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Música

Mário Reis

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 23.12.2020
31.12.1907 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
04.10.1981 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Mário da Silveira Meirelles Reis (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1907 – Idem, 1981). Intérprete. Criado em uma família da alta sociedade carioca, sendo a mãe é herdeira da conhecida Fábrica Bangu de Tecidos tecidos, e o pai, presidente do América Futebol Clube, pelo qual Mário Reis chega a jogar nas categorias de base.

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Mário da Silveira Meirelles Reis (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1907 – Idem, 1981). Intérprete. Criado em uma família da alta sociedade carioca, sendo a mãe é herdeira da conhecida Fábrica Bangu de Tecidos tecidos, e o pai, presidente do América Futebol Clube, pelo qual Mário Reis chega a jogar nas categorias de base.

Aos 17 anos, estuda violão e, dois anos depois, ingressa na Faculdade de Direito, onde conhece o amigo e compositor Ary Barroso (1903-1964). Na mesma época, é apresentado à figura importante em sua formação: o compositor, cantor e violonista José Barbosa da Silva, o Sinhô (1888-1930), com quem se aperfeiçoa no instrumento.

Depois de dois anos de aprendizado, Mário Reis é levado pelo mestre ao estúdio da Odeon e faz suas primeiras gravações. No mesmo período, a Casa Edison, do empresário tcheco Frederico Figner (1866-1947), pioneira em discos no Brasil, inaugura o sistema elétrico de gravação. Esses primeiros registros de Mário são composições de Sinhô: “Carinhos de Vovô” e “Que Vale a Nota Sem o Carinho da Mulher”. Em 1928, grava dez canções em cinco discos, entre elas, “Vou à Penha” (Ary Barroso), “Gosto Que Me Enrosco” e “Jura”. As duas últimas canções, registradas no mesmo disco, batem a marca de 30 mil cópias, quantidade considerada grande para a época.

Em 1929, estreia na Rádio Sociedade. No ano seguinte, forma-se na faculdade e perde seu tutor artístico e principal compositor, que falece aos 41 anos. Ainda em 1930, por iniciativa de Francisco Alves (1898-1952), conhecido como O Rei da Voz, os dois iniciam o dueto masculino de maior sucesso do período. Registrando temas dos compositores mais requisitados da época, a dupla obtém grande vendagem com “É Preciso Discutir”, composta pelos dois artistas; “Fita Amarela” [Noel Rosa (1910-1937)]; e “Se Você Jurar” [Ismael Silva (1905-1978)]. Em cerca de dois anos, os parceiros registram 24 canções em 12 discos.

Nos anos 1930, Mário canta em diversas gravadoras, como a Columbia (sob o pseudônimo de C. Mendonça) e a RCA-Victor, a convite de Pixinguinha (1897-1973). No mesmo período, assina contrato com as rádios cariocas Philips e Mayrink Veiga. Nessa última, ganha do apresentador César Ladeira (1910-1969) o apelido de Bacharel do Samba. Em 1936, canta no filme Alô, Alô,Carnaval, do cineasta Adhemar Gonzaga (1901-1978). No mesmo ano, grava o último disco pela Odeon e, de maneira surpreendente, abandona a música e torna-se chefe do gabinete do prefeito do Distrito Federal. 

Mário Reis decide voltar a gravar em 1960, pela Odeon. Cantando esporadicamente, registra o disco Mário Reis Canta suas Criações Em Hi-Fi (1960), pela Odeon. Cinco anos depois, grava o álbum Ao Meu Rio, pela Elenco. Em 1971, faz a última apresentação para o público. 

 

Análise

Mário Reis subverte um estereótipo da época na música popular brasileira: por trás da figura grã-fina, com físico esportista (integrante das categorias de base do América e exímio jogador de tênis), fixador no cabelo, traje impecável e diploma da Faculdade de Direito, desponta um dos melhores intérpretes de samba de todos os tempos. Esse é Mário Reis, considerado por críticos e especialistas como o fundador do canto brasileiro moderno.

Além do talento, Mário Reis está no lugar e na hora certos: dom e vocação são beneficiados pelo avanço tecnológico da época. Até os anos 1920, os métodos de gravação de discos no país eram precários. O sistema mecânico – e, antes, a gravação em discos de cera – exige que os cantores tenham forte potência vocal. Nesse período, reinam as vozes de Francisco Alves, Carlos Galhardo (1913-1985) e Vicente Celestino (1894-1968), representantes do bel-canto, capazes de emitir o chamado “dó de peito”. 

