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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Cassiano

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 14.03.2022
16.09.1943 Brasil / Paraíba / Campina Grande
07.05.2021 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Genival Cassiano dos Santos (Campina Grande, Paraíba, 1943 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021). Cantor e compositor. Expoente do soul brasileiro nos anos 1970, ao lado de Tim Maia (1942-1998) e Hyldon (1951), escreve algumas das canções mais influentes do gênero, entre as quais os hits “Primavera (Vai chuva)” e “A lua e eu”. Conjugando crist...

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Genival Cassiano dos Santos (Campina Grande, Paraíba, 1943 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2021). Cantor e compositor. Expoente do soul brasileiro nos anos 1970, ao lado de Tim Maia (1942-1998) e Hyldon (1951), escreve algumas das canções mais influentes do gênero, entre as quais os hits “Primavera (Vai chuva)” e “A lua e eu”. Conjugando cristalina voz aguda e perfeccionismo artístico, lança apenas quatro discos solo na carreira. 

Nascido em Campina Grande, migra criança para o Rio de Janeiro, com a família pobre. Na então capital federal, trabalha como assistente de pedreiro enquanto ensaia os primeiros acordes no bandolim, ensinado pelo pai. Amante de bossa nova e samba-canção, e cada vez mais influenciado pela sonoridade de músicos negros norte-americanos, como Otis Redding (1941-1967), do rythm and blues, e Stevie Wonder (1950), da soul music, torna-se violonista do jazzístico Bossa Trio em 1964, que funda com o irmão. O grupo, gradativamente inspirado pelos contornos estéticos e políticos da nascente black music brasileira, que tem à frente os cantores Elza Soares (1937-2022), Jorge Ben Jor (1942) e Wilson Simonal (1938-2000), transmuta-se na banda Os Diagonais na segunda metade dos anos 1960. Grava, nesta formação, o disco Os Diagonais (1969), como guitarrista. Dois anos depois, o segundo long-play do grupo, do qual já não é mais integrante, ainda traz diversas faixas de sua autoria.

A presença de Cassiano, e de Os Diagonais, também se revela importante para outro disco lançado à época, o primeiro LP de Tim Maia, de 1970, que ajuda a catapultar o cantor carioca à fama. Quatro das doze faixas são composições de Cassiano, incluindo os grandes sucessos de público “Primavera (Vai chuva)” e “Eu amo você”, compostas em parceria com Silvio Rochael. A primeira balada é lançada anteriormente, em 1969, no formato single, facilitando a Tim Maia a possibilidade de gravação de um disco próprio. Com Tim, compõe “Padre Cícero”, encomenda musical feita pela TV Globo para um projeto de telenovela inspirado no líder religioso cearense. Nessa canção, participa dos backing vocals, elemento estilístico que embala boa parte das canções da soul music a que se filia, assim como o sofisticado arranjo de cordas que o acompanha nos futuros discos individuais.

Em 1971, é lançado Imagem e som, seu disco de estreia. Apesar de conter sua versão de “Primavera (Vai chuva)” e se caracterizar como um potente misto criativo de samba, bossa, soul e funk, o álbum não alcança grande projeção de vendas, adquirindo status de ícone apenas décadas mais tarde. Com o segundo LP, Apresentamos nosso Cassiano, de 1973, produzido pelo guitarrista Pedro da Luz (1945-2013), o repertório amplia-se para o pop e o rock progressivo, com toques orquestrais. São dez faixas autorais, incluindo “Melissa”, inspirada por sua filha, e a bela “O vale”, que abre o álbum. Algumas canções vêm de parcerias com Renato Britto e Suzana Tostes, como “Cedo ou tarde”. Em 1975, dois singles aumentam significativamente a projeção pública do artista: “A lua e eu” e “Coleção”. Ambas tornam-se sucessos radiofônicos instantâneos, impulsionadas pela trilha das novelas O grito (1975-1976) e Locomotivas (1977), da TV Globo. Compostas com Paulo Zdanowski (1954), as duas passam a integrar o terceiro disco do artista, celebrado como o ponto alto de sua carreira, Cuban soul: 18 kilates (1976).

Em 1978, a gravadora CBS cancela, durante as gravações, o lançamento do quarto álbum do artista, alegando poucas perspectivas de retorno financeiro. Trata-se de um baque na trajetória de um músico que sempre se põe a resistir às interferências dos executivos para “embranquecer” seu soul, deixando-o supostamente mais “palatável” para a audiência das rádios. É de se salientar que o contexto em que Cassiano contribui para a formação de uma música declaradamente negra, e muitas vezes denunciadora do racismo, constitui o apogeu da ditadura militar (1964-1985)1 no Brasil, período em que lideranças dos movimentos negros e associadas ao movimento do Black Power (e a ícones do soul norte-americano) estão sob constante vigilância do aparato repressor do regime autoritário.

Nos anos 1980, lança apenas um single: a baixa na sua produção musical é reflexo da tuberculose que o acomete e, sintomaticamente, uma marca do declínio do soul entre seus pioneiros, agora dedicados a baladas românticas e comerciais. Seu último disco, Cedo ou tarde, de 1991, contém participações de artistas influenciados pelo cantor, entre os quais Sandra de Sá (1955), Cláudio Zoli (1964), Djavan (1949) e Marisa Monte (1967). Porém, em virtude do pouco espaço para a direção artística da obra, anos depois passa a criticá-la. Consta que compõe, sem lançar, canções até o fim da vida.

Central para a consolidação do soul na música popular brasileira (MPB), Cassiano é autor de obras incontornáveis do cancioneiro contemporâneo nacional. Músico arrojado e genial, insiste para se manter fiel às raízes culturais, lutando contra as manobras da indústria para embranquecê-lo.

Nota

1. Também denominada de ditadura civil-militar por parte da historiografia com o objetivo de enfatizar a participação e apoio de setores da sociedade civil, como o empresariado e parte da imprensa, no golpe de 1964 e no regime que se instaura até o ano de 1985.

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