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Música

Elizeth Cardoso

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 11.02.2021
16.07.1920 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
07.05.1990 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Reprodução fotográfica Correio da Manhã/Acervo Arquivo Nacional

Elizeth Cardoso, 1955

Elizete Moreira Cardoso (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1920 – Idem, 1990). Cantora. Conhecida como “Divina”, Elizeth Cardoso é considerada uma das maiores cantoras da música popular brasileira (MPB). Sua trajetória é marcada por um momento de convergência de dois movimentos: a chamada Era de Ouro do rádio e a invenção da bossa nova. 

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Elizete Moreira Cardoso (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1920 – Idem, 1990). Cantora. Conhecida como “Divina”, Elizeth Cardoso é considerada uma das maiores cantoras da música popular brasileira (MPB). Sua trajetória é marcada por um momento de convergência de dois movimentos: a chamada Era de Ouro do rádio e a invenção da bossa nova. 

Constrói sua formação musical “de ouvido”, acompanhando, na infância, as serestas do pai, o bloco carnavalesco da mãe e as reuniões de músicos na casa de Tia Ciata. Ouvinte assídua de rádio, conhece bem o repertório de sua época, e tem por influências as cantoras Odete Amaral (1917-1984), Aracy de Almeida (1914-1988) e Marília Batista (1917-1990). Começa a cantar profissionalmente em 1936, na Rádio Guanabara, apresentada por Jacob do Bandolim (1918-1969). Estreia com os sambas “Do Amor ao Ódio” (1937), do compositor Luís Bittencourt (1915), e “Duas Lágrimas” (1936), de Benedito Lacerda (1903-1958). Com o tempo, apura seu estilo, incorporando elementos característicos daquelas intérpretes, como os vibratos e o prolongamento da consoante “r”. 

Em 1950, grava as músicas “Canção de Amor”, composta por Chocolate (1923-1989) e Elano de Paula (1923-2015), e “Complexo”, de Wilson Batista (1913-1968). O sucesso do disco garante-lhe contrato de dois anos com a Rádio Tupi, apresentações na televisão e participações no cinema, em filmes como Coração Materno (1951) e O Rei do Samba (1952). Parte de sua carreira vincula-se à fase em que o rádio é o principal meio de divulgação da música popular. Nessa época, registra canções de compositores como Pixinguinha (1897-1973), Ary Barroso (1903-1964), Custódio Mesquita (1910-1945), Noel Rosa (1910-1937) e Tito Madi (1929). Até então, seu repertório constitui-se, sobretudo, de sambas-canções, gênero do qual ela se torna referência.

A gravação do LP Canção do Amor Demais (1958), com composições de Vinícius de Moraes (1913-1980) e Tom Jobim (1927-1994), com violão de João Gilberto (1931-2019), é um marco em sua trajetória. Apesar de não causar grande repercussão na época, o disco é bem recebido pela imprensa especializada. Considerado por alguns críticos o álbum precursor da bossa nova, Canção do Amor Demais caracteriza-se pelo estilo pessoal de Elizeth, marcado pelos vibratos, que reforçam o efeito dramático. O repertório, composto por Vinícius de Moraes e Tom Jobim (pianista e arranjador do disco), continua na temática dos sambas-canções, com músicas de apelo sentimental. É o caso de “Serenata do Adeus” e “Estrada Branca”, cujo desfecho é trágico: “Vou caminhando com vontade de morrer”. 

O álbum desperta a atenção para o novo gênero, que se estabelece a partir da gravação, em 1959, de “Chega de Saudade” pelo próprio João Gilberto. A parceria da cantora com tais compositores revela-se importante, na medida em que empresta seu nome, associado à tradição, a uma estética nova (que ainda sofre retaliações pelos defensores de uma “legítima” música popular brasileira no final dos anos 1950).

Na década de 1960, Elizeth interessa-se pela revalorização de gêneros tradicionais. Em 1964, interpreta “Bachianas nº 5”, de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e de São Paulo. Ao lado do cantor e compositor Cyro Monteiro (1913-1973), apresenta o programa Bossaudade (1965), na TV Record, enquanto participa de júris dos festivais de MPB. São esses festivais que consolidam a passagem do rádio para a TV como nova esfera de difusão da MPB, e definem sua renovação estética e comercial.

