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Radamés Gnattali

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 02.02.2021
27.01.1906 Brasil / Rio Grande do Sul / Porto Alegre
03.02.1988 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Radamés Gnattali (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1906 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988). Compositor, arranjador, maestro, pianista e violinista. Com vasta produção autoral, que abrange o popular e o erudito, contribui, com sua longa trajetória na rádio e na TV, para a difusão da música brasileira, além de criar novos arranjos para ritmos...

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Radamés Gnattali (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1906 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1988). Compositor, arranjador, maestro, pianista e violinista. Com vasta produção autoral, que abrange o popular e o erudito, contribui, com sua longa trajetória na rádio e na TV, para a difusão da música brasileira, além de criar novos arranjos para ritmos tradicionais.

Forma-se pianista, em 1924, pelo Instituto de Belas Artes de Porto Alegre. No começo de sua trajetória, ganha a vida tocando piano em cinemas e bailes da capital gaúcha. Participa de serestas e blocos carnavalescos, empunhando cavaquinho e violão. Dedica-se ainda ao violino, que troca pela viola em 1925, para integrar o quarteto de cordas Henrique Oswald (1918-1965), no qual atua durante quatro anos.

No fim da década de 1920, muda-se para o Rio de Janeiro. Sem recursos para se dedicar exclusivamente à carreira de concertista, toca viola e piano em orquestras de teatro e da Rádio Clube do Brasil, além de integrar o quarteto do Hotel Central. Em 1930, apresenta ao público carioca suas primeiras composições, todas do repertório erudito.

A partir de 1932, aproxima-se da música popular e começa a trabalhar como arranjador. Nessa época, passa a reger e compor para o teatro musicado e grava seus primeiros choros, com o pseudônimo Vero1.

Atua nas recém-criadas rádios comerciais e na indústria fonográfica, inicialmente como pianista e depois como orquestrador e regente. Por causa das novas demandas profissionais, desiste da carreira de concertista, mas segue compondo música erudita nas horas vagas e apresentando concertos de suas obras.

Assim como seu contemporâneo, o compositor Pixinguinha (1897-1973), suas composições sofrem influência do jazz, como no uso da orquestra completa de metais (quatro trompetes, quatro trombones e cinco saxofones), que gera nos arranjos um timbre influenciado pela música norte-americana. No entanto, Gnattali não apenas transpõe para seus arranjos aquilo que ouve, como também cria um estilo próprio.

Sistematiza uma nova forma de orquestrar o samba, ao transferir a cadência rítmica, inicialmente executada pela percussão, para o naipe dos metais. O riff2 de “Aquarela do Brasil”, executado pelos saxofones, é um marco nesse processo. 

Em 1936, torna-se maestro e arranjador na Rádio Nacional, onde permanece por cerca de 30 anos. Ali, cria a Orquestra Carioca, dedicada exclusivamente à música brasileira. Acrescida de dois violões, cavaquinho e vasta percussão, dá origem em 1943 à Orquestra Brasileira de Radamés Gnattali. Sua proposta é dar um ar mais "brasileiro" às orquestrações, embora a base do conjunto permaneça de big band3

Nos anos 1930, o rádio e a música popular tornam-se os principais sustentáculos ideológicos do governo do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), e Gnattali aproveita o espaço aberto aos novos maestros e arranjadores. Sua atuação na Rádio Nacional não se dá exatamente como propagandista, mas está sempre em consonância com os projetos do governo e com a atuação da Divisão de Radiodifusão do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). 

Divulga para o grande público melodias tradicionais brasileiras por meio de orquestrações de motivos folclóricos, que se tornam verdadeiras composições e ajudam a construir um "imaginário sonoro" do país. Ao dar uma roupagem moderna e sinfonizada à música popular urbana, ajuda a educar a audição das massas com a divulgação de um repertório a um só tempo "nacional" e "elevado".

Com o fim do governo Vargas, em 1945, liberta-se do nacionalismo neoclássico e aproxima-se das grandes formas em obras como “Trio Miniatura”, “Brasiliana nº 1” e “Concerto Romântico”. Essa mudança também transparece em suas composições populares. Os arranjos para os "quatro grandes", como são conhecidos os quatro principais cantores do disco e do rádio − Orlando Silva (1915-1978), Francisco Alves (1898-1952), Carlos Galhardo (1913-1985) e Silvio Caldas (1908-1998) −, cedem espaço a uma orquestração mais intimista, em que utiliza instrumentos como marimba, guitarra e acordeom, produzindo um timbre considerado precursor da bossa nova. O arranjo de “Copacabana”, gravado em 1946 por Dick Farney (1921-1987), é considerado por alguns críticos um marco nesse processo, antecipando sonoridades bossa-novistas.

Outro reflexo da vivência radiofônica na obra de Gnattali é a inusitada instrumentação de suas peças. Cercado de solistas na Rádio Nacional, o compositor procura escrever para eles. É assim que surgem composições como “Concerto para Harmônica de Boca e Orquestra” (1958), escrito para Edu da Gaita (1916-1982) e “Concerto para Acordeão e Orquestra” (1958), para Chiquinho do Acordeom (1928-1993). O manejo com diversos timbres revela a audição aberta do compositor, bem como seu constante experimentalismo em um universo musical ainda marcado por um tom conservador e acadêmico.

Nas décadas de 1960 e 1970, com a substituição do rádio pela televisão como principal meio de comunicação de massa, as orquestras radiofônicas desaparecem. Gnattali passa a trabalhar na TV Excelsior e na TV Globo como maestro e arranjador, entre 1968 e 1979, e dedica-se novamente à composição de músicas eruditas. Ainda nos anos 1970, com o renascimento do choro, suas obras são executadas por jovens músicos e o compositor volta a se apresentar em público.

Transitando entre o popular e o erudito, Radamés Gnattali deixa uma extensa obra de concerto, com cerca de 400 títulos, além de inúmeras composições populares, promovendo a ampliação do acesso a um vasto repertório de música brasileira.

Notas:

1. O uso do pseudônimo Vero serve para que a figura de Radamés não esteja associada a composição de repertório popular. 

2. Riff (refrão, em inglês): pequeno fragmento rítmico-harmônico, em geral sincopado, executado na forma de ostinato (figura repetida obstinadamente).

3. Como são conhecidas as bandas de jazz norte-americanas.

Obras 5

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Fontes de pesquisa 7

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  • ANDRADE, Mario. Música, doce música. São Paulo: Martins; Brasília: INL, 1976.
  • BARBOSA, Valdinha e DEVOS, Anne Marie. Radamés Gnattali: o eterno experimentador. Rio de Janeiro: Funarte/Instituto Nacional de Música/Divisão de Música Popular, 1985. (Coleção MPB, 15).
  • BRESSON, Bruno Cartier. "Uma história que conta como os violinos chegaram aos arranjos do samba". Jornal da Tarde, 19/3/1979, p. 25.
  • DIDIER, Aluisio. Radamés Gnattali. Rio de Janeiro: Brasiliana Produções, 1996.
  • Disponível em: [http://www.radamesgnattali.com.br/site/index.aspx?lang=port]. Acesso em: 03/09/2008. Radamés Gnattali
  • GNATTALI, Radamés. Depoimento a Lourival Marques. Collectors. (Série Depoimentos).
  • SAROLDI, Luiz Carlos e MOREIRA, Sônia Virgínia. Rádio Nacional. O Brasil em sintonia. Rio de Janeiro: Funarte, 1984.

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