Artigo da seção pessoas Elizeth Cardoso

Elizeth Cardoso

Artigo da seção pessoas
Teatro  
Data de nascimento deElizeth Cardoso: 16-07-1920 Local de nascimento: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro) | Data de morte 07-05-1990 Local de morte: (Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro)

Elizete Moreira Cardoso (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1920 – Idem, 1990). Na infância, acompanha as serestas do pai e o bloco carnavalesco da mãe. Aos 5 anos, canta a marcha “Zizinha” no palco da sociedade carnavalesca Kananga do Japão. Abandona os estudos aos 10 anos. Aos 13, trabalha em um varejo de cigarros, depois em uma peleteria, uma fábrica de sapólio e um salão de beleza. 

Começa a cantar profissionalmente em 1936, na Rádio Guanabara, apresentada por Jacob do Bandolim (1918-1969). Estreia com os sambas “Do Amor ao Ódio”, de Luís Bittencourt (1915-?), e “Duas Lágrimas”, de Benedito Lacerda (1903-1958). No Programa Suburbano, impressiona o compositor Noel Rosa (1910-1937), que lhe ensina seu samba “Quem Ri Melhor”. Participa dos programas Samba e Outras Coisas na Rádio Educadora, e Rádios Novidades, na Rádio Transmissora, com o maestro Fon-Fon (1908-1951).

Apresenta-se com o humorista e compositor Grande Otelo (1915-1993). No início da década de 1940, faz turnê com a companhia de Teatro de Pedro Gonçalves e De Chocolat em Belém do Pará, Recife e Salvador. Trabalha como taxi-girl no Dancing Avenida, depois como crooner da orquestra. É convidada para ir a São Paulo, onde canta no Dancing Salão Verde e na Rádio Cruzeiro do Sul.

Em 1948 conhece o compositor Evaldo Rui (1913-1954), que a leva para o programa Alvorada da Alegria, na Rádio Mauá (Rio de Janeiro). Participa de programa noturno, com Jacob do Bandolim e Blecaute (1919-1983). Em 1949, volta à Rádio Guanabara, atuando em diversos programas, como o Clube do Samba, apresentado pelo cantor e compositor Ataulfo Alves (1909-1969). 

Em 1950, grava um compacto com as músicas “Canção de Amor”, de Chocolate (1923-1989) e Elano de Paula (1923-2015), e “Complexo”, de Wilson Batista (1913-1968). O sucesso deste álbum garante contrato por dois anos com Rádio Tupi, apresentações na televisão e participações no cinema. Atua nos filmes  como Coração Materno (1951), O Rei do Samba (1952) e Com a Mão na Massa (1958).

Em 1952, grava o LP Canções à Meia Luz. Em 1953, participa do espetáculo Feitiço da Vila, produzido por Paulo Soledade (1919-1999). Grava, em 1956, a “Canção da Volta” e “Linda Flor (Ai Ioiô)”. Em 1958, lança o LP Canção do Amor Demais, com composições de Vinicius de Moraes (1913-1980) e Tom Jobim (1927-1994) e violão de João Gilberto (1931). Nele, são lançadas as músicas “Eu não Existo sem Você”, “Outra Vez”, e “Chega de Saudade”. 

Em 1963, realiza espetáculo no teatro João Caetano, ao lado de Jacob do Bandolim e Zimbo Trio, gravado em LP pelo Museu da Imagem e do Som (MIS/SP). Em 1964, interpreta as “Bachianas nº 5” de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), no Teatro Municipal do Rio de Janeiro e de São Paulo. No ano seguinte, regrava as músicas do show Rosa de Ouro no álbum Elizeth Sobe o Morro e participa do programa Bossaudade, na TV Record. A convite do Itamaraty, apresenta-se em Cannes, na França, com Clementina de Jesus (1902-1987), Zimbo Trio e Wilson Simonal (1939-2000). Faz sua última apresentação em 1990, na boate People, vindo a falecer no mesmo ano.

Análise

A sensibilidade musical de Elizeth Cardoso deixa à música popular brasileira uma obra expressiva. Constrói sua formação musical “de ouvido”, convivendo durante a infância com carnaval de blocos e ranchos, serestas e reuniões de músicos na casa de Tia Ciata. Ouvinte assídua de rádio, conhece bem o repertório de sua época, tendo por influências as cantoras Odete Amaral (1917-1984), Aracy de Almeida (1914-1988) e Marília Batista (1917-1990). Com o tempo, apura seu estilo, incorporando elementos característicos dessas intérpretes, como os vibratos e o prolongamento da consoante “r” – por exemplo, nas frases do samba “Barracão”, de Luis Antônio (1921-1996) e Oldemar Magalhães (1912-1990), gravado pela cantora em 1968. É um recurso muito utilizado, também, pelos locutores de rádio. Favorecendo-se de sua amplitude vocal, interpreta com êxito tanto sambas como as Bachianas de Villa-Lobos.

Elizeth participa de um momento decisivo para a música popular, no qual convergem três movimentos: a estética e o repertório da chamada Era de Ouro do rádio, a invenção da bossa nova, e a realização de espetáculos que remetem a gêneros musicais considerados tradicionais. Parte de sua carreira vincula-se à fase em que o rádio é o principal meio de divulgação da música popular. Nessa fase, registra canções de compositores, como Pixinguinha (1897-1973), Ary Barroso (1903-1964), Custódio Mesquita (1910-1945), Noel Rosa e Tito Madi (1929). Até então, seu repertório constitui-se de sambas-canções, gênero do qual se torna referência.

