Artigo da seção pessoas Capitão Furtado

Capitão Furtado

Artigo da seção pessoas
Música  
Data de nascimento deCapitão Furtado: 31-08-1907 Local de nascimento: (Brasil / São Paulo / Tietê) | Data de morte 10-11-1979 Local de morte: (Brasil / São Paulo / São Paulo)

Biografia

Ariovaldo Pires (Tietê, São Paulo, 1907 - São Paulo, São Paulo, 1979). Compositor, cantor. Aos 6 anos muda-se com a família para Botucatu, São Paulo. Nessa cidade, ainda criança, acompanha saraus de música regional. Em 1927, passa a viver na capital paulista, São Paulo. Dois anos depois, é o intérprete na negociação entre seu tio Cornélio Pires (1884-1958) e Wallace Downey (1902-1967), supervisor artístico da Columbia, e torna-se seu secretário. Em 1931, auxilia Downey a produzir o filme Coisas Nossas. Adota o pseudônimo Capitão Furtado no ano da Revolução Constitucionalista de 1932 e, com esse nome, assina esquetes e interpreta quadros caipiras na Rádio Cruzeiro do Sul e depois na Rádio São Paulo. Em 1933, cria Cascatinha do Gennaro, programa com personagens caipiras como Nhá Zefa.

Sua marcha Mulatinha da Caserna, em parceria com Martinez Grau, é gravada em 1936 por Arnaldo Pescuma e Januário de Oliveira e, no mesmo ano, vence o 1º Concurso de Músicas Carnavalescas da Prefeitura de São Paulo. Vai para o Rio de Janeiro e, com Alvarenga e Ranchinho, em 1936 estreia A Trinca do Bom Humor na Rádio Tupi e participa na gravadora Odeon da primeira gravação da dupla, a moda de viola Itália e Abissínia. Ainda na Tupi, cria Repouso, programa em que recebe convidados e conta causos e anedotas. Em 1939, apresenta por quatro meses Poemas Sertanejos na Rádio Nacional, retorna a São Paulo e, na Rádio Difusora, cria Arraial da Curva Torta. Nesse programa, lança a dupla caipira Tonico e Tinoco, a cantora Hebe Camargo, em dupla com a irmã Estrela (Rosalinda e Florisbela), e os acordeonistas Mário Zan e Orlando Silveira. Dirige a Rádio Excelsior de Salvador, em 1949. Nesse período, em parceria com Jerônimo Cabral, compõe a valsa E o Vento Levou... (1940), interpretada por Orlando Silva, as toadas Destinos Iguais (1947, em parceria com Laureano), e Pinho Sofredor (1951, com Fego Camargo), a moda Sertão do Laranjinha (1945), com Tonico e Tinoco, e cria inúmeras versões de canções estrangeiras, como o fox Jambalaya (1953), gravado por Marlene (1922-2014).

Na década de 1950, supervisiona os programas sertanejos patrocinados pela indústria Alpargatas e viaja pelo Brasil, revelando nomes de vários violeiros no programa A Roda dos Violeiros. Sua marcha Brasília, Capital da Esperança, em parceria com o maestro italiano Enrico Simonetti, executada na solenidade de inauguração da nova capital federal, torna-se o hino "oficioso" da cidade. Trabalha na Rádio Bandeirantes entre 1963 e 1966, quando se aposenta, mas ainda mantém atividade como versionista e coordenador de música da Editora Fermata. Como pesquisador, coordena, entre 1975 e 1977, a seção de música sertaneja da primeira edição da Enciclopédia da Música Brasileira.

