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Artes visuais

Francisco Mignone

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 29.05.2019
03.09.1897 Brasil / São Paulo / São Paulo
18.02.1986 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Francisco Paulo Mignone (São Paulo SP 1897 - Rio de Janeiro RJ 1986). Compositor, pianista, regente, professor, flautista. Inicia os estudos musicais com o pai, o imigrante italiano Alfério Mignone, professor de flauta do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP), músico de orquestra e regente. Com cerca de 10 anos, começa a estudar...

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Biografia

Francisco Paulo Mignone (São Paulo SP 1897 - Rio de Janeiro RJ 1986). Compositor, pianista, regente, professor, flautista. Inicia os estudos musicais com o pai, o imigrante italiano Alfério Mignone, professor de flauta do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP), músico de orquestra e regente. Com cerca de 10 anos, começa a estudar piano com Silvio Motto. Aos 13, passa a atuar como flautista e pianista condutor em orquestras de cinema. Também integra grupos de choro e compõe canções populares, assinando como Chico Bororó, pseudônimo que abandona após 1914.

Ingressa no CDMSP em 1912, e cinco anos mais tarde obtém os diplomas de flauta, piano e composição, tendo sido aluno de Savino de Benedictis (harmonia) e Agostino Cantu (harmonia, composição e contraponto). Ao longo do curso, exibe-se frequentemente como solista ao teclado. Em 1918, apresenta suas primeiras obras sinfônicas, cujo êxito lhe rende a bolsa de estudos com a qual parte em 1920 para a Europa, onde permanece por nove anos.

Em Milão, estuda compositor italiano Vincenzo Ferroni (1858 - 1934), ex-aluno do compositor francês Jules Massenet (1842 - 1912) no Conservatório de Paris, que o introduz nas técnicas composicionais francesas bem como na tradição operística italiana. Com orientação do mestre italiano, compõe a ópera em três atos O Contratador de Diamantes, 1921, cujo libreto, de Gerolamo Bottoni, inspira-se no drama homônimo de Afonso Arinos. Estreia no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1924, e é bem recebida pelo público e pela crítica, especialmente a cena que mostra uma congada. Isso o encoraja a escrever sua segunda ópera, L'Innocente, concluída em 1927 e apresentada no Brasil no ano seguinte. Entre 1927 e 1928, realiza andanças pela Espanha, cujas sonoridades lhe inspiram algumas composições, como Suíte Asturiana.

De volta a São Paulo, em 1929, torna-se professor do CDMSP e se aproxima das propostas nacionalistas do ex-colega de conservatório Mário de Andrade, de quem se torna grande amigo. Um ano depois, grava em solo de flauta suas peças Num Vorto a Pé, Cantiga de Ninar e Contratador de Diamantes. Em 1932, casa-se com Liddy, filha do professor de piano Luigi Chiaffarelli. No fim do ano, muda-se para o Rio de Janeiro, e passa a lecionar no Instituto Nacional de Música.¹ Ali desenvolve importante carreira docente, formando regentes e compositores que se destacam no meio musical brasileiro, como Roberto Duarte e Ricardo Tacuchian. Registra ao piano dois tangos brasileiros de Ernesto Nazareth, Duvidoso e Brejeiro, em 1939. Em 1951, assume a direção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, em 1965, integra a Academia Brasileira de Música, que preside entre 1980 e 1985.

Na década de 1950, escreve para cinema, compondo as trilhas de Caiçara, 1950, e Menina Moça, 1951, ambos de Alberto Cavalcanti. Em 1959, recebe o Prêmio Saci de melhor composição por Sob o Céu da Bahia, 1957, de Ernesto Remani.

Um ano após a morte de Liddy, casa-se, em 1963, com a pianista paraense Maria Josephina, com quem desenvolve frutífera parceria em recitais a quatro mãos, incluindo um duo pianístico sobre a obra de Ernesto Nazareth, lançado em 1978. Segue atuando como regente e pianista até pouco antes de sua morte, que ocorre em 1986.

Nota
1. Atual Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Comentário crítico

A obra de Francisco Mignone pode ser agrupada em duas fases, que têm como marco divisor seu retorno ao Brasil após nove anos na Europa. As composições de juventude refletem ainda o ambiente musical paulistano das primeiras décadas do século XX, marcado por forte influência italiana e pela estética romântica. Não por acaso, o jovem compositor tem na ópera seus primeiros trabalhos relevantes. Por outro lado, suas obras orquestrais já apontam o rico colorido instrumental que marcam suas composições, nas quais também se nota grande facilidade inventiva. Características provavelmente derivadas de sua precoce experiência como músico de orquestra, bem como de sua proximidade com a música popular urbana, que faz dele excelente melodista e improvisador.