Também na década de 1960 a cantora lança o disco Elizete Sobe o Morro (1965). O LP regrava músicas do espetáculo Rosa de Ouro (1965), produzido e roteirizado por Hermínio Bello de Carvalho (1935) e dirigido por Kléber Santos, no Teatro Jovem, no Rio de Janeiro, com participação de Clementina de Jesus (1902-1987) e Aracy Cortes (1904-1985). O disco é considerado um dos mais importantes registros da música popular brasileira, marcando a estreia de sambistas que se tornam conhecidos posteriormente, como Nelson Cavaquinho (1911-1986) e Paulinho da Viola (1942)

Em 1968, realiza um espetáculo que promove o encontro entre o choro e o jazz: a bossa modernizadora do Zimbo Trio harmoniza com o choro de Jacob do Bandolim e do conjunto Época de Ouro. O show é realizado no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, e gravado em LP pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ). Esse espetáculo consolida o cancioneiro popular, valorizando a divisão rítmica, e segue uma orientação estética diferente da interpretação típica dos boleros. 

Em um momento marcado pela criação de um novo público consumidor de música popular  – os jovens universitários atuantes no Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional de Estudantes (UNE), que lotam as plateias dos grandes festivais da MPB  –, Elizeth divide a cena musical com as cantoras Nara Leão (1942-1989) e Elis Regina (1945-1982), estabelecendo um contraponto às influências do rock internacional. Essa vertente define-se pela defesa do popular como expressão autêntica da nacionalidade brasileira.

A sensibilidade musical de Elizeth Cardoso deixa à música popular brasileira uma obra expressiva. Pode-se dizer que sua importância se define por uma versatilidade observada tanto em sua voz, cuja amplitude lhe permite cantar samba e música clássica com o mesmo êxito, quanto em sua facilidade em transitar por diferentes gêneros musicais e cativar diferentes públicos. Com essa versatilidade, Elizeth Cardoso representa a ponte entre tradição e modernidade, consolidando-se como uma das maiores intérpretes da MPB.

Obras 1

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Espetáculos 3

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Shows musicais 1

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Fontes de pesquisa 9

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  • AGUIAR, Ronaldo Conde. As divas do rádio nacional: as vozes eternas da Era de Ouro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010. 247 p.
  • CABRAL, Sérgio. Elisete Cardoso: uma vida. São Paulo: Lazuli Editora: Companhia Editora Nacional, 2010.
  • CARDOSO, Elizeth. Depoimento da cantora concedido ao Conselho de MPB do MIS-RJ. Entrevistadores: Eneida de Morais, Haroldo Costa e Hermínio Bello de Carvalho. Presentes: Luís Canevalli, Pereira Lira, Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro, 21 jul. 1970. (Coleção Depoimentos Para Posteridade).
  • ENCICLOPÉDIA da música brasileira: erudita, folclórica e popular. 2. ed., rev. ampl. Organização Marcos Antônio Marcondes. São Paulo: Art Editora, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • INSTITUTO Moreira Salles. Hotsite Divina Elizeth. Disponível em: http://ims.uol.com.br/hs/divinaelizeth/divinaelizeth.html. Acesso em: 20 nov. 2012.
  • NAPOLITANO, Marcos. Seguindo a canção: engajamento político e indústria cultural na MPB (1959-69). São Paulo: Annablume, 2001.
  • ROSA de Ouro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2020. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69767/rosa-de-ouro>. Acesso em: 19 de Jul. 2020. Verbete da Enciclopédia.
  • SOUZA, Tárik de. Tem Mais Samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003. (Coleção Todos os Cantos).
  • XAVIER, G. Elizeth Cardoso - apenas uma nota na composição de sua homenagem. Jornal da USP, 17 jul. 2020. Cultura. Disponível em: https://jornal.usp.br/cultura/elizeth-cardoso-apenas-uma-nota-na-composicao-de-sua-homenagem/. Acesso em: 19 jul. 2020.

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