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Enciclopédia Itaú Cultural
Música

Wilson Batista

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2022
03.07.1913
07.07.1968 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Wilson Baptista de Oliveira (Campo dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1913 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1968). Compositor, cantor. Tendo o samba como seu principal gênero e meio de expressão, suas composições versam sobre a cidade do Rio de Janeiro e seus personagens.

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Wilson Baptista de Oliveira (Campo dos Goytacazes, Rio de Janeiro, 1913 – Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1968). Compositor, cantor. Tendo o samba como seu principal gênero e meio de expressão, suas composições versam sobre a cidade do Rio de Janeiro e seus personagens.

Em sua infância, acompanha os desfiles carnavalescos organizados pela avó em sua cidade natal e toca triângulo na orquestra Lira Apolo, dirigida por seu tio. Aos 16 anos, muda-se para a capital fluminense com o desejo de se tornar sapateador no teatro de revistas. Apesar de não ter completado a educação formal, escreve canções com facilidade, habilidade que lhe garante sua principal fonte de rendimento no período em que a implantação da radiodifusão comercial e a consolidação da indústria fonográfica abrem um promissor mercado de trabalho para compositores.

No início dos anos 1930, integra a Orquestra de Romeu Malagueta como cantor e ritmista. Na mesma época, suas músicas começam a ser executadas no rádio e registradas em disco. Obtém seu primeiro êxito com o samba “Desacato”, de 1933, na voz de Murilo Caldas (1905-1999) – coautor com Paulo Vieira –, Castro Barbosa (1905-1975) e Francisco Alves (1898-1952). “Desacato” traz dois dos aspectos que atravessam sua obra: a narrativa do cotidiano e a representação de uma personagem feminina – no caso, uma mulher insubmissa, que prefere sair para se divertir a manter o recato esperado de uma dona de casa.

No mesmo ano, o samba “Lenço no Pescoço”, parceria com Ataulfo Alves (1909-1969), é lançado por Sílvio Caldas (1908-1998). Elogio à figura do malandro, no momento que há um esforço para disciplinar o samba, a canção é vetada pela Confederação Brasileira de Radiodifusão. Em resposta a essa canção, o compositor Noel Rosa (1910-1937) escreve “Rapaz Folgado”. Wilson aproveita a suposta rusga entre os dois para dialogar com o Poeta da Vila e se destacar no meio artístico. Compõe em parceria com Noel outros sambas, incluindo “Deixa de ser convencida” (1935), que não chega a ser gravada na época. Essa aproximação demonstra certa visão estratégica de Wilson na condução de sua carreira. 

Isso fica mais claro em sua produção do final da década de 1930, que passa a incluir a figura do malandro “regenerado”, ajustando-se ao tipo de discurso incentivado e premiado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). É o caso do operário do “Bonde São Januário”, de 1940, outra parceria com Ataulfo Alves, que afirma ter deixado a boêmia e viver bem. Por outro lado, o primeiro desejo anunciado pelo protagonista de “Acertei no Milhar” (1940, parceria com Geraldo Pereira) ao ganhar na loteria é abandonar o trabalho, colocando, assim, um limite a uma possível conversão do malandro.

Após um período em turnê por Buenos Aires como cantor na dupla Verde e Amarelo, com Erasmo Silva (1911-1985), e atuando em emissoras de São Paulo e no Sul do país, Wilson se fixa no Rio de Janeiro, cenário de muitas de suas canções. Entre o fim dos anos 1930 e os anos 1940 está sua fase mais prolífica – embora seja difícil dimensionar sua obra, posto que a venda de composições e parcerias é bastante recorrente. Observador atento, suas composições se assemelham a crônicas que narram ora em tom de tragédia, ora com lirismo e humor cenas do cotidiano carioca, de onde emergem o futebol, o bonde, os bairros, os cabarés, os operários, as prostitutas e os valentes.

Partindo de uma ideia central, o compositor constrói melodias intuitivamente, tendo como único instrumento a caixa de fósforos, com a qual faz a marcação rítmica. Cenas do cotidiano, muitas vezes estampadas em páginas da imprensa sensacionalista, são inspirações para criar seus personagens. Retoma também motes de sucesso em composições suas e nas de outros autores, conferindo a elas novas versões.

Exemplo disso é o tocador de cuíca Laurindo, cuja primeira aparição se dá no samba “Triste Cuíca” (1935), de Noel Rosa e Hervé Cordovil (1914-1979). Espécie de alter ego de Wilson, o personagem ressurge em “Lá vem Mangueira” (1943), “Comício em Mangueira” (1945) e “Cabo Laurindo” (1945). São frequentes também a retomada de narrativas sob o ponto de vista de outro personagem, levando o texto da canção para a fronteira entre a crônica e a dramaturgia, como em “Mulher de Seu Oscar” (1940), sequência de “Ó Seu Oscar!” (1939), ambas parcerias com Ataulfo Alves. O compositor se destaca também pela habilidade de se apropriar de gírias e expressões e popularizá-las, como “balzaquiana”, enunciada na marcha homônima, composta em parceria com Nássara (1910-1996) para o Carnaval de 1950.

Apesar da intensa produção, a progressiva restrição do Carnaval à esfera das escolas de samba e as mudanças no cenário da música popular brasileira conduzem Wilson a um período de ostracismo a partir dos anos 1950. Em 1951, participa da série No Tempo de Noel Rosa, apresentada por Almirante (1908-1980) na Rádio Tupi – um dos raros registros de sua voz. Se, por um lado, esse evento o traz de novo à cena artística, por outro, contribui para que sua obra permaneça por muito tempo à sombra do duelo com Noel. Oculta, inclusive, sua atuação em defesa dos direitos dos compositores, da qual ele é um importante agente na década de 1950.

Inserido em um circuito comercial e preocupado com sua atuação como compositor profissional, Wilson Batista não deixa de fazer um registro sensível sobre a cidade e seus habitantes, em sua multiplicidade. Seus sambas podem ser escutados como crônicas musicais que, por meio de personagens fictícios, tocam diversas dimensões da vida cotidiana real.

Obras 1

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Fontes de pesquisa 7

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  • ACUIO, Joana Lopes. Jeitos de tirar samba: Wilson Batista e a poética urbana. 2012. 139 f. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012.
  • BATISTA, Wilson. Wilson Baptista: cancioneiro comentado. Idealização, pesquisa, seleção de repertório e perfil biográfico de Rodrigo Alzuguir. São Paulo: Irmãos Vitale, 2013.
  • CERQUEIRA, Filipe Santos Baqueiro. Entre a navalha no bolso e o feitiço decente: uma análise sobre a representação da vadiagem em Wilson Batista e Noel Rosa. 2020. 131 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2020.
  • FENERICK, José Adriano. Nem do morro nem da cidade: as transformações do samba e a indústria cultural (1920-1945). São Paulo: Fapesp; Annablume, 2005.
  • MATOS, Claudia Neiva de. Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. (Coleção Literatura e Teoria Literária, 46).
  • NAPOLITANO, Marcos. A síncope das ideias: a questão da tradição na música popular. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2007.
  • VALENTE JUNIOR, Valdemar. Noel Rosa, Wilson Batista, Geraldo Pereira: o samba como narrativa da modernidade. Lumen et Virtus, São Paulo, v. 9, pp. 115-130, 2018.

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