Em algumas composições dessa fase já se notam, ainda que timidamente, certos elementos nacionalistas que marcam a etapa posterior. É o caso da famosa Congada, inserida no segundo ato do Contratador de Diamantes. Estreada no Brasil pela Orquestra Filarmônica de Viena em 1923 (antes da representação integral da ópera), sob a batuta de Richard Strauss, a peça se baseia no motivo de um lundu recolhido por Spix e Martius.¹ Trata-se, contudo, de uma passagem atípica, que não oculta o italianismo predominante nessa ópera e na seguinte, L'Inocente.

Ao regressar à terra natal, em 1929, o compositor se depara com um forte movimento nacionalista. No ano anterior, Mário de Andrade publicara o Ensaio sobre a Música Brasileira, em que preconiza a inspiração no folclore na construção da música de concerto brasileira. Apesar de reconhecer a técnica e o talento de Mignone, o musicólogo lamenta que o ex-colega não os utilize para a criação de uma obra com valor nacional. Sensível a esses apelos, Mignone escreve, em 1931, sua Primeira Fantasia Brasileira, para piano e orquestra, à qual se seguem mais três, todas explorando ritmos e desenhos melódicos característicos brasileiros. Para tanto, inspira-se em procedimentos rítmicos do compositor russo Igor Stravinski e do espanhol Manuel de Falla. Sobre essas influências, afirma que "ninguém é inteiramente pessoal", e que aproveitar os "elementos fecundos da criação alheia", mais do que imitar, é estudar e aprender.² Daí sua dedicação ao estudo de obras nacionalistas, não só do precursor Heitor Villa-Lobos, mas também de Camargo Guarnieri, discípulo de Mário de Andrade e dez anos mais jovem que Mignone.

O principal marco da transição para o nacionalismo é a composição do bailado Maracatu do Chico-Rei, em parceria com Mário de Andrade, de 1933, inspirado em episódios da construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, em Salvador. Nele, Mignone explora pela primeira vez o filão da música negra, que desenvolve nos poemas sinfônicos Batucajé, de 1936, e Babaloxá, de 1937, e no bailado Leilão, de 1939. Mas o ponto alto da fase nacionalista é a suíte orquestral Festas das Igrejas, também de 1939, em que descreve o ambiente festivo de quatro templos religiosos brasileiros. Com estreia no Brasil, sob a regência de Souza Lima, a peça é gravada em 1946 pela Filarmônica de Nova York, regida por Arturo Toscanini.

Nos anos 1950, Mignone abandona os critérios composicionais nacionalistas e emprega a técnica dodecafônica, retomando o sistema tonal na década de 1970.

Apesar do virtuosismo sinfônico e do reconhecimento que conquista nessa área, as contribuições mais duradouras de Mignone encontram-se na música vocal, para a qual compõe peças até hoje frequentemente executadas. Entre elas, destacam-se os ciclos de canções sobre poemas modernistas de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, bem como as peças baseadas em poemas e melodias folclóricas. No repertório dramático, escreve as óperas Chalaça, 1972, e O Sargento de Milícias, 1977, além dos bailados Quincas Berro d'Água, 1979, e O Caçador de Esmeraldas, 1980. Na obra pianística, destacam-se as Doze Valsas de Esquina, feitas entre 1938 e 1942, nas quais busca reproduzir a maneira de tocar dos chorões. Nelas vem à tona a verve brejeira que se pode notar nas composições populares do jovem Chico Bororó.


Notas
1. Os naturalistas alemães Johann Baptiste von Spix (1781 - 1826) e Carl Friedrich Philipp von Martius (1794 - 1868) vivem no Brasil entre 1817 e 1820, realizando pesquisas botânicas, zoológicas e mineralógicas. Também registram o cotidiano dos habitantes, narrando seus hábitos e práticas culturais e recolhendo melodias.

2. MIGNONE, Francisco. A parte do anjo. São Paulo: E. S. Mangione, 1947. p. 39-40.

Espetáculos 6

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Espetáculos de dança 1

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Exposições 3

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Fontes de pesquisa 4

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  • KIEFFER, Bruno. Francisco Mignone: vida e obra. Porto Alegre: Movimento, 1983.
  • MARIZ, Vasco (org.). Francisco Mignone - o homem e a obra. Rio de Janeiro: Funarte, Ed. da UFRJ, 1997.
  • MIGNONE, Francisco. A parte do anjo (autocrítica de um cinquentenário). Estudo, crítica e biografia por Luiz Heitor Correa de Azevedo, Mário de Andrade e Liddy Chiaffarelli. São Paulo: E. S. Mangione, 1947.
  • Mariz, Vasco. História da música no Brasil. 6.ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2005.

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