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Música

Waldemar Henrique

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.05.2019
15.02.1905 Brasil / Pará / Belém
28.03.1995 Brasil / Pará / Belém
Waldemar Henrique da Costa Pereira (Belém PA 1905 - idem 1995). Compositor e pianista. O pai é de origem portuguesa e a mãe, descendente de índios, que morre quando ele ainda é criança. Por esse motivo, muda-se para a cidade do Porto, Portugal, com 6 anos, onde estuda e passa a infância. Retorna ao Pará em 1917 e, no ano seguinte, contra a vonta...

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Biografia

Waldemar Henrique da Costa Pereira (Belém PA 1905 - idem 1995). Compositor e pianista. O pai é de origem portuguesa e a mãe, descendente de índios, que morre quando ele ainda é criança. Por esse motivo, muda-se para a cidade do Porto, Portugal, com 6 anos, onde estuda e passa a infância. Retorna ao Pará em 1917 e, no ano seguinte, contra a vontade do pai, inicia os estudos de solfejo e piano com a professora Nicota de Andrade. Mais tarde estuda violino, harmonia, composição e canto, e compõe suas primeiras canções, Minha Terra, de 1923 - gravada em 1935 por Jorge Fernandes e sucesso em 1946 com a gravação de Francisco Alves -, e Felicidade, de 1924, para canto e piano, revelando seu interesse pela música popular. Nessa época, por insistência da família, trabalha num banco, mas deixa-o em 1929 para em seguida ingressar no Conservatório Carlos Gomes. Nessa escola tem como professores Filomena Brandão e Ettore Bosio (harmonia e composição) e Beatriz Simões (piano), aprofundando seus estudos musicais. No início da década de 1930 torna-se pianista e diretor artístico da Rádio Clube do Pará e escreve para companhias de teatro de revista em Belém.

No fim de 1933, muda-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de aprofundar os estudos e desenvolver a carreira artística e dialoga com a obra de Noel Rosa, Nássara, Silvio Caldas e Francisco Alves. Nessa década estuda composição, orquestração e regência com Arthur Bosmans e Lorenzo Fernandez. Continua a compor com traços evidentemente baseados em temas amazônicos, chamando atenção de vários intérpretes da época. Em 1934, Gastão Formenti registra pela gravadora Victor algumas das canções de Henrique, como as toadas amazônicas Cabocla Malvada e Foi Boto Sinhá!, a valsa Meu Último Luar e o batuque amazônico Tem Pena da Nega; e Alda Verona grava Meu Amor e Exaltação. Nesse mesmo ano fecha acordo com as editoras Irmãos Vitale e Vicente Mangione para editar suas composições.

O rápido sucesso de suas canções gravadas permite que ele amplie as atividades musicais, tocando nos principais cassinos, rádios e teatros do Rio de Janeiro. Na segunda metade da década de 1930 realiza várias excursões pelo Brasil acompanhado pela irmã cantora, Mara Costa Pereira (Mara Henrique Ferraz). Na temporada em São Paulo conhece, em 1935, Mário de Andrade, que simpatiza com sua obra, por ela tratar de temas da cultura tradicional. No fim da década é contratado como artista exclusivo da Rádio Tupi.

Nas décadas seguintes Henrique continua excursionando pelo país e vai para o exterior. Nos anos 1940 vai à Argentina e ao Uruguai, acompanhado pela irmã e outros intérpretes. Entre as diversas canções divulgadas no período, destacam-se pelo sucesso o registro de Minha Terra, por Francisco Alves, e Tamba-Tajá, gravada por Antonieta Fleury de Barros. Nessa época, participa da fundação da Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Editores de Música (Sbacem). Com o fim da guerra é comissionado como funcionário do Itamaraty para excursionar pela França, Espanha e Portugal, em 1949, com o objetivo de divulgar a música brasileira. Nessa condição viaja, entre 1953 a 1954, novamente pela Europa e por Paraguai, Uruguai e Argentina. Em 1956 grava seu primeiro LP, apenas com suas canções, interpretadas por Jorge Fernandes. Dois anos depois apresenta sua versão musical de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e é eleito para a Academia de Música do Rio de Janeiro.

Nos anos 1960 retorna à terra natal. Em 1965, é nomeado diretor do Departamento de Cultura da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Pará e assume a direção do Teatro da Paz, em Belém. Torna-se diretor do Conservatório Carlos Gomes. Afastado das atividades musicais, sua obra é relembrada com a regravação de Tamba-Tajá, por Fafá de Belém, em 1978. No mesmo ano tem sua biografia escrita por José Claver Filho - Waldemar Henrique: O Canto da Amazônia - e publicada pela Fundação Nacional de Arte (Funarte). Em 1981 é eleito para a Academia Brasileira de Música.

