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Música

Benedito Lacerda

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 13.01.2021
14.03.1903 Brasil / Rio de Janeiro / Macaé
16.02.1958 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Benedicto Lacerda (Macaé, Rio de Janeiro, 1903 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1958). Flautista, regente e compositor. Reconhecido por sua capacidade de organização como regente e pela criatividade como instrumentista e arranjador, estabelece o diálogo entre o choro e o samba, e contribui para o processo de incorporação desses gêneros ao reper...

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Benedicto Lacerda (Macaé, Rio de Janeiro, 1903 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1958). Flautista, regente e compositor. Reconhecido por sua capacidade de organização como regente e pela criatividade como instrumentista e arranjador, estabelece o diálogo entre o choro e o samba, e contribui para o processo de incorporação desses gêneros ao repertório da era de ouro do rádio.

Começa a tocar flauta “de ouvido”, aos 8 anos, aprendendo as noções básicas de música na Banda Nova Aurora, em sua cidade natal. Aos 17 anos, muda-se para o bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, no momento em que ali se cria um novo estilo de samba, cujo ritmo é mais adequado aos desfiles de carnaval de rua. Tocador de surdo1 no bloco Deixa Falar, Benedito Lacerda incorpora a nova cadência também em sua maneira de executar a flauta.

Além do convívio com os sambistas do Estácio, a mudança para a capital lhe proporciona a oportunidade de continuar os estudos de flauta de maneira mais sistemática, primeiro com o mestre de banda Belarmino de Sousa, depois no Instituto Nacional de Música2, onde se forma em flauta e composição, aprimorando sua habilidade interpretativa e técnica. Posteriormente, o domínio da escrita musical o coloca em vantagem na nascente indústria musical, na medida em que utiliza esse conhecimento em troca da parceria em composições de alguns sambistas.

Transitando entre o universo erudito e popular, o flautista ocupa diversos espaços possíveis à atuação dos músicos profissionais da época. Em 1922, ingressa na Polícia Militar. Sem deixar de lado suas atividades musicais, atua em orquestras de cinema e teatro, ao mesmo tempo em que integra a banda do batalhão, chegando a ser transferido para a Escola Militar do Realengo como músico de primeira classe. A partir de 1927 dedica-se exclusivamente à música. No final dos anos 1920, integra o conjunto Os Boêmios da Cidade, que acompanha a cantora e dançarina estadunidense Josephine Baker (1906-1975) em sua passagem pelo Brasil.

No início dos anos 1930, cria o conjunto Gente do Morro, caracterizado pela presença de percussão, ponteios de flauta, breques e batuques. Além de acompanhar diversos cantores, o conjunto faz gravações próprias pela Brünswick, Columbia e Parlophon, contando com a participação de Benedito Lacerda como cantor em algumas músicas. Essa experiência possibilita a criação de outro conjunto em 1934, o Regional de Benedito Lacerda. Com mais ênfase na harmonia, o conjunto mantém o mesmo trio de base – formado por Dino (1918-2006) e Meira (1909-1982) nos violões e Canhoto3 (1908-1987) no cavaquinho – de 1937 até a saída de Benedito Lacerda, na década de 1950.

Célebre por acompanhar cantores como Orlando Silva (1915-1978), Francisco Alves (1898-1952), Sílvio Caldas (1908-1998) e Carmen Miranda (1909-1955) em gravações e apresentações ao vivo, o Regional de Benedito Lacerda estabelece um tipo de formação que caracteriza a sonoridade de grande parte do repertório de música popular dos anos 1930 aos anos 1950. Esteticamente, sua maior inovação é incorporar os esquemas rítmicos e sonoridades percussivas do samba do Estácio às levadas do choro.