Análise

A obra de Capitão Furtado soma mais de mil canções, das quais cerca de 350 estão gravadas em discos 78 rpm, LPs e CDs. Trata-se de um dos compositores mais gravados e significantes da história da música popular brasileira, mesmo sem levar em conta sua atuação nas emissoras de rádio, que deixam poucos registros de programas, normalmente realizados ao vivo. O traço mais marcante de sua produção são as músicas e histórias sobre a vida do caipira paulista, que revelam a simplicidade do homem do interior de maneira bem-humorada. No cateretê Moda dos Meses, de 1937, Alvarenga e Ranchinho sugerem, de maneira pouco sutil, que o ouvinte não se case nos "primeiros" 11 meses do ano e avisam: "Quem chegou inté dezembro / vivendo sempre sortero / Num vai istragá no fim / a sorte de um ano inteiro". Na moda Num Tenho Medo de Homem, 1940, Nhá Zefa relembra um história contada por sua avó em que afirma: "Os homi são convencido / Só por ter barba e bigode / Também gato é bigodudo / E barba quem usa é bode". Mas Capitão Furtado não se limita à música regional paulista. Ele conhece a fundo a música interiorana de Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, produz versões de músicas e canções em voga, cria sambas-canção e valsas, escreve livros sobre o caipira paulista e esquetes para a rádio. Gilberto Alves, por exemplo, grava Linda Flor que Morreu, de autoria de Capitão Furtado e Jota Soares (1940), em que um amor não correspondido é cantado de forma lânguida e lenta: "Eu quisera viver feliz / Só viver da saudade / Sim, da sublime ilusão / Que é igual / A uma flor que nasceu / Porém logo após feneceu / Tal qual minha felicidade / Tu és o sonho fugaz que passou / Linda flor que morreu / E o vento levou". As Irmãs Divino gravam a saudade da terra No Coração de Goiás (1960, em parceria com Julião): "Quanta saudade me veio laçando boi marruá / Tem animado rodeio no coração de Goiás / Ai, ai, ai, ai, / Tem animado rodeio no coração de Goiás!".

Quando o pseudônimo Capitão Furtado torna-se conhecido do ouvinte, alguns programas de inspiração regional já fazem parte da grade de programação das emissoras de rádio. Seu tio Cornélio Pires, que financia com recursos próprios as primeiras gravações de moda de viola na Columbia, está no ar em 1929 apresentando imitações de aves e uma turma de "caipiras legítimos" na Rádio Educadora Paulista. Pires, Genésio Arruda ou Nhô Totico são fontes de inspiração de Furtado e de outras emissoras para a criação de programas bem-humorados, com modas e toadas singelas e reconstituições de festas e danças que procuram retratar a vida do homem do interior paulista, como revela o LP Arraial da Curva Torta, lançado em 1958 pela Continental. Nele, apresenta uma cena intitulada Festança no Arraiá, seguido por cururus, cateretês, valsas, poemas, todos interpretados por artistas que fazem parte do programa da Rádio Difusora, anos antes, como Tonico e Tinoco, Irmãs Castro, Duo Guarujá, Serrinha e Rielinho ou Vieira e Vieirinha.

Diferentemente de Pires, no entanto, a permanência de Capitão Furtado em diversas emissoras de rádio no decorrer de boa parte do século XX permite que ele siga arregimentando e lançando artistas e reservando espaço à música do interior em um cenário cada vez mais influenciado pela música estrangeira. Além disso, se seu tio é sempre lembrado como pioneiro na gravação de modas de viola, Capitão Furtado é pouco notado como um dos principais divulgadores da música caipira. A importância da sua obra de preservação da música do interior paulista aparece em poucos momentos, como a homenagem de Roberto Corrêa (1957), João Lyra e Adelmo Arcoverde no LP Marvada Viola, lançado, em 1987, pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), com participação de Sivuca, Rolando Boldrin (1936), Zé Mulato e Cassiano. No CD, Assis Ângelo apresenta inéditos de Capitão Furtado e Téo Azevedo.

Outras informações de Capitão Furtado:

  • Outros nomes
    • Ariovaldo Pires
  • Habilidades
    • Compositor
    • Cantor/Intérprete
  • Relações de Capitão Furtado com outros artigos da enciclopédia:

Fontes de pesquisa (6)

  • ARRAIÁ da curva torta. Continental, 1958.
  • ASSIS Ângelo apresenta inéditos de Capitão Furtado e Téo Azevedo. 2009.
  • MARVADA Viola. Projeto Almirante. Funarte, 1987.
  • FERRETE, J. L. Capitão Furtado. Viola caipira ou sertaneja. Rio de Janeiro: Funarte/Instituto Nacional de Música/Divisão de Música Popular, 1985.
  • RÁDIO CULTURA. Programa Música Regional Brasileira. Disponível em http://www.culturabrasil.com.br/generos/regional/capitao-furtado. Acesso em 25.mar.2011.
  • NEPOMUCENO, Rosa. Música caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: Editora 34, 2005.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • CAPITÃO Furtado. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2021. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12167/capitao-furtado>. Acesso em: 17 de Mai. 2021. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7