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Enciclopédia Itaú Cultural

Nélida Piñon

Por Editores da Enciclopédia Itaú Cultural
Última atualização: 12.04.2021
03.05.1937 Brasil / Rio de Janeiro / Rio de Janeiro
Nélida Cuíñas Piñon (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937). Romancista, contista, ensaísta. Ocupante da cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras, tem uma extensa e premiada obra que se destaca pela narrativa intrincada, tanto no que se refere ao aspecto formal da linguagem quanto à erudição das histórias e personagens retratadas. Trans...

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Nélida Cuíñas Piñon (Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1937). Romancista, contista, ensaísta. Ocupante da cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras, tem uma extensa e premiada obra que se destaca pela narrativa intrincada, tanto no que se refere ao aspecto formal da linguagem quanto à erudição das histórias e personagens retratadas. Transita entre diferentes gêneros literários e maneja com criatividade a sua presença como escritora no campo literário marcadamente masculino de sua geração.

Filha única de uma família de origem galega, passa a infância cercada pela literatura europeia e pela erudição da música clássica. Aos dez anos, muda-se temporariamente com os pais e avós para Cotobade, a aldeia espanhola de sua família, experiência que torna-se determinante para a confirmação do desejo em ser escritora. Forma-se em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mas exerce por pouco tempo o ofício e decide dedicar-se exclusivamente à literatura quando publica seu primeiro romance Guia-mapa de Gabriel Arcanjo (1961). A combinação das duas origens, brasileira e espanhola, bem como as fronteiras entre o arcaico e o erudito que marcam a sua formação, tornam-se elementos bases do fazer literário de Nélida, retratados nos mais de 25 livros publicados em cinco décadas de atuação.

Considerado um importante romance da literatura brasileira, A república dos sonhos (1984) ficcionaliza a relação entre Espanha e Brasil que permeia a verve literária de Nélida e se aproxima do gênero da autoficção. Obra robusta de mais de 700 páginas, narra a trajetória de uma família galega que, no início do século XX e representada por seu patriarca Madruga, migra para o Brasil em busca da promessa idealizada de um mundo novo. O arco temporal de quase sete décadas em que se desenrola a trama, narrada no período de sete dias, é composto por três vozes narrativas que, em alternância, contam os desdobramentos das relações pessoais inscritas por esse núcleo familiar na descoberta da nova nação que se formava. Os valores políticos e sociais da Espanha são confrontados com a realidade do Brasil em todas as complexidades das primeiras décadas da república, avançando pelas instabilidades históricas de meados do século XX, até chegar ao contexto da ditadura militar e do início de seu arrefecimento, mais precisamente o começo da década de 1980. A ambientação histórica é o cenário criado por Nélida para discorrer, em especial, sobre a inovadora presença feminina não estigmatizada no texto literário representadas pelas personagens Eulália, Odete e Breta. Para a professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Lucia Osana Zolin, “Nélida Piñon, num certo sentido, narra também, por meio das representações das mulheres que compõem a trama, a história da emancipação feminina.”1

Em 2005, é vencedora do Prêmio Jabuti com o romance Vozes do deserto (2004). Neste, apresenta uma versão incrementada da lendária história de Scherezade que, usando de inquestionável habilidade narrativa, safa-se da morte pelas mãos de um rei persa desejoso de vingança. A escolha de Nélida em seu livro é, partindo de uma deliberada proposta de reinvenção da tradição oriental contida na obra Mil e uma noites, adentrar os recônditos da subjetividade de Scherezade e, com isso, perceber também as sutilezas individuais do Califa que a mantém sob tutela. Com isso, apresenta ao leitor a profundidade do “império narrativo” da protagonista que consegue seduzir o soberano com suas histórias e, mais do que isso, ressignificar as estruturas de violência impostas às mulheres naquele contexto. O professor Carlos Magno Gomes, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), analisa o livro sob um ponto de vista da teoria feminista e reflete que o movimento feito por Nélida ao criar uma voz narrativa que confere fluidez às individualidades de Scherezade e do Califa, além das outras personagens que permeiam a trama como as irmãs Dinazarda e Jasmine, evidencia que o romance é “atravessado pelas peculiaridades pós-modernas ao fazer referência a um constante processo metaficcional que ressalta o deslocamento dessas personagens.”2

A presença feminina marcante nos livros de Nélida reflete a importância e o vanguardismo de sua própria presença no meio literário. Entre 1996 e 1997, consagra-se como a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras na celebração dos cem anos da instituição. Em 2005, recebe o Prêmio Príncipe de Astúrias – Letras, sendo a primeira pessoa a produzir literatura em língua portuguesa agraciada com a honraria. A habilidade em produzir obras literárias de ficção também é encontrada em seus livros memorialísticos e ensaísticos, nos quais a voz da autora aparece em primeira pessoa e apresenta as suas experiências e pontos de vistas pessoais. É o caso de Uma furtiva lágrima (2019), em que Nélida descreve, como num diário, as sensações diante de um diagnóstico grave de saúde que lhe tiraria a vida em poucos meses. O texto, intimista e reflexivo, navega entre as lembranças de uma vida profícua e o engajamento dessa vida com a arte literária, que lhe trouxe sentido e substância.

Marcada pela flexibilidade narrativa e versatilidade temática, a trajetória de Nélida Piñon se confirma pela permanência de suas obras que, tratando de uma universalidade humana desejada, é capaz de aprofundar o olhar sobre as subjetividades das personagens retratadas. O texto literário da autora, instrumento e produto final deste percurso, é construído com a prática de quem dedica a vida em desvendá-lo.

 

Nota

1. ZOLIN, Lúcia Osana. Representações interculturais de gênero no romance A república dos sonhos, de Nélida Piñon. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Brasília,  n. 40, 2012. p. 161.
2. GOMES, Carlos Magno. A performance pós-moderna de Nélida Piñon contra o feminicídio em Vozes do deserto. Cadernos Pagu,  Campinas,  n. 53,  2018. p. 5

 

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