Ordenação

Tipo de Verbete

Filtros

Áreas de Expressão
Artes Visuais
Cinema
Dança
Literatura
Música
Teatro

Período

A Enciclopédia é o projeto mais antigo do Itaú Cultural. Ela nasce como um banco de dados sobre pintura brasileira, em 1987, e vem sendo construída por muitas mãos.

Se você deseja contribuir com sugestões ou tem dúvidas sobre a Enciclopédia, escreva para nós.

Caso tenha alguma dúvida, sugerimos que você dê uma olhada nas nossas Perguntas Frequentes, onde esclarecemos alguns questionamentos sobre nossa plataforma.

Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Leci Brandão

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 03.06.2022
12.09.1944 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Leci Brandão da Silva (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1944). Cantora, compositora e percussionista. Importante referência do samba, tem a carreira marcada pelo sucesso de público e de crítica e pelo engajamento na luta por liberdade e direitos. 

Texto

Abrir módulo

Leci Brandão da Silva (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1944). Cantora, compositora e percussionista. Importante referência do samba, tem a carreira marcada pelo sucesso de público e de crítica e pelo engajamento na luta por liberdade e direitos. 

Nascida no bairro carioca de Madureira e criada em Vila Isabel, encontra suas primeiras influências musicais ao escutar sambas e choros no rádio. Autodidata, na juventude aprende a tocar instrumentos de ritmo, como pandeiro e surdo. Aos 21 anos, compõe a primeira canção, “Tema do amor de você”, e em 1968 vence o programa A grande chance, de Flávio Cavalcanti (1923-1986). No começo da década de 1970, forma-se em Direito pela Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro. 

Em 1972, torna-se a primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. No ano seguinte, apresenta “Quero sim”, parceria com Darcy da Mangueira (1932-2008), no Encontro Nacional de Compositores de Samba. Chega à final do festival Abertura (1973), da Rede Globo, com “Antes que eu volte a ser nada”. A canção autoral dá nome ao primeiro LP da cantor e chama a atenção do jornalista Sérgio Cabral (1937).

Além de ser uma das primeiras intérpretes femininas a compor samba, gênero musical dominado por homens na época, o ineditismo da artista também se manifesta no teor de suas composições, marcadas pela defesa do protagonismo da mulher. O posicionamento fica evidente na faixa “Ser mulher”, em versos como “Ser mulher é muito mais que batom ou bom perfume”. Parte de Questão de gosto (1976), primeiro LP da cantora com a gravadora Philips, o disco traz outras canções pioneiras na defesa da diversidade política, racial e sexual, entre sambas autorais, parceria com Martinho da Vila (1938) em “Mulatinho” e regravação do samba-enredo “Casa Grande e senzala”, defendido pela Estação Primeira Mangueira no Carnaval de 1962. A letra, inspirada na obra do antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987), faz críticas ao regime escravocrata brasileiro. 

Em 1977, lança Coisas do meu pessoal, cujas composições contestam os valores e costumes da época. A canção “Ombro amigo”, que tematiza a liberdade de expressão sexual, é incluída na trilha sonora da novela Espelho mágico da Rede Globo. Em 1978, grava Metades, com composições suas, de Ivan Lins (1945) e Sandra de Sá (1955). Em 1980, lança o último álbum pela Philips, Essa tal criatura, cuja música que dá título ao disco se classifica como finalista do Festival MPB 80, promovido pela Rede Globo. O disco ainda inclui canções como “Não cala o cantor”, que discute o regime militar e critica a exclusão social dos analfabetos.

Pela postura contestatória, depois de cinco discos lançados pela Philips, rescinde o contrato com a gravadora por questões ideológicas e passa cinco anos sem lançar um álbum. Nesse período, prossegue a carreira apenas em shows no Brasil e no exterior. Retoma os lançamentos fonográficos em 1985, quando assina com a Copacabana Discos. 

Por esse selo, lança Leci Brandão (1985), maior sucesso da carreira. O LP tem grande repercussão no país, sobretudo pelo sucesso do samba “Zé do Caroço”, baseado na história verídica de um personagem do morro. O disco traz composições autorais que se tornam conhecidas nacionalmente, como “Isso é Fundo de Quintal” – homenagem ao grupo formado no Cacique de Ramos, no Rio de Janeiro – e segue a linha de defesa de direitos civis e diversidade com canções como “Assumindo”. 

O disco Dignidade (1987) introduz um traço que se torna predominante a partir de então: sambas de andamento acelerado e partidos-altos, estilo consagrado por nomes como Beth Carvalho (1946-2019) e Zeca Pagodinho (1959), como a faixa “Eu só quero te namorar”. A partir dessa década, inclui em seu repertório canções que enfatizam as raízes brasileiras. Ainda nos anos de 1980, lança  os álbuns Um beijo no seu coração (1988) e As coisas que mamãe me ensinou (1989). 

De 1986 a 1994, atua como comentarista dos desfiles das escolas de samba nas transmissões televisivas, função que retoma em 2002. Em 1990, conquista o prêmio Sharp pelo álbum Cidadã brasileira – Leci Brandão da Silva.  A artista mantém a abordagem crítica ao longo de toda a carreira, com atuações também políticas, integrando, em 2004, o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, cargo que exerce por quatro anos.

Em 2005, com músicas bem-recebidas por público e crítica, a sambista comemora 25 anos de carreira e grava seu primeiro disco ao vivo. Em 2007, lança o DVD Canções afirmativas, com uma parceira com o rapper Mano Brown (1970), do Racionais MCs, na contundente faixa “Deixa, deixa”, que conta com versos como “Deixa ele votar / É melhor / Do que ele sacar de uma arma / Pra nos matar”. 

Em 2011, a gravadora EMI lança a coletânea O canto livre de Leci Brandão. O disco Cidadã da diversidade - Ao vivo (2013) dá continuidade à produção fortemente engajada da artista. Em 2016, realiza Simples assim (2016), álbum composto por regravações de antigos sucessos e faixas inéditas. 

Em 2010, filia-se ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB), pelo qual é eleita deputada estadual de São Paulo. É reeleita nas eleições de 2014 e 2018. Como parlamentar, atua sobretudo na defesa da cultura popular e em temas como igualdade racial e valorização das tradições de matriz africana. 

Com estilo consistente e canções contestadoras, Leci Brandão quebra paradigmas relacionados à participação da mulher no samba e celebra a variedade da cultura nacional.

Nota

1. LECI BRANDÃO. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, São Paulo. Disponível em: https://www.al.sp.gov.br/deputado/?matricula=300513. Acesso em: 15 jul. 2021.

Fontes de pesquisa 4

Abrir módulo
  • CABRAL, Sérgio. Elizeth Cardoso: uma vida. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, [s.d.].
  • FAUSTINO, Oswaldo. Nei Lopes: retratos do Brasil negro. São Paulo: Selo Negro Edições, 2009.
  • SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 2: 1958-1985). São Paulo: Editora 34, 1998. (Coleção Ouvido Musical).
  • VIANA, Luiz Fernando. Zeca Pagodinho: a vida que se deixa levar. Rio de Janeiro: Rio Arte: Relume-Dumará, 2003. (Perfis do Rio).

Como citar

Abrir módulo

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo: