Artigo da seção pessoas Grande Otelo

Grande Otelo

Artigo da seção pessoas
Teatro / música  
Data de nascimento deGrande Otelo: 18-10-1915 Local de nascimento: (Brasil / Minas Gerais / Uberlândia) | Data de morte 26-11-1993 Local de morte: (França / Ile de France / Paris)

Biografia

Sebastião Bernardes de Souza Prata, "Grande Otelo" (Uberlândia MG 1915 - Paris, França, 1993). Compositor, cantor, ator, comediante e poeta. Ainda criança, canta e declama poemas nas ruas e participa de números no circo. É adotado por Isabel Gonçalves, mãe de Abigail Parecis, da Companhia de Comédia e Variedades Sarah Bernhardt, que o leva para São Paulo, onde estuda no Liceu Coração de Jesus. Em 1926, ingressa na Companhia Negra de Revistas, viajando para o Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo. Retorna ao palco em 1935, no Rio de Janeiro, com a companhia Tro-Lo-Ló, de Jardel Jércolis, que muda seu nome artístico para Grande Otelo. Atua na revista Maravilhosa, em 1936, no Teatro Carlos Gomes, na qual interpreta No Tabuleiro da Baiana, de Ary Barroso, com Déo Maia. Integra o elenco do Cassino da Urca desde 1939 até seu fechamento, em 1946, contracenando com atrizes como Josephine Baker, no quadro Casamento de Preto, em que cantam os sambas Boneca de Piche, de Ary Barroso, e Bruxinha de Pano, de Vicente Paiva e Luís Peixoto.

Faz a carreira no teatro de revista, rádio, cinema e televisão. Como compositor, dedica-se principalmente ao samba. Compõe Vou pra Orgia, em 1940, gravada por Nuno Roland, e também lança seu primeiro disco como cantor, com a marcha Maria Bonita, de Odaurico Motta. Compõe, em parceria com Herivelto Martins, Praça Onze, que empata com o samba Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago) no concurso carnavalesco do Flamengo, em 1942. Com o mesmo parceiro faz Pixaim (1943); Bom Dia Avenida, Mangueira, Não! (1944); Fala Claudionor (1946) e Vida Vazia (1954). Com Haroldo Lobo cria Bate o Sino Juvenal (1946); com Alvarenga, a marcha Abaixo o Chope (1943); e com Blecaute, Batuque de Salvador (1954). Em 1945, grava seu samba Botafogo e faz várias tentativas de emplacar marchinhas nos carnavais.

Muitas de suas composições fazem parte de trilhas dos filmes dos quais participa, gravadas por intérpretes como Linda Batista, Dircinha Batista, Trio de Ouro, Chico Alves e Jorge Goulart. O samba Rainha da Gafieira, em parceria com Dílson Noronha, faz parte da trilha da novela Bandeira 2, na voz da cantora e atriz Jacira Silva. Trabalha no filme Rio, 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, em 1955. Participa do filme Crônica da Cidade Amada, 1966, de Carlos Hugo Christensen, para o qual compõe a música homônima, cantada por Taiguara, e atua no episódio Um Pobre Morreu. Recebe em 1969 o Prêmio Molière por sua interpretação em Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Em 1978, grava um compacto duplo com a cantora Claudia Savaget, com duas parcerias, Por Mim Rosa (com Herivelto Martins) e Chora Trombone (com Ari Cordovil).

Em 1985, grava A Noiva do Condutor, opereta de Noel Rosa escrita em 1935, com a atriz Marília Pêra e o Conjunto Coisas Nossas. Deixa duas composições inéditas, os sambas Ela Mora em Madureira e Saudades do Elite (s.d.). Em 2011, o liceu em que estuda na infância inaugura o Teatro Grande Otelo.

 

Comentário Crítico

Consagrado como ator, Grande Otelo (Sebastião Bernardes de Souza Prata) possui forte ligação com a música, geralmente como intérprete em filmes musicais e no teatro de revista. Lembrado pelo humor sagaz e ligeiro, mostra-se hábil na improvisação de suas interpretações, trabalhando a expressão corporal, as vozes e os trejeitos, como na paródia Romeu e Julieta do filme Carnaval de Fogo, de 1949. Desde criança demonstra talento para cantar músicas em diferentes línguas e gêneros, abandonando as opções disponíveis na época para um menino negro do interior de Minas Gerais para ser artista. Somada a essa vontade própria, concorre um cenário relativamente favorável: nas capitais, apesar de continuar havendo discriminação, a população negra constrói novas esferas de sociabilidade, entre as quais os ranchos e as escolas de samba.

Com a fundação dos estúdios da Atlântida, em 1941, a produção cinematográfica nacional é incrementada, com destaque para as chanchadas, que caem no gosto popular. Assim, o cinema passa a representar uma opção de trabalho para os atores, o que é bastante aproveitado por Grande Otelo: na década de 1930, atua em quatro filmes; nos anos 1940, em 21; e nos anos 1950, em outros 23.