A gravação do LP Canção do Amor Demais é um segundo marco em sua trajetória. Apesar de não causar grande repercussão na época – Elizeth é menos popular que outras cantoras de rádio, e os compositores são estreantes –, o disco é bem recebido pela imprensa especializada. Considerado por alguns críticos como o álbum precursor da bossa nova, Canção do Amor Demais caracteriza-se pelo estilo pessoal de Elizeth interpretar, marcado pelos vibratos, que reforçam o efeito dramático. Mesmo o repertório, composto por Vinícius de Morais e Tom Jobim (pianista e arranjador do disco), continua na temática dos sambas-canções, com músicas de apelo sentimental. É o caso de “Serenata do Adeus” e “Estrada Branca”, cujo desfecho é trágico: “Vou caminhando com vontade de morrer”. 

O álbum desperta a atenção para o novo gênero, que se estabelece a partir da gravação, em 1959, de “Chega de Saudade” pelo próprio João Gilberto. A parceria da cantora com tais compositores revela-se importante, na medida em que empresta seu nome a uma estética nova, que sofre retaliações pelos defensores de uma “legítima” música popular brasileira no final dos anos 1950.

Em um terceiro momento, quando a bossa nova está em alta, no final da década de 1960, Elizeth interessa-se pela revalorização de gêneros tradicionais, ligados ao sertão nordestino, e pelo samba de morro, no qual atua, gravando compositores como Candeia (1935-1978) e Nelson Cavaquinho (1911-1986). No repertório e na instrumentação do disco Elizeth Sobe o Morro (1965), a cantora aproxima-se de espetáculos musicais realizados no período, como Rosa de Ouro, com Clementina de Jesus, e Opinião, com Nara Leão (1942-1989). Recria-os com cuidadoso tratamento técnico, sobretudo nos arranjos. A performance de Elizeth culmina em um dos shows mais marcantes realizados no país. A ponte entre tradição e modernidade está na harmonização entre a bossa modernizadora do Zimbo Trio com o choro de Jacob do Bandolim e o conjunto Época de Ouro. Todos esses espetáculos consolidam o cancioneiro popular, valorizando a divisão rítmica, e seguem uma orientação estética diferente da interpretação típica dos boleros, que influencia a indústria fonográfica e a programação radiofônica do período anterior. 

Em um momento marcado pela criação de um novo público consumidor de música popular  – os jovens universitários atuantes no Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional de Estudantes (UNE), que lotam as plateias dos grandes festivais da MPB  –, Elizeth divide a cena musical com as cantoras Nara Leão e Elis Regina (1945-1982), estabelecendo um contraponto às influências do rock internacional. Elizeth, entretanto, não assume atuação política, motivo pelo qual é criticada por outros artistas na década de 1970, ao participar de um show em comemoração ao aniversário do Golpe Militar, junto com Jair Rodrigues (1939-2014), Os Originais do Samba, e sambistas da Mangueira, Portela, Mocidade Independente e Salgueiro.

Ainda que se associe a certa vanguarda, a cantora mantém-se conectada com o público anterior à bossa nova, ligado ao universo musical dos anos 1950. Enquanto participa de júris dos festivais, apresenta, ao lado de Cyro Monteiro, o Bossaudade (1965), na TV Record, programa que privilegia os gêneros tradicionais. São os festivais que consolidam a passagem do rádio para a TV, como nova esfera de difusão da música popular brasileira, e definem sua renovação estética e comercial. 

Elizeth mostra-se sensível, também, à divulgação de novos compositores e instrumentistas, como Elton Medeiros (1930), Baden Powell (1937-2000), Rafael Rabelo (1962-1995), Camerata Carioca, João Nogueira (1941-2000), Paulinho da Viola (1942), e Paulo Cesar Pinheiro (1949). Reconhecida internacionalmente e admirada pelos cantores norte-americanos Louis Armstrong (1901-1971), Sarah Vaughan (1924-1990) e Nat King Cole (1919-1965), Elizeth é lembrada por sua figura generosa e humilde. Embora não o reconheça, contribui para a transformação da música popular brasileira.

Outras informações de Elizeth Cardoso:

  • Outros nomes
    • Elisete Moreira Cardoso
    • Elisete Cardoso
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Ator

Obras de Elizeth Cardoso: (1) obras disponíveis:

Espetáculos (3)

Eventos relacionados (1)

Fontes de pesquisa (7)

  • CABRAL, Sérgio. Elisete Cardoso: uma vida. São Paulo: Lazuli Editora: Companhia Editora Nacional, 2010.
  • SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. São Paulo: Editora 34, 2003.
  • AGUIAR, Ronaldo Conde. As divas do rádio nacional: as vozes eternas da Era de Ouro. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010. 247 p.
  • CARDOSO, Elizeth. Depoimento da cantora concedido ao Conselho de MPB do MIS-RJ. Entrevistadores: Eneida de Morais, Haroldo Costa e Hermínio Bello de Carvalho. Presentes: Luís Canevalli, Pereira Lira, Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro, 21 jul. 1970. (Coleção Depoimentos Para Posteridade).
  • INSTITUTO Moreira Salles. Hotsite Divina Elizeth. Disponível em: http://ims.uol.com.br/hs/divinaelizeth/divinaelizeth.html. Acesso em: 20 nov. 2012.
  • MARCONDES, Marcos Antônio (Ed.). Enciclopédia da música brasileira: popular, erudita e folclórica. 2. ed. São Paulo: Art Editora: Publifolha, 1998. R780.981 M321e 2.ed.
  • NAPOLITANO, Marcos. Seguindo a canção: engajamento político e indústria cultural na MPB, 1959-1969. São Paulo: Annablume: Fapesp, 2001.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • ELIZETH Cardoso. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12195/elizeth-cardoso>. Acesso em: 14 de Out. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7