Além de um regente rigoroso à frente do Regional, que disciplina os ensaios e confere um caráter profissional ao conjunto, Benedito Lacerda se mostra um hábil arranjador. Recria sob a métrica do Estácio composições do final do século XIX, como a polca “Flor de Liz”, de Cícero dos Telégrafos (1880-1910), que em sua versão se transforma no choro “Dinorá”. A atuação de Benedito possibilita uma atualização do repertório, sua divulgação e vitalidade décadas depois, influenciando flautistas de outras gerações, como Altamiro Carrilho (1924-2012).

Sua atuação é particularmente observada em parceria com Pixinguinha (1897-1973) em uma série de 17 discos pela RCA Victor e no programa O Pessoal da Velha Guarda, produzido e apresentado por Almirante (1908-1980) na Rádio Tupi, entre 1942 e 1957. Na interpretação de Benedito Lacerda, nos anos 1940, músicas como “O Urubu e o Gavião”, gravada como uma polca por Pixinguinha na década anterior, valorizam o aspecto rítmico. O andamento, mais lento, favorece o diálogo contrapontístico entre o sax de Pixinguinha e a flauta de Benedito, abrindo espaço à improvisação. Do diálogo entre os dois músicos resulta a incorporação do contraponto como elemento estilístico do choro.

Por sua habilidade em negociar com donos de gravadoras, Benedito Lacerda desempenha também importante papel na defesa dos direitos e da atuação profissional de músicos e compositores, à frente da União Brasileira de Compositores (UBC) e da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (Sbacem), da qual é presidente por duas vezes.

A atuação de Benedito Lacerda marca a época dos conjuntos regionais da era de ouro do rádio. Seja atuando em gravações, organizando conjuntos, ou mesmo como compositor, o flautista contribui para a disseminação da rítmica do Estácio, a fixação e amadurecimento da fórmula do samba na música popular brasileira, bem como para a própria atuação profissional dos músicos.

 

Notas:

1. Instrumento de percussão de som grave que marca o andamento para garantir a unidade de todas as partes do desfile.
2. Atual Escola de Música da UFRJ.
3. Apesar da semelhança do pseudônimo, trata-se do cavaquinista Waldomiro Frederico Tramontano, não do violonista Américo Jacomino (1889-1928).

Fontes de pesquisa 9

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  • ARAÚJO, Larena Franco de. Dante Santoro (1904-1969): trajetória e estilo interpretativo do flautista líder do regional da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. 2014. 234 f. Tese (Doutorado em Música) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.
  • BENEDITO Lacerda. Os Batutas. Rio de Janeiro: Rádio Batuta/Instituto Moreira Salles, 29 nov. 2010. 1 programa de rádio. Disponível em: https://radiobatuta.com.br/programa/benedito-lacerda/. Acesso em: 9 jul. 2020.
  • BESSA, Virginia de Almeida. A escuta singular de Pixinguinha. História e música popular no Brasil dos anos 1920 e 1930. São Paulo: Alameda, 2010.
  • DINIZ, André. Almanaque do choro: a história do chorinho, o que ouvir, o que ler, onde curtir. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998.
  • MORAIS, Pérsio de. Os compositores nos roubaram Benedito. [1956]. Coleção Revista da Música Popular. Rio de Janeiro: Funarte: Bem-Te-Vi Produções Literárias, 2006, p. 738-741.
  • PAES, Anna. Almirante e o Pessoal da Velha Guarda: memória, história e identidade. 2012. 241 f. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
  • PIXINGUINHA e Benedito. Pixinguinha na Pauta. Apresentação: Pedro Paulo Malta. Roteiro: Pedro Paulo Malta, Paulo Aragão, Marcílio Lopes e Bia Paes Leme. Edição: Filipe Di Castro. Rio de Janeiro: Rádio Batuta/Instituto Moreira Salles, 5 nov. 2016. 1 programa de rádio. Disponível em: https://radiobatuta.com.br/programa/pixinguinha-e-benedito/. Acesso em: 9 jul. 2020.
  • SANDRONI, Carlos. Feitiço Decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro (1917-1930). Rio de Janeiro: Jorge Zahar: Editora UFRJ, 2001.

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