Nos estúdios da Casa Edison ou da Odeon, intérpretes e músicos espremem-se para conseguirem um registro definitivo, o que resulta em uma maçaroca sonora, embolando graves e médios, tornando os registros agudos quase que não identificáveis. Com outro estilo, surpreendente para a época, Mário Reis canta com naturalidade, como quem conversa com o ouvinte. 

Em termos de divisão de compassos, dicção, respiração e interpretação masculina, ele representa para a música brasileira a mesma revolução provocada no canto feminino por Carmen Miranda (1909-1955). João Gilberto (1931-2019) declara que, no início da carreira, imita o modo empostado de cantar de Orlando Silva. Os trejeitos interpretativos de João, entretanto, guardam mais semelhanças com estilo criado por Mário Reis.

A partir de 1927, o desenvolvimento tecnológico da indústria fonográfica favorece a reprodução da voz do cantor em discos e rádios. Por iniciativa do empresário tcheco Frederico Figner (fundador da Cada Edison), os discos deixam de ser gravados pelo sistema mecânico e passam a ser processados de forma elétrica. Uma transformação ideal para o modo de interpretar de Mário Reis. O novo método, exige respiração mais contida e menos impostação da voz. Pode-se, enfim, cantar de maneira coloquial, mas elegante e com sutileza. Nesses quesitos, Mário é pioneiro e mestre. Nesse momento, o samba e as marchinhas deixam de circular apenas nas sociedades carnavalescas e nos bairros periféricos para adentrar nos salões da alta sociedade carioca, revelando o manancial inesgotável de compositores do Estácio, tradicional reduto carioca do samba.

A principal influência de Mário Reis é Sinhô, considerado o Rei do Samba, com grande número de sucessos consagrados nas vozes de outros intérpretes. Mário torna-se seu aluno de violão e  absorve o espírito artístico do mestre. Sinhô compõe canções e as interpreta de maneira sincopada: faz com que a duração de uma frase melódica não se estenda e acompanha exatamente a métrica das palavras. Não por escolha, mas por necessidade: o compositor e violonista é tuberculoso e o fôlego curto abrevia-lhe o canto.Não imagina que um acadêmico, grã-fino e catedrático como Mário possa entender a essência de suas composições e cantá-las como nenhum outro intérprete da época.

Mesmo com a morte de seu padrinho artístico, em 1930, Mário conduz a carreira de maneira notável. Com uma inteligente jogada de marketing, aceita o convite de Francisco Alves (cantor de sucesso da época), e os dois formam uma das duplas masculinas de maior relevância na história da música nacional. Os 24 temas lançados pelo dueto em dois anos têm como principal característica o contraponto entre a impostação de voz de Francisco Alves e o coloquialismo sutil e inovador de Mário Reis.

Em duetos ou individualmente, Mário serve-se das obras de importantes compositores da época: Sinhô, Ary Barroso; Noel Rosa, Ismael Silva, Lamartine Babo (1904-1963), Fernando Lobo (1915-1996), Sylvio Fernandes, o Brancura (ca. 1908-1935), André Filho (1906-1974), Benedito Lacerda (1903-1958), Wilson Batista (1913-1968), entre tantos outros. Embora registre canções com temas diversos, o mais frequente é em formato de crônicas jocosas, retratando tipos e costumes da sociedade carioca ou de respostas a traições e desenganos amorosos.

O apelido de Bacharel do Samba é dado pelo locutor César Ladeira, da Rádio Mayrink Veiga – o mesmo que batiza Francisco Alves de O Rei da Voz. A alcunha justifica-se: entre 197 músicas gravadas por Mário Reis, 146 são sambas.

A partir dos 28 anos, Mário decide encerrar a carreira musical. Retoma as apresentações e gravações nas décadas de 1950 e 1960. Nos anos seguintes, como o canto não é sua fonte de renda, interpreta apenas para amigos, no Country Club de Ipanema. De 1957 até o fim da vida, em 1981, mesmo decadente, não perde a pose e mora no quarto de número 140 do hotel Copacabana Palace. É um dos grandes reinventores do cancioneiro nacional.

Exposições 2

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Fontes de pesquisa 4

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  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • GIRON, Luis Antonio. Mario Reis: o fino do samba. São Paulo: Editora 34, 2001.
  • MARQUES, Carlos. Sílvio Caldas: o seresteiro do Brasil. Fortaleza: Editora UFC, 2008.
  • SÍLVIO CALDAS. A música brasileira deste século por seus autores e intérpretes – Sílvio Caldas. Produção de J. C. Botezelli. [São Paulo]: Sesc/SP, 2003. 1 encarte de CD.

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