 

Comentário Crítico

A obra de Waldemar Henrique revela rico cruzamento de diversas experiências musicais e culturais. Em primeiro lugar é preciso considerar o interesse permanente e a forte influência da cultura e da música regional no conjunto de sua obra. Os gêneros e temas, ambientações e timbres amazônicos estão fortemente presentes em seus trabalhos, e esse regionalismo é razão do seu relativo sucesso a partir dos anos 1930. Nesse sentido, boa parte de suas composições trata da natureza da região, suas histórias e lendas. Por isso, muitas de suas canções se apoiam nos registros folclóricos, revelados nos títulos, como Foi o Boto Sinhá (1933) - o boto que à noite se transfigura em homem para seduzir as jovens -, Cobra Grande (1934) - uma vez por ano a cobra sai de seus domínios para escolher sua noiva entre as moças virgens -, Tamba-Tajá (1934) - oração à planta sagrada para evocar o amor de um índio a sua amada -, Matinta Perêra (1933) - pássaro com canto agourento que se transforma em bruxa às sextas-feiras -, Uirapuru (1934) - pássaro de belo canto que extasia e aproxima os amores -, e Curupira (1936) - o conhecido personagem brincalhão que protege animais dos caçadores.

Embora apresente essas explícitas referências aos gêneros regionais amazônicos, o compositor cria linhas melódicas próprias e não apenas reelaboração dos temas folclóricos. Essas melodias simples, e que respeitam os temas populares, estão de tal forma integradas ao imaginário regional que convencem o ouvinte de que são partes das mais antigas tradições folclóricas. Isso significa que sua formação musical erudita, que poderia sugerir as reelaborações com exageros e posturas grandiloquentes, em nenhum momento se sobrepõe às melodias simples, aos rítmicos regionais e ao imaginário das lendas. Dessa forma, geralmente elas não apresentam dificuldade de ordem técnica aos intérpretes e instrumentistas. Porém, ao mesmo tempo, é essa formação erudita que possibilita ao compositor construir variações harmônicas criativas que induzem a certo exotismo.

É preciso salientar também que todos esses elementos musicais colaboram para destacar o texto. Não se trata apenas da valorização da métrica clara, mas também da compreensão da mensagem e de seu contexto, geralmente relacionados aos exóticos temas populares que definem suas canções. Toda a estrutura musical parece que é pensada de forma a colaborar com o ouvinte para que ele compreenda a palavra e a mensagem. Esse fato é importante para entender a rápida aceitação de suas canções entre os intérpretes e sua adaptação imediata aos meios de comunicação eletrônicos no Rio de Janeiro dos anos 1930/1940.

Essa utilização de motivos sertanejos e folclóricos por músicos com formação culta acaba criando um tipo de compositor semierudito, que não se limita apenas à trajetória de Henrique. Além disso, essa relação de diálogo e respeito aos regionalismos e ao folclore faz parte do projeto nacionalista da época, que pretendia criar uma música artística nacional. Bem provavelmente por essa razão suas canções ganhem a simpatia de Mário de Andrade e o respeito de outros músicos eruditos. É também por essa postura nacionalista e pelo exotismo de sua música que ele é convidado a se integrar aos projetos do Itamaraty no pós-guerra, de valorização do país pela música nacional.

A obra de Waldemar Henrique, composta de aproximadamente 200 canções, também pode ser compreendida nos limites do processo de valorização regional efetuada pelos meios de comunicação no fim da primeira metade do século XX. Esse processo colabora para formar no imaginário nacional os diversos regionalismos que compõem a cultura do Brasil. Assim, ao lado das contribuições específicas de Luiz Gonzaga, Caymmi e Capiba, as canções de Waldemar Henrique representam a cultura amazônica do Norte.

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Fontes de pesquisa 7

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  • ALIVERTI, Márcia Jorge. Uma visão sobre a interpretação das canções amazônicas de Waldemar Henrique. Dissertação de Mestrado. São Paulo, Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, 2003.
  • BARROS, Maria de Fátima Estelita. Waldemar Henrique Folclore,Texto e Música num único projeto - a Canção. Dissertação de mestrado, Instituto de Artes, Unicamp, 2005.
  • BRITO, Maria Lenora Menezes de. Uma leitura da música de Waldemar Henrique. Belém, Conselho Estadual de Cultura, 1986 (Coleção "Cultura Paraense", série "Theodoro Braga").
  • FILHO, Claver. Waldemar Henrique - O Canto da Amazônia. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.
  • MARIZ, Vasco. A canção Brasileira: erudita, folclórica, popular. 3.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.
  • MIRANDA, Ronaldo. Waldemar Henrique - Compositor Brasileiro. Belém: Falangola, 1979.
  • PEREIRA, João Carlos. Encontro com Waldemar Henrique. Belém: Falangola, 1984.

Como citar

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