca-se também Brasil Moreno (1941), com Luiz Peixoto, e Isso Aqui o que É (1942). O Brasil brasileiro de Ary Barroso, cantado em suas melodias e ritmado em seu piano, celebra a invenção da brasilidade mestiça desses anos da Era Vargas, quando o samba, a mulata, a ginga e a natureza tropical passam a traduzir as cores da nação.

De grande versatilidade, Barroso compõe marchinhas, choros, valsas e foxtrotes. Em geral, ele escreve a melodia e a letra, mas destacam-se algumas parcerias, em No Rancho Fundo, Palmeira Triste (1937), Na Virada da Montanha (1935) e Grau Dez (1934), com Lamartine Babo; em Mão de Remo (1931), com Noel Rosa; Em Noite de Luar (1962), com Vinicius de Moraes; e Na Batucada da Vida (1934) e É Luxo Só (1957), com Luiz Peixoto. Esta é interpretada por Elizeth Cardoso no espetáculo Mr. Samba, produzido por Carlos Machado em homenagem a Ary Barroso, em 1957. Suas músicas transitam por diversos temas, a exemplo das românticas Na Batucada da Vida, Inquietação (1935), Três Lágrimas (1941), Risque (1952), Folha Morta (1952); da exaltação à Bahia em No Tabuleiro da Baiana (1936), Na Baixa do Sapateiro (1938), Os Quindins de Iaiá (1942); da celebração da mulata, com Morena Boca de Ouro (1941); e da evocação do sertão, com Cabocla (1933) e Terra Seca (1943). Seus intérpretes atravessam gerações: desde Mário Reis, Araci Cortes, Francisco Alves, Silvio Caldas e Carmen Miranda, nos anos 1930 e 1940, até Ciro Monteiro, Jorge Goulart, Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso, Jamelão e Ângela Maria, nos anos 1950 e 1960. Nas décadas seguintes, sua obra continua sendo revisitada por intérpretes como João Gilberto, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Nara Leão e Elis Regina.

Além de sua facilidade com o jazz, vale lembrar que boa parte da versatilidade de Ary Barroso está ligada a seu trabalho no teatro de revista, que resulta em temas teatralizados como o diálogo de Boneca de Piche, originalmente gravado por Carmen Miranda e Almirante, em 1938. Há também seu lado satírico, em temas como Eu Dei, gravado por Carmen Miranda em 1937, e Como Vaes Você, em que o compositor dialoga com a cantora, em 1936, Falta um Zero no Meu Ordenado, gravado por Francisco Alves, em 1948, e Jards Macalé, em 1995; e Não Sou Manivela, por Aracy de Almeida, em 1966.

É por conta de Aquarela do Brasil, música amplamente gravada nacional e internacionalmente - como a gravação da orquestra cubana de Xavier Cugat e dos cantores norte-americanos Bing Crosby e Frank Sinatra, de grande sucesso nos Estados Unidos -, que o compositor é convidado a trabalhar em Hollywood. Além de Alô Amigos, Ary Barroso tem suas composições em outro filme de Walt Disney, The Three Caballeros, de 1944. Considerado um dos ícones da evolução dos efeitos especiais no cinema, esse filme traz a cantora Aurora Miranda interpretando Os Quindins de Iaiá. Nesse mesmo ano, Barroso é contratado pelo estúdio Republic Pictures, para escrever a trilha sonora da comédia musical Brazil, dirigida por Joseph Santley. A canção Rio de Janeiro (Isso É o Meu Brasil), que compõe essa trilha, é indicada ao Oscar de 1945. Na época, Aquarela do Brasil compõe a trilha do filme The Eddy Duchin Story (1956), dirigido por George Sidney, e Na Baixa do Sapateiro é interpretada pela cantora e atriz Libertad Lamarque no filme Nunca Es Tarde para Amar (1953), do diretor Tito Davison.

Barroso grava o disco solo Encontro com Ary, em 1956, no qual interpreta ao piano nove composições próprias. Mais do que suas gravações, o compositor deixa uma obra de significativa importância na construção de padrões que ajudam a moldar a música popular no Brasil do século XX.

Outras informações de Ary Barroso:

  • Outros nomes
    • Ary Evangelista de Resende Barroso
    • Ari Barroso
  • Habilidades
    • Compositor
    • Cantor/Intérprete
    • Pianista
    • Radialista
    • músico

Obras de Ary Barroso: (4) obras disponíveis:

Espetáculos (13)

Fontes de pesquisa (8)

  • A Descoberta do Luxo, do Som e do Lixo. Palco e Platéia, São Paulo, ano III, no. 14, p. 6, março de 1972. Não catalogado
  • CABRAL, Sérgio. No tempo de Ari Barroso. Rio de Janeiro, Lumiar, 1993.
  • Enciclopédia da música brasileira: erudita, folclórica, popular. Organização Marcos Antonio Marcondes. São Paulo: Art editora Ltda, 1977.
  • MARIZ, Vasco. A canção brasileira. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 2002.
  • Nova História da Música Popular Brasileira - Ary Barroso. São Paulo, Abril Cultural, 1970.
  • Planilha enviada pelo pesquisador Edélcio Mostaço Não Catalogado
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo. São Paulo, Editora 34, 1997.
  • SEVERIANO, Jairo. Yes, nós temos Braguinha. Rio de Janeiro: Funarte, 1990.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ARY Barroso. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12427/ary-barroso>. Acesso em: 20 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7