Grava um disco humorístico em 1946, com a cançoneta Avec Vous Madame!, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva; uma versão gaiata para o tango argentino Mano a Mano, de Carlos Gardel e Razzano; e a marcha Abaixo o Chope (1943), parceria com o humorista e compositor Alvarenga, da dupla com Ranchinho. Esta, inclusive, é uma sátira aos países integrantes do Eixo: "Abaixo o chope e o talharim / (...) / Com dois pauzinhos não se come nada / De garfo e faca a gente come uma peixada". Suas composições, em geral, apontam uma preferência pelo samba. Poucas são as marchas ou as canções de outros gêneros criadas por Grande Otelo. Como temas recorrentes estão as relações amorosas - Os Direitos São Iguais (1944) e Vitória Amarga (1942), ambas interpretadas por Linda Batista -, a vida boêmia e o samba. Este aparece muitas vezes em tom de protesto, lamentando a perda de seus espaços tradicionais. É o caso de seu samba mais famoso, Praça Onze, ponto de encontro de diversas agremiações carnavalescas: "Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai". Sobre esse samba cumpre notar que a letra, concebida por Grande Otelo, é totalmente reestruturada por Herivelto Martins para conferir mais musicalidade, após outros compositores terem recusado a parceria - inclusive ele próprio.

A percepção da perda de um patrimônio do samba está presente também em Bom Dia, Avenida: "Lá vem a nova avenida / Remodelando a cidade / Rompendo prédios e ruas / Os nossos patrimônios da saudade / É o progresso! / E o progresso é natural /  Lá vem a nova avenida / Dizer à sua rival: / Bom dia, Avenida Central! / A União das Escolas de Samba / Respeitosamente faz o seu apelo / Três e duzentos de selo / Requereu e quer saber / Se quem viu a Praça Onze acabar / Tem direito à Avenida / Em primeiro lugar / Nem que seja depois de inaugurar". Em Carnaval com Quem, de 1959, nota-se também certa nostalgia: "Tempo bom / que não volta mais / Saudades de outros carnavais".

Grande Otelo é gravado por importantes intérpretes da época, como Ângela Maria - que interpreta uma música sua inserida no enredo da novela Bandeira 2, da qual Otelo participa no papel de um pobre compositor (que se torna famoso depois de Ângela Maria o gravar) -, Francisco Alves, Trio de Ouro (grupo do parceiro Herivelto Martins) e Aracy de Almeida.

Outras informações de Grande Otelo:

  • Outros nomes
    • Grande Othelo
    • Sebastião Bernardes de Sousa Prata
    • Sebastião Bernardes de Souza Prata
  • Habilidades
    • Cantor/Intérprete
    • Compositor
    • Ator

Espetáculos (102)

Todos os espetáculos

Fontes de pesquisa (12)

  • CABRAL, Sérgio. Grande Otelo: uma Biografia. São Paulo: Editora 34, 2007.
  • ANTUNES, Delson. Fora do sério - Um panorama do teatro de revista no Brasil. Rio de Janeiro: Funarte, 2004.
  • CABRAL, Sérgio. Grande Otelo. Uma Biografia. São Paulo: Ed. 34, 2007.
  • CARVALHO, Tania. Ney Latorraca: uma celebração. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004. 135 p. (Aplauso Especial). 792.092 L358c
  • Disponível em:[http://jbonline.terra.com.br/jseculo/1993b.html]. Acesso em 27/07/04.
    Não catalogada
  • Disponível em:[http://www.terra.com.br/istoe/biblioteca/brasileiro/artes_cenicas/cenicas3.htm]. Acesso em 27/07/04. Não catalogada
  • DOURADO, Ana Karicia. Fazer Rir, Fazer Chorar: A arte de Grande Otelo. (2005) Dissertação (Mestrado em História Social). São Paulo: USP, 2005.
  • GRANDE OTELO. Site Oficial do Artista. Disponível em: [http://www.ctac.gov.br/otelo/index.asp]. Acesso em: jan. 2009.
  • MORAES, Vinicius de. Introdução à crítica de Moleque Tião. O Amanhã, Rio de Janeiro, 14 de set. 1943.
  • MOURA, Roberto. Grande Othelo. Um artista genial. Rio de Janeiro: Relume-Dumará : Prefeitura, 1996.
  • SANTOS, Tadeu Pereira dos. Grande Otelo/Sebastião Prata: Caminhos e Desafios da Memória. (2009) Dissertação (Mestrado em História). Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, 2009.
  • VENEZIANO, Neyde. Teatro de revista. In: O TEATRO através da história: o teatro brasileiro. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil: Entourage Produções Artísticas, 1992. v. 2.

Como citar?

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa utilize o modelo abaixo:

  • GRANDE Otelo. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa12087/grande-otelo>. Acesso em: 16 de Set. 2019. Verbete da Enciclopédia.
    ISBN: 978-85-7